Formação Litúrgica
02 - Considerações sobre a Eucaristia

Considerações sobre a Eucaristia

O Concílio Vaticano II (cf. SC n. 47), superando em clareza a doutrina do Concílio de Trento, afirma que a Eucaristia perpetua pelos séculos o Sacrifício da Cruz. Essa afirmação da Igreja relaciona o sacrifício eucarístico com o do Calvário, ou seja, afirma a unicidade do sacrifício de Cristo, afastando, pois, felizmente, toda e qualquer ideia de novo sacrifício. Hoje tem-se a consciência de que o Sacrifício do Calvário torna-se presente na Liturgia, não como repetição histórica, mas de maneira sacramental, em mistério, e com toda a sua eficácia redentora.

Diz-se com acerto que a Eucaristia recebe do Calvário a sua dimensão sacrifical e, do Cenáculo, a sua dimensão convivial. Mas não se trata, na Eucaristia, de um sacrifício seguido de uma ceia, mas de um feito salvífico, que é sacrifício e alimento ao mesmo tempo. A finalidade primária da Eucaristia é tornar-nos um só corpo com Cristo, mediante a comunhão de seu corpo sacramental, e a segunda invocação (epiclese) do Espírito Santo na Oração Eucarística é sobre os comungantes, para que se realize o que aqui se afirma.

Como vimos, a Eucaristia não é então “repetição” da Ceia do Cenáculo, pois esta, como fato histórico, é irrepetível, como também irrepetível, como evento histórico, é o Sacrifício do Cruz. Assim, a primeira celebração eucarística realizou-se depois de Pentecostes, continuando a sua repetibilidade ritual até o fim dos tempos, como páscoa das gerações (cf. SC n. 6), cumprindo a ordem de iteração de Cristo: “Fazei isto em memória de mim” (cf. Lc 22,19; 1Cor 11,24-25).

Na era apostólica, a missa chamava-se “Fração do Pão” (cf. At 2,42) e, depois, "Ceia do Senhor" (cf. 1Cor 11,20), nomes relacionados mais ao sentido de “refeição”, mas já em fins do século I e princípios do século II, com a Didaché e com escritos de Santo Inácio de Antioquia, começa a ser adotado o nome de “Eucaristia”, apontando agora mais para o sentido de “ação de graças”. Devemos, porém, entender “ação de graças” não no sentido popular de “agradecer” simplesmente, mas no sentido literário da oração judaica “todá”, (confissão), ou seja, trata-se de “confessar” a fidelidade de Deus, louvando-o pelas maravilhas operadas na história da salvação, ao mesmo tempo que “confessamos” a nossa infidelidade.

O nome “Eucaristia”, que designa tanto a celebração como o sacramento, predomina, pois, principalmente em formulações litúrgicas e teológicas, enquanto o nome “missa”, que significava no latim tardio “sacrifício” (“Ite, Missa est” = “Ide, acabou o sacrifício”), está muito vivo na mente dos fiéis e nas agendas das igrejas e comunidades, mas numa referência limitada à celebração.

Conforme as Escrituras (Hb 7,27; 9,28a; 10,12; 1Pd 3,18), Cristo morreu uma só vez pelos nossos pecados, oferecendo-se a si mesmo ao Pai, mas, na véspera de sua paixão, para tornar perene tal sacrifício, quis celebrá-lo antecipadamente com seus discípulos. Sacrifício de louvor (cf. Ml 1,11), a Eucaristia é de valor infinito, mas requer, para a sua plena eficácia, a reta intenção de todos os participantes, na cooperação com a graça do alto (cf. SC nº 11), daí a necessária formação litúrgica de todos os fiéis.

Celebrada, pois, em memória de Cristo, a Eucaristia não é, porém, simples lembrança ou simples memória do Sacrifício da Cruz, mas memorial, no sentido também judaico, ou seja, o sacrifício como tal, presente no mistério eucarístico, de maneira sacramental, como acima se falou. Nos sinais sensíveis do pão e do vinho, transubstanciados, Cristo se faz presente, de maneira viva, para ser alimento salutar de seu povo, em feliz caminhada para a casa do Pai.

Um dado teológico, e que pode ser novo para muitos, é que Cristo traz presente “em sua pessoa” todos os atos salvadores de Deus, tornando-os contemporâneos nossos. Na certeza dessa verdade, todos os cinco prefácios da Páscoa vão dizer: “neste tempo solene em que Cristo, nossa Páscoa, foi imolado” (cf. ICor 5,7). Uma observação valiosa: tanto Paulo como os Prefácios chamam a Cristo de “nossa Páscoa”, ou seja, Cristo mesmo “é” a Páscoa cristã, agora e sempre, afastando o entendimento de que a Páscoa “foi” um acontecimento na vida de Cristo e, como tal, um fato já então passado. Observemos ainda outra clareza teológica: “neste tempo”, e não “naquele tempo”, pois o “agora, nestes dias que são os últimos”, de Hb 1,2, é também o nosso “hoje”, o nosso “agora”, dado o caráter sacramental da Liturgia. Entendamos: o momento litúrgico não é tanto “tempo cósmico”, mensurável, mas “tempo de salvação” (Kairós), ou seja, “tempo de Deus”, portanto imensurável.

Nas palavras de São Fulgêncio de Ruspe, Cristo, na história da salvação, “é, ao mesmo tempo, sacerdote e sacrifício, Deus e templo”. Também na celebração da Eucaristia, podemos dizer, seguindo a teologia eucarística, que Cristo é, ao mesmo tempo, sacerdote, altar, cordeiro e Deus. “Sacerdote, por quem somos reconciliados; altar, onde somos reconciliados; cordeiro, pelo qual somos reconciliados; e Deus, com quem somos reconciliados”. E na verticalidade dessa reconciliação, acontece também a nossa reconciliação em dimensão horizontal, isto é, com os irmãos, com a Igreja, com a natureza, e cada um se vê reconciliado consigo mesmo. A cruz nos apresenta a dupla dimensão da reconciliação cristã: vertical e horizontal.

A Eucaristia é celebração de fraternidade e, ao mesmo tempo, sua fonte viva, pois, sendo pura ação de graças, leva-nos não somente à comunhão com Deus, mas também, como exigência do próprio Deus, à comunhão com os nossos irmãos. Constrói-se, pois, a fraternidade a partir da celebração eucarística, e a oração do Pai Nosso, antes da Comunhão, quer nos despertar para esse compromisso da Eucaristia.

Sendo expressão viva do Mistério Pascal de Cristo, a Eucaristia deve trazer em seus ritos litúrgicos a simplicidade do mistério, com sua força transformadora e salvífica, o que torna a celebração realmente mistagógica. Assim, em toda a Liturgia, mas na celebração eucarística principalmente, cada elemento (rito-gesto-canto-símbolo) tem uma função litúrgica própria, como também uma função ministerial, ou seja, cada elemento encontra a sua identificação (o que é), e sua ministerialidade (para que serve) no âmbito da celebração.

João de Araújo