Palavra do Bispo
15 de novembro

            Nesta comemoração da Proclamação da República, talvez, não haja muito a comemorar. Vivemos uma crise política e econômica das mais difíceis da história da República. Recentemente (2013), o povo brasileiro teve de sair às ruas para manifestar sua preocupação e cobrar das autoridades providências de apuração da corrupção no governo, de punição dos culpados e de redefinição dos rumos políticos e econômicos em vista de salvar o que ainda não se tinha corrompido. Depois das eleições de 2014, o povo voltou às ruas, demonstrando insatisfação e reclamando soluções já. Uma grave crise moral produzida pela perda dos valores éticos na vida pública está a destruir a credibilidade de nossos governantes. Encontrar justos em meio aos dirigentes do Estado e de suas instituições não seria tão raro quanto encontrar ouro em garimpos? Então, de fato, nesta data, não temos muito a celebrar.

            No entanto, a Palavra de Deus nos estimula a olhar para o futuro com esperança. A vitória de Cristo, iniciada na ressurreição, se amplia a cada dia pela graça de Deus que é dada a todo o momento e pelo trabalho de todos os homens e mulheres de boa vontade que não desanimam, mas defendem e promovem os valores da ética, cidadania e civismo em todos os âmbitos da sociedade, lutam para levar adiante a confiança no futuro, trabalham pelo progresso do país e o bem estar de todos. Não assistem de camarote a devastação do país empreendida por esses corruptos, desonestos e zombadores da justiça, da verdade e do bem, mas vão em frente, confiando em Deus e fazendo a sua parte.   

            O Evangelho da Missa de hoje - Mc 13, 24-32 - convida-nos a ter uma atitude crítica diante das realidades da vida e do mundo que passam, mas também do momento presente, incluída aqui esta situação particular do Brasil de hoje. Precisamos ter claros os valores e os bens que não passam, mas permanecem para sempre, distinguindo daqueles que são transitórios. E estabelecer, dentre eles, uma hierarquia que proporcione as opções decididas que indicam os caminhos a percorrer rumo à fonte eterna, da qual tudo procede e para a qual tudo converge, que é Deus. É a partir desta fé firme em Deus que vem a fé no ser humano e, em decorrência, a esperança e a certeza de que é possível construir um Brasil diferente, justo, fraterno, solidário, e celebrar o 15 de novembro com mais esperança.

            O trecho evangélico acima citado já nos coloca na perspectiva do final do ano que chega. Deste ponto de vista São Marcos insiste na proximidade do fim dos tempos, embora ninguém conheça a hora. A questão de fundo, porém, é: Será que estamos preparados? Jesus, segundo Marcos, afirma: “O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão”. Jesus é a referência firme. O amor, a fidelidade, a verdade, o bem nunca passam, não saem da moda, permanecem para sempre. O amor é para sempre, sem fim, é Deus mesmo. Feitos à imagem de Deus, somos da mesma essência do amor, criados para uma vida sem fim, eterna e feliz. O que Jesus ensina é para sempre; seu ensinamento não perde validade, permanece até hoje e segue para o amanhã. “Minhas palavras não passarão”, é bom repetir para que nos conscientizarmos que precisamos obedecer a Cristo, a seguir o seu Evangelho se quisermos construir um Brasil novo, uma democracia sólida, homens probos, políticos honestos, cidadãos do bem, um povo de irmãos e irmãs.

            A mensagem de hoje é de chamada à conversão de vida, individual, comunitária e social, para uma dedicação radical ao amor a Deus e aos irmãos, como centro de nossa vida. Este deve ser o ponto de referência inabalável, o valor absoluto que permanece para sempre e que, portanto, indica o caminho seguro que devemos seguir, o único caminho da verdadeira revolução que pode mudar o mundo.           

            Supliquemos a Deus a graça da conversão e a graça que nos fortaleça a construir uma nova sociedade e um novo Brasil.