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A aventura de olhar para além das folhas de figueira - por Samuel Prado

Caro leitor, gostaria de provocar o desafio do olhar para além do conformismo, legalismo, além da adulteração da verdade, sobre o corpo humano, sobre o sexo, sobre o sentido real da relação sexual, ou seja, um olhar para além das “Folhas de Figueira” (Cf. Gn 3, 7)

Nossa sociedade está doente, está adorando um “deus” - o “deus” do sexo - da valorização desencontrada da sensualidade do corpo humano, adulterando o sexo. A verdade que precisa ser revelada a ela é o amor humano, e a provocação que vos faço é de conhecê-la e transmiti-la. O silêncio faz mal e a promiscuidade mais ainda!

Para tal, necessitamos olhar o Plano Original de Deus para o Corpo e o Sexo. Assim, introduzo o que o saudoso São João Paulo II disse: “O corpo é isto: um testemunho (...) do amor” (09/01/1980). Se já tiver lido algum escrito deste santo, com certeza encontrou uma de suas passagens favoritas do último Concílio: “Jesus Cristo (...), pela sua revelação do mistério do Pai e do seu amor, revela o homem totalmente a si mesmo e manifesta de forma mais clara sua vocação suprema” (GS, 22). Esta é a antífona de João Paulo: “Cristo revela totalmente o que significa ser homem.”

Embora seu objetivo nesta etapa seja refletir sobre o Plano Original de Deus em relação aos sexos, como se encontra no Gênesis, o então Papa, na realidade, começa com as palavras de Cristo. Sim, porque o Gênesis só pode ser entendido à luz de Cristo.

Quando alguns fariseus questionaram Jesus a respeito do sentido do casamento, permitiram-se lembrar que Moisés havia permitido o divórcio. A resposta de Jesus apresenta uma das chaves para compreender o Evangelho: “Foi por causa da dureza do vosso coração que Moisés permitiu despedir a mulher. Mas no começo não era assim” (Mt 19, 8). Na realidade, Jesus está lhes dizendo mais ou menos o seguinte: “Vocês acham normal essas tensões, conflitos e preocupações na relação do homem-mulher? Não, isto não é normal. Não foi esta a intenção de Deus ao instituir o casamento. Algo terrivelmente errado aconteceu.”

Imaginem estarmos todos rodando pela cidade em automóveis de pneus vazios, borracha caindo aos pedaços, os aros se amassando e se deformando, e todo mundo achando isto muito normal, afinal, todos os pneus são vistos rodando assim. De acordo com a analogia, Jesus estaria dizendo aos fariseus (e a todos nós): “No começo havia ar nos pneus.”

Se quisermos entender o sentido da união “numa só carne”, de acordo com Cristo, devemos retornar ao “começo”, antes do pecado desfigurar as coisas. Este é o padrão. Esta é a norma. Lendo, neste nível, as reflexões de São João Paulo II sobre os textos da criação, nos daremos conta do quanto nos distanciamos do Plano de Deus. Mas não se desespere! Cristo não veio para condenar os que andam de pneus vazios, e sim para enchê-los e calibrá-los novamente. Não podemos voltar ao estado de inocência, pois já o perdemos. No entanto, seguindo Cristo, podemos recuperar o Plano Original de Deus sobre os sexos e vivê-lo com a ajuda de Cristo (cf. CIC, 1-15).

Ao invés de analisarmos abstratamente o Plano Original de Deus, pomo-nos a considerar as experiências do corpo e da sexualidade do primeiro homem e da primeira mulher. Embora não tenhamos uma experiência direta do estado de total inocência do primeiro homem e da primeira mulher, podemos como o então Papa João Paulo II, afirmar que, em cada um de nós existe um “eco” do começo, as experiências originais - “estão sempre na raiz de toda experiência humana (...) e encontram-se tão efetivamente entrelaçadas com as coisas ordinárias da vida, que geralmente nos passa despercebido o seu caráter extraordinário” (12/12/1979).

Não podemos perder tempo com a afirmação de que a ciência moderna “rejeitou” as estórias da criação apresentadas pelo Gênesis. Todas estas experiências são feitas através do “simbolismo da linguagem bíblica” (CIC, 375). Simbolismo é o meio mais adequado para transmitir verdades espirituais profundas, como procura fazer o Gênesis. As estórias da criação nunca pretenderam apresentar cientificamente a origem do mundo. O conhecimento científico é certamente valioso pelo seu grande avanço, mas é incapaz de explicar o significado espiritual da nossa existência, pois dali os autores divinamente inspirados da Bíblia usam o simbolismo, com o qual estamos familiarizados.

Uma comparação: Veja que diferença faz para uma mulher quando o oftalmologista olha para os seus olhos, e quando faz isto o seu marido ou namorado. O cientista olha sua córnea e registra os fatos científicos, ao passo que o marido ou namorado olha para a sua alma e proclama algo mais poético e inspirado, isso é o mínimo que se espera. Perguntamos: acaso o cientista “rejeita” aquele que ama? Não. Trata-se apenas de duas perspectivas da mesma realidade. O autor do Gênesis não foi cientista, mas um amante inspirado por Deus para proclamar os mistérios espirituais, a origem do mundo e da humanidade. Precisamos ter isto em mente ao examinar as estórias da criação.

Nesta maturidade do original, podemos afirmar que sexo não é apenas sexo. A maneira como entendemos e expressamos nossa sexualidade revela as nossas convicções mais profundas sobre quem somos, quem é Deus, o significado do amor, da organização da sociedade e até do universo. Na área da religião, as pessoas estão habituadas com a ênfase no campo espiritual. Isso porque muitos se sentem até desconfortáveis diante da relevância que às vezes se dá ao corpo, e esta é uma separação artificial.

O espírito, é claro, tem prioridade sobre a matéria. No entanto, o Catecismo da igreja Católica ensina que: “Sendo o homem um ser ao mesmo tempo corporal e espiritual, exprime e percebe as realidades espirituais através de sinais e de símbolos materiais” (CIC,  1146). Como criaturas corporais que somos, esta é, em certo sentido, a única via pela qual nos é dado experimentar o mundo espiritual: no mundo físico e através dele, em nosso corpo e através dele. Deus, ao assumir um corpo na Encarnação, é justamente aqui que, com toda a humanidade, se encontra conosco, isto é, em nosso estado físico e humano.

Sacramento sinal visível de uma realidade invisível. Nossos corpos também são um sacramento! “O corpo é o sacramento da pessoa” (São João Paulo II). Corpo sinal visível, assim ele expressa um sinal invisível, no corpo existe uma realidade gravada do mistério de Deus, nosso corpo transparece nossa interioridade, ou seja, o Corpo traz o sinal invisível de Deus, através do nosso corpo que é visível.

O amor sempre comunica, e ninguém pode amar o nada! O corpo do ser humano desde sempre diz que ele não nasceu para ele mesmo, mas para ser comunicado! Homem e mulher são iguais como pessoas, mas diferentes no corpo, com o chamado a se complementarem. O corpo do homem foi feito para o corpo da mulher, e o corpo da mulher foi feito para o corpo do homem. Desde sempre homem e mulher foram feitos para serem Ícones da Trindade.

Deus usa de muitas imagens para falar com o povo, para expressar o seu amor. A maior imagem que Deus usa para expressar seu amor é o matrimônio, o amor do homem e da mulher, amor esponsal! Do Gênesis até Apocalipse, Deus usa da imagem de casamento para nos dizer que quer casar conosco, toda Bíblia está “prenha” do amor matrimonial. A banalização da sexualidade é o sucesso que o inimigo conseguiu fazer para a tristeza da humanidade. A união do sexo está no centro da grande batalha entre o bem e o mal, entre a vida e a morte, entre o amor e tudo o que a ele se opõe.

Se o sexo está na sua mente, coloque a verdade no seu coração, e a verdade é Jesus Cristo! Reivindiquemos a verdade sobre o corpo, sobre o sexo!