Reportagens Diocesanas
publicado em: 04/05/2019
A FILA ANDA - por Dom Rubens Sevilha

    Não sei se realmente aconteceu, pois o fato pareceu-me demasiado absurdo. Na cidade de São Paulo há filas de pessoas por toda parte. Certa vez alguém estava fazendo uma pesquisa sobre um tema qualquer e, aleatoriamente, aproximou-se de uma longa fila de pessoas e perguntou a um homem de meia idade qual a finalidade daquela fila. O homem respondeu que não sabia.

    A pesquisadora ficou curiosa com o inusitado fato de uma pessoa estar esperando em uma fila sem saber qual a finalidade dela. No diálogo ela descobriu que ele estava desempregado e já desesperançado e psicologicamente alterado pela angústia, andava sem rumo pela cidade e, sem saber como nem porque parou naquela fila como se estivesse esperando algo. Estar numa fila como que esperando algo lhe dava certo alívio na alma.

    Creio que todos nós passamos a vida procurando algo que, fundamentalmente, é o nosso desejo de felicidade eterna. Sabemos que a felicidade eterna tem nome: Deus. Aqueles que desistem de se aproximar de Deus, perdem o rumo ao procurar outros “deuses” e, na angústia profunda que o vazio da alma provoca, desanimam e ficam paralisados em filas inúteis que não levam a lugar algum.

    Todo homem foi plasmado por Deus para o infinito, para o eterno. Essa finalidade grandiosa para a qual Deus criou o homem, contrasta diariamente com a nossa pequenez e a fragilidade do mundo que nos rodeia. Daí a sensação de desconforto, de inadequação, que todo homem carrega dentro de si. A metáfora seria: termos que caminhar, preferencialmente com um sorriso no rosto, embora o mundo seja um sapato número 39 e a nossa alma tenha o pé 42. Viver não é fácil.

    Deus nos acompanha sempre com a sua graça. Deus é fiel ao seu amor. Ele nos sustenta, nos corrige, nos alimenta e, quando preciso, nos carrega nos ombros. Porém, Deus não compactua com a nossa preguiça ou covardia. Aquilo que cabe a nós, sozinhos, devemos fazer, Deus não o faz. E, pelo contrário, tudo aquilo que é impossível para nós, Deus o realiza generosamente. Mas, cuidado! Deus vai realizar aquilo que Ele sabe que é o melhor para nós, pois Deus nos conhece mais do que nós nos conhecemos a nós mesmos. Por isso, nem sempre vai coincidir a vontade de Deus com a nossa. Nesses momentos devemos sempre repetir as palavras da oração que Jesus nos ensinou: Seja feita a vossa vontade, assim na terra como no Céu.

    Creio que hoje há muitíssimas pessoas paradas em filas erradas sem nada esperar.  Claro que ficarão desesperadas quando perceberem que estão envelhecendo, que a vida está passando e que a morte está se aproximando. A fila anda. Quem tem fé sabe que entrou na fila da vida, não na da morte. Para o crente, cada dia que passa é um dia de vida a mais, não um dia a menos. Para o cristão a contagem do tempo da vida é progressiva, para o ateu ela é regressiva. A vida não termina com a morte física, mas, em Cristo Ressuscitado, nossa vida desemboca na feliz vida eterna em Deus.

    Quem tem fé enxerga a vida como um dom que recebeu de Deus. A vida é dom de Deus. Há algo errado quando uma pessoa se diz cristã e, ao mesmo tempo, não gosta da vida que teve e tem. Detesta sua infância e faz questão de carregar consigo e manter vivas todas as dores e sofrimentos que passou na juventude e na vida adulta. É uma ferida que nunca cicatriza, pois ela faz questão de coçá-la continuamente para que a dor permaneça. Deus nos ensinou a curar todas as feridas da alma com a pomada que tudo perdoa. Creio, Senhor, mas aumentai em mim a alegria de viver!

Dom Rubens Sevilha, OCD.

Artigo publicado na Coluna "Conversando com o Bispo" do Jornal da Cidade de 5 de maio de 2019.