Reportagens Diocesanas
publicado em: 27/04/2019
A MISERICÓRDIA - POR DOM RUBENS SEVILHA

    Hoje, nós católicos celebramos o domingo da misericórdia. A festa foi instituída pelo Papa São João Paulo II e o Papa Francisco começou o seu pontificado insistindo sobre a importância e a necessidade da misericórdia no nosso mundo, por isso convocou o Ano Santo extraordinário da Misericórdia.

    A Igreja não quer celebrar a nossa pobre e limitada misericórdia, mas sim, celebrar a misericórdia de Deus. Em Deus, misericórdia e amor são sinônimos. A origem da palavra misericórdia na Bíblia, em hebraico, remete à “entranha” materna. O amor de Deus, como o amor de mãe, nos gerou e nos acompanha por toda a eternidade. Jesus é o rosto do Pai, pois Ele afirmou que “quem me vê, vê o Pai” (Jo14,9). Jesus é o rosto da misericórdia.

    Assim sendo, sabemos que a nossa existência tem um começo, um meio e um fim. Somos frutos do amor misericordioso de Deus. Jamais um cristão se sentirá como um abandonado ou jogado na vida, pois sabe que tem um Pai que é Deus, que enviou seu Filho Jesus que é nosso caminho, verdade e vida. E temos o Espírito Santo que procede do Pai e do Filho, que nos ilumina, fortifica e nos conduz pelos caminhos de Deus.

    Infelizmente, por vezes, a nossa parte humana (razão e emoção) quer falar mais alto do que a nossa fé e nos sentimos confusos, sozinhos ou abandonados. Quem alimenta regularmente sua fé, não sofre de anemia espiritual e, portanto, fortalecido, continua a luta da vida, combatendo o bom combate na fé, na esperança e no amor verdadeiro.

    O nosso amor (misericórdia) humano será sempre limitado e fraco, como tudo o que é humano. Nossa capacidade de amar (misericórdia) é naturalmente muito pequena. Alguns julgam que basta uma heroica força de vontade para que as coisas mudem e cheguem até a afirmar ingenuamente: “querer é poder, se você quiser e tiver força de vontade você consegue tudo”. Mentira! Somente Deus pode tudo aquilo que quer, pois Ele é o Todo Poderoso.

    Aqui entra a maravilhosa misericórdia de Deus. Apoiando-nos nele e deixando-nos carregar por Ele, como a criança nos braços do Pai, somos fortalecidos e, agora sim, vencedores. Deus sempre irá à frente, não nós. Muitos, inconscientemente, se relacionam com Deus como se Ele fosse um nosso super secretário executivo. Nós planejamos e decidimos e Deus vem atrás de mim executando. Isso não vai dar certo, pois nunca, na história, deu certo o homem querer tomar o lugar de Deus. As coisas funcionam bem quando humildemente nos colocamos no nosso lugar, ou seja, Deus na frente e em primeiro lugar e nós atrás em último lugar.

    Santa Teresinha, que é doutora em humildade e simplicidade, ao descobrir sua pequenez e pouca capacidade de amar, pediu a Deus que Ele suprisse sua incapacidade de amar, colocando o amor dele no coração dela. Pediu que ela se tornasse instrumento do amor dele. De fato, o cristão não tem luz própria. A nossa luz é reflexo da luz de Deus. O nosso amor, quando verdadeiro, é reflexo do amor de Deus. A nossa misericórdia é reflexo da misericórdia de Deus.

    Infelizmente, muitos julgam consistir a misericórdia em ter algum sentimentalismo, até com lágrimas, ao ver vídeos de crianças subnutridas morrendo de fome na África. É muito cômodo e fácil ser misericordioso sentado no sofá tomando chá (ou cerveja).

    Senhor, ensina-me amar. Meu amor é muito tosco e meu orgulho e egoísmo são muito arraigados na minha lama. Senhor, ensina-me a amar com o teu amor, ou melhor, ame através de mim pois sozinho eu não consigo. Amém.

 

Dom Rubens Sevilha, OCD.

Artigo publicado no Jornal da Cidade - Coluna "Conversando com o Bispo" de 28 de abril de 2019.