Palavra do Bispo
“A Palavra de Deus é a minha esperança”

Assim cantou o salmista: “Ó Senhor, sois o meu abrigo, o meu escudo, na vossa palavra pus a minha esperança” (Sl 119, 114).

O Israelita fiel sempre confiou na Palavra de Deus. Por isso ele era constantemente exaltado e colocado como exemplo de fidelidade ao Senhor. Desde o Antigo Testamento, segundo se lê na Sagrada Escritura, é “Feliz o homem que medita, dia e noite, a lei do Senhor e nela põe todo o seu prazer” (Sl 1, 2). A Bíblia conta a saga de homens e mulheres fiéis à Palavra de Deus: patriarcas, profetas, reis e rainhas, ricos e pobres, gente da sociedade e do povo simples. No Novo Testamento, Maria Santíssima é a crente fiel por excelência “que guardava todas as coisas vindas do Verbo Encarnado, que via, ouvia e acolhia, e nelas meditava no seu coração” (Lc 2,19). Contudo, Lucas afirma também que são “Felizes todos os que escutam a Palavra de Deus e as põem em prática” (Lc 11,20). Estes, então, pode-se dizer, são da escola de Maria, estão no aprendizado da fé adulta que os torna capazes de, diante das vicissitudes da vida, responderem: “Faça-se em mim segundo a vossa vontade, ó Senhor”.

O mês da Bíblia, setembro, nos anima a amar a Palavra de Deus, nos provoca a aprofundar o conhecimento de sua mensagem, nos incentiva a pô-la em prática e nos impulsiona a divulgá-la. Em vista de priorizarmos estes objetivos para toda a vida, a Igreja instituiu setembro como mês da Bíblia e a Liturgia dominical nos convida a acolhermos a Palavra de Deus com o máximo de amor, de atenção à sua mensagem, de desejo em vivê-la, e de ardor missionário em transmiti-la aos irmãos.   

 O Concílio Vaticano II, realizado há 50 anos, promulgou um documento chamado “Constituição Dogmática “Dei Verbum” – A Palavra de Deus – sobre a Revelação Divina, para “expor a genuína doutrina acerca da Revelação Divina e de sua transmissão, a fim de que pelo anúncio da salvação o mundo inteiro ouvindo creia, crendo espere, esperando ame”. Transcrevo a seguir o trecho que fala do quanto a Igreja venera as Sagradas Escrituras:

“A Igreja sempre venerou as divinas Escrituras, da mesma forma como o próprio Corpo do Senhor, já que, principalmente na Sagrada Liturgia, sem cessar toma da mesa tanto da Palavra de Deus quanto do Corpo do Cristo o pão da vida, e o distribui aos fiéis. Sempre as teve e tem, juntamente com a Tradição, como suprema regra de sua fé porque, inspiradas por Deus e consignadas por escrito de uma vez para sempre, comunicam imutavelmente a Palavra do próprio Deus e fazem ressoar através das palavras dos Profetas e Apóstolos a voz do Espírito Santo. É necessário, portanto, que toda pregação eclesiástica, como a própria religião cristã, seja alimentada e regida pela Sagrada Escritura. Nos Livros sagrados, com efeito, o Pai que está nos céus vem carinhosamente ao encontro de seus filhos e com eles fala. E é tão grande o poder e a eficácia que se encerra na Palavra de Deus, que ela constitui sustentáculo e vigor para a Igreja, e, para seus filhos, firmeza da fé, alimento da alma, pura e perene fonte da vida espiritual. Por isso aplicam-se, por excelência, à Sagrada Escritura estas palavras: ‘É viva e eficaz a Palavra de Deus’ (Heb 4,12 ‘que pode edificar e dar herança a todos os santificados’ (At 20,32; cf.1Tess 2,13)” (DV nº 21). 

 Desejando mostrar a seus leitores que Jesus é o Messias, o Salvador que veio restaurar o mundo e recriar o homem decaído pelo pecado, fazendo-o criatura nova, redimido e salvo, São Marcos narrou, no seu Evangelho, os muitos milagres realizados por Jesus. No entanto, Marcos não escondeu o paradoxo da cruz pela qual Jesus passou. O trecho evangélico da Missa de hoje - Mc 8,27-35 - expõe a realidade do mistério da cruz na vida de Jesus. Em primeiro lugar há a declaração do messianismo de Jesus feita por Pedro, representando a mentalidade padrão reinante inclusive entre os discípulos. Jesus, porém, rejeita essa ideia e contrapõe a sua paixão: “O Filho do homem devia sofrer muito e ser morto, mas ressuscitaria ao terceiro dia”. E afirma que “se alguém quiser segui-Lo devia renunciar a si mesmo, tomar a sua cruz e segui-Lo. Pois, quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas, quem perder a sua vida por causa dEle e do Evangelho, vai salvá-la”. A intenção de Marcos é demonstrar quem é Jesus e quem são os cristãos. Pois está aí perante todos  essa verdade paradoxal: o mistério da cruz está presente na vida do cristão como esteve presente na vida de Jesus. De Jesus sabemos que, aceitando livremente a cruz, abandonou-se confiantemente em Deus, para cumprir a sua vontade. Aplicando-se a Ele o que disse Isaías sobre o servo sofredor: “O Senhor Deus veio em meu auxílio, por isso não fiquei envergonhado” (Is 50,7), a sua ressurreição e a salvação da humanidade são os penhores do seu glorioso triunfo. Por isso, diante dEle todo joelho se dobre no céu e na terra, porque Ele, Jesus Cristo, é realmente o Senhor (cf. Fil 2, 6-11). O Senhor virá também em nosso auxílio e, por isso, a cruz nossa da vida não nos envergonhará, se aceitarmos carregá-la com Cristo como testemunho concreto da nossa fé, a qual se prova pelas obras. E a primeira obra da fé é aceitar a vontade de Deus, acolhendo humildemente a carga da cruz de Cristo que toca a cada um carregar, com amor, em união com Cristo, para a glória de Deus e para a salvação do mundo. “Quem não carrega sua cruz e não vem após mim, não pode ser meu discípulo” (Lc 14, 27).

Supliquemos a Deus grande amor às Sagradas Escrituras que são “espírito e vida”.