Reportagens Diocesanas
publicado em: 14/09/2019
A PARÁBOLA DO RETORNO - POR DOM RUBENS SEVILHA, OCD

                                      A PARÁBOLA DO RETORNO

    Desconheço o autor desta linda paráfrase da parábola do Filho Pródigo que diz:

    O Pai do Evangelho tinha dois filhos. O filho mais velho era um modelo de perfeição. O filho menor era um assíduo frequentador de bar. Com o dinheiro do pai, ele saiu de casa para cair na vida louca. Acabou comendo a comida dos porcos. Essa comida ruim mudou seu coração. Voltou para casa com o arrependimento dos fracos.

    O Pai o esperava e o via de longe enquanto voltava. Na festa do retorno mataram o bezerro gordo. O irmão maior protestou, mas aceitou sentar-se à mesa. O bezerro tinha gosto de perdão.

    No dia seguinte os dois irmãos saíram para trabalhar na roça. Trocaram somente poucas palavras. Enquanto o caçula dava uma enxadada, o mais velho dava três. E assim passaram vários dias. O irmão maior agia como sempre. O menor, sempre agitado, saía às noites e voltava de madrugada com cheiro de vinho. Um dia desapareceu. Tinha voltado para a vida louca. Depois de um tempo voltou para casa derrotado e acabado.

    O Pai o esperava e o via de longe enquanto voltava. Na festa do retorno mataram um cordeiro. A cara feia do filho mais velho constrangia toda a mesa. Mas o cordeiro tinha um gosto mais delicado que o bezerro gordo, tinha mais gosto de perdão.

    Passaram-se os dias. O irmão maior agia como sempre: trabalhador, cumpridor dos seus deveres, perfeito. O mais novo continuava voltando de madrugada com cheiro de vinho. Um dia, sumiu de novo para a vida louca. Algum tempo depois voltou fraco e desfigurado.

    O Pai o esperava e o via de longe enquanto voltava. Na festa do retorno mataram um frango. O irmão maior estava chateadíssimo, calava e comia com a cabeça enterrada no prato. Mas o frango tinha um gosto ainda mais delicado que o bezerro gordo, que o cordeiro... Tinha mais gosto de perdão.

    Passaram-se os dias. O irmão mais velho responsável como sempre. O mais novo sempre nervoso, agitado, insatisfeito. Um dia não o viram mais. Outra vez sumiu na vida louca. Quando voltou, estava totalmente desfigurado e o olhar perdido de tristeza. Um farrapo humano.

    O Pai o esperava e o via de longe enquanto voltava. Na festa do retorno, encontrou só um prato na mesa. O irmão mais velho ficou calado. O Pai também ficou calado, mas calava de outra maneira.

    O filho caçula soube que todos os dias, invariavelmente, havia na mesa do Pai um lugar e um prato para ele. E este prato vazio tinha um gosto melhor que o bezerro, que o cordeiro, que o frango. Tinha o melhor sabor que todas as comidas. Era o gosto de um perdão infinito...

Os dias foram passando. O filho maior continuava certinho como sempre. O Pai continuava como sempre mantendo sua atitude cheia de bondade e acolhida. O filho mais novo partia e voltava, partia e voltava... Partiu e voltou setenta vezes sete. O Pai o esperava setenta vezes sete e o via de longe enquanto voltava. O caçula sempre encontrava o prato na mesa. E aquele prato vazio que o esperava tinha o gosto mais delicado do mundo. O filho maior era incapaz de entender e o Pai sabia disso. E sabia também que o filho menor voltaria algum dia completamente vencido e, sem forças, se sentaria naquela mesa para nunca mais partir.

Benditos retornos! Setenta vezes sete. Depois deles o filho mais novo sabia que Pai ele tinha.

 

Bauru, 15 de setembro de 2019.

Dom Rubens Sevilha, OCD.