Reportagens Diocesanas
publicado em: 24/08/2019
A PORTA DO CÉU - POR DOM RUBENS SEVILHA

 

    Jesus, no trecho do Evangelho de Lucas 13, 22-30, lido na liturgia de hoje, ao ser interrogado se “é verdade que são poucos os que se salvam” respondeu: “Fazei todo o esforço possível para entrar pela porta estreita”.  Em primeiro lugar não é simples o significado de “salvação”. Sabemos que salvos serão todos aqueles que, no julgamento divino, após a morte corporal, serão aprovados por Deus e “entrarão” no céu.

    Mas, como será o julgamento de Deus? É um mistério. A Sagrada Escritura nos dá inúmeras indicações que foram confirmadas na vida da Igreja ao longo dos séculos. Deus irá julgar a nossa vida. Se o critério de Deus ao julgar-nos for castigar os nossos erros e premiar as nossas virtudes, provavelmente estaremos todos perdidos, pois toda criatura, por ser criatura, é naturalmente imperfeita. Portanto, todo ser humano inevitavelmente cometerá erros ao longo da vida.

    Os mais escrupulosos dirão: “Os erros entre nós não são iguais nem em tamanho, nem em quantidade”. É verdade que alguns cometem muitos erros e outros poucos. Alguns erros são grandes, outros pequenos. Todavia, também é verdade que as virtudes não são iguais nem em tamanho, nem em quantidade. Somente a amorosa matemática divina conseguirá calcular as múltiplas equações que esse tipo de raciocínio induz: como julgar alguém que fez muitos atos bons mas pequenos e alguns erros grandes mas poucos. E vice-versa.

    Como julgar a grandeza ou a pequenez de um ato humano? Só Deus, literalmente, poderá julgar e, por isso mesmo, nos proibiu de exercer qualquer tipo de julgamento sendo taxativo conosco: “Não julgueis para que não sejais julgados. Porque com o juízo com que julgardes sereis julgados e, com a medida com que tiverdes medido, vos hão de medir a vós. E por que reparas tu no cisco que está no olho do teu irmão, e não vês a trave que está no teu olho? Ou como dirás a teu irmão: Deixa-me tirar o cisco do teu olho, estando uma trave no teu? Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho, e então cuidarás em tirar o cisco do olho do teu irmão” (Mt 7,1-5).

    Deus não somente “tem” amor, mas é infinitamente mais do que isso, pois Deus é amor (1 Jo 4,16), portanto, a justiça de Deus será também um amoroso julgamento, com uma terna severidade. Enfim, será como uma mãe amorosamente severa e justa julgando e corrigindo o filho.

    Obviamente o conteúdo do julgamento será todo ele sobre o amor. O grande místico São João da Cruz afirmou que “no final da vida seremos julgados sobre o amor”. Não resta dúvida alguma sobre isso pois o próprio Jesus nos ensina com detalhes sobre o julgamento final em Mateus capítulo 25, versículo 31:

    “Quando o filho do Homem vier em sua glória e todos os anjos com ele, então se assentará no trono de sua glória. E diante dele serão reunidas todas as nações. Então ele separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. Colocará as ovelhas à sua direita e os cabritos à sua esquerda. Então o Rei dirá aos da direita: Venham, benditos de meu Pai! Recebam por herança o Reino preparado para vocês desde a criação do mundo. Pois tive fome e vocês me deram de comer, tive sede e me deram de beber, era estrangeiro e me acolheram, estava nu e me vestiram, estava doente e me visitaram, estava na cadeia e vieram me ver. Todas as vezes que vocês fizeram isso a um desses meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizeram”.

    O egoísmo é uma porta larga que desemboca no nada. O bem é uma porta exigente que desemboca na Vida!

Bauru, 25 de agosto de 2019.

                               Dom Rubens Sevilha, OCD.