Reportagens Diocesanas
publicado em: 20/09/2019
AS DORES HUMANAS - POR DOM RUBENS SEVILHA, OCD

AS DORES HUMANAS

    A dor em alguma parte do corpo indica que algo não está funcionando bem. Há também as dores da alma indicando, como uma luzinha que acende nos aparelhos eletrônicos, que alguma coisa ali não está bem. No espírito humano essa luzinha se chama consciência. É automático: quando você faz alguma coisa errada, mesmo quando o mal vem com a aparência de bem ou por mais que escondida que seja – mesmo quando escondida de você mesmo, a luzinha da consciência acende em forma de angústia, tristeza, tédio.

    O bem, pelo contrário, sempre gera paz e serenidade. Exceção seja feita ao psicopata que, por um defeito de “fabricação”, nasceu com a luzinha da consciência queimada e, portanto, não sente nada diante do mal nem do bem. Na maioria de nós a luzinha da consciência funciona relativamente bem, mas ela exige cuidados e manutenção. É preciso cuidar da própria consciência fazendo diariamente um exame de consciência antes de dormir. Avaliar o dia transcorrido e passar um pente fino observando onde agimos bem, como cristãos, colocando o maior amor possível em todas as situações, inclusive nas pequenas coisas diárias ou onde faltou amor e sobrou indiferença, rudeza e egoísmo.

    São João da Cruz escreveu que fazer o exame de consciência e receber o sacramento da Reconciliação (Confissão) com frequência é semelhante a pentear os cabelos regularmente. Caso contrário, os cabelos emaranhados ficam mais difíceis de desembaraçar.

    Infelizmente a educação moderna não nos prepara para enfrentar com sabedoria e coragem as dores da vida. Pelo contrário, temos hoje o desejo ilusório e infantil de levar uma idílica vida sem dores. As novas gerações não estão preparadas para lidar com a dor. Quando elas surgem e inevitavelmente elas sempre surgirão, pois fazem parte da condição humana, muitos ficam inicialmente paralisados e logo desesperados. Alguns, infelizmente, chegam ao extremo do suicídio, outros provocam um suicídio disfarçado com o excesso de bebidas e drogas, excesso de comida, excesso de velocidade et cetera.

    Os jovens criados em redomas protetoras anti-sofrimentos e, portanto, totalmente despreparados para enfrentar a dor, quando experimentam uma das piores dores humanas que é a dor de ser abandonado pela pessoa amada, literalmente se desesperam e muitos cometem loucuras.

    Graças a Deus, a maioria das pessoas não chegam aos extremos, mas muitos afundam na bebida, nas drogas e na tristeza profunda. Deus nos criou e nos colocou na vida com a missão de fazer o bem sempre e a todas as pessoas. A cultura atual ao rejeitar a Deus como Pai, sente-se órfã e abandonada e, recusando apoiar-se na rocha firme da fé e sem o colo de Deus para se refugiar, o solitário homem moderno se desespera e se afunda na tristeza. Alguns lutam loucamente para fugir do vazio caindo na areia movediça das ilusões do mundo: consumismo, carreirismo, poder, prazer et cetera.

    Jesus Cristo tomou sobre si as nossas dores. Nossas dores estão unidas às dores de Cristo. Nossas dores são as dores d’Ele e as dores d’Ele são as nossas dores. As dores dos nossos irmãos são nossas dores também. Esta união espiritual é conhecida como a “comunhão dos santos” conforme rezamos na oração do Creio todos os Domingos, na Missa. Não nos esqueçamos que as chagas de Cristo continuam abertas!

                    Dom Rubens Sevilha, OCD.

22 de setembro de 2019.