Reportagens Diocesanas
publicado em: 03/08/2019
AS MIGALHAS DE DEUS - POR DOM RUBENS SEVILHA

Toda criatura, sobretudo o ser humano, tem sede de Deus. Todos nós fomos criados por Deus com a missão de passar a vida fazendo o bem e, após a nossa morte, festejar eternamente na Cidade Celeste.

     Infelizmente a nossa falta de fé faz com que compliquemos a maravilhosa arte do bem viver. Falta-nos humildade e sobra orgulho em nós. Temos dificuldade em aceitar nossa pequenez e limitações e, na nossa comum mania de grandeza, queremos competir, não somente entre nós, para ver quem será o maior, mas competimos até com Deus.

     Ao longo da história, desde Adão e Eva, nós queremos impor a nossa vontade embora repitamos com frequência: Seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu. Não é fácil aceitar as próprias fraquezas e limitações, nem a dos outros. Não é fácil não ter o controle de todas as situações da nossa vida, especialmente quando enfrentamos problemas maiores do que nós e não conseguimos achar a saída ou explicação para os acontecimentos que nos angustiam.

     Também do ponto de vista “espiritual” não é fácil aceitar a humana sensação de certa ausência, ou silêncio, ou demora de Deus. Encantou a Jesus a fé daquela Cananeia que, na sua pequenez, contentou-se com as migalhas que caíam da mesa de Deus (Cf. Mt 15,22-28). De fato, creio que na maior parte da nossa vida temos que nos contentar com as migalhas de Deus. Nossa inteligência deve humildemente aceitar as migalhas teológicas que caem da mesa divina. Nossas atividades pastorais, às vezes, são literalmente migalhas diante de tão grandes e complexas necessidades do nosso povo.

     Aqui está o milagre da multiplicação das migalhas com as quais Jesus continua alimentando e transformando a realidade. A construção do Reino de Deus é feita com migalhas divinas e também com as migalhas humanas divinizadas pela força de Deus. De fato, Deus costuma realizar a sua obra através das coisas e pessoas simples e humildes. “Deus escolheu o que é fraco deste mundo para confundir o forte” (1Cor 1,27) e demonstrar que é Ele, o Senhor e Deus, quem conduz e constrói a história. Nós somos somente servos, às vezes inúteis, nas mãos do Senhor como instrumentos na construção do seu Reino que é amor, justiça e paz.

     “Se o Senhor não construir a casa, em vão trabalham os construtores” (Salmo 127). O mundo moderno quer construir a casa humana rejeitando a Deus, por isso, está literalmente trabalhando, com muito esforço, muito sofrimento, muito barulho, mas, em vão. São João da Cruz compara aqueles que querem muito fazer prescindindo de Deus, como martelar ferro frio. Fazem muito esforço e barulho para pouco ou nenhum resultado. Quando o ferro é tomado pelo fogo, com pouco esforço e, silenciosamente, pode-se moldá-lo facilmente. Assim aquele que, invadido pelo fogo do amor de Deus, silenciosa e humildemente consegue transformar mentes e corações bem como o ambiente onde vive.

     O cristão não tem luz própria, mas nele brilha a luz do Pai. “Que os homens vendo as vossas boas obras glorifiquem o vosso Pai que está nos céus” (Mt 4,16), portanto, não devemos buscar a nossa própria glória, mas sempre a maior honra e glória de Deus.

     Quando a sábia e realista mulher Cananeia acolheu com amor e simplicidade as migalhas que Jesus lhe ofereceu, as coisas se transformaram e ela recebeu da boca do Mestre, além de um importante elogio, a cura pedida: “Mulher, grande é a tua fé! Seja feito como queres! E a partir daquele momento sua filha ficou curada” (Mt 15,28).

 

Bauru, 4 de agosto de 2019.

Dom Rubens Sevilha, OCD.