Palavra do Bispo
Casamento sem vinho?

            Mesmo no tempo de Jesus não dava para imaginar uma festa de casamento sem vinho. O que podia diferenciar no casamento de ricos ou de pobres era a qualidade do vinho, mas faltar vinho não era admissível; se faltasse seria uma situação vergonhosa para os noivos e sua família. Na tradição bíblica, para o judeu, o vinho era sinal de alegria e símbolo do amor.  

            Pois, faltou vinho nas bodas de Caná da Galileia, quando Jesus mal começava a desenvolver as suas atividades apostólicas. A leitura do trecho evangélico da Missa de hoje - Jo 2, 1-11 – conta o que aconteceu na festa desse casamento. Jesus, sua mãe e seus discípulos tinham sido convidados para o casamento. Pelo fato extraordinário que ali aconteceu sobressaem as figuras de Jesus e de sua Mãe, enquanto que dos demais convivas e notadamente dos noivos todos permanecem no anonimato.  

            Foi Maria quem percebeu que o vinho veio a faltar. Então, ela disse a Jesus: “Eles não têm mais vinho”. Jesus lhe respondeu: “Mulher, por que dizes isso a mim? Minha hora ainda não chegou”. Sua mãe disse aos que estavam servindo: “Façam tudo o que Ele lhes disser”. Nós sabemos o que aconteceu a seguir, tantas foram as vezes que ouvimos falar que Jesus transformou água em vinho numas bodas em Caná. Jesus pediu aos servidores que enchessem de água as seis talhas de cem litros cada até a boca. Depois disse: “Agora tirai e levai ao mestre-sala”. O mestre-sala provou e foi manifestar a sua surpresa ao noivo: “Todo mundo serve primeiro o vinho melhor e, quando os convidados já estão embriagados, serve o vinho menos bom. Mas tu guardaste o vinho melhor até agora”. O Evangelista João concluiu a narrativa, observando: “Este foi o início dos sinais de Jesus. Ele o realizou em Caná da Galileia e manifestou a sua glória, e seus discípulos creram nele”.

            Em qualquer casamento o vinho era indispensável. Ainda que os pobres não pudessem servir vinho bom, ao menos em todo o tempo da festa, no entanto, faltar vinho é que nunca podia acontecer. Mais do que a sua sensibilidade em perceber o constrangimento da família pelo que ia acontecer, sobressai na iniciativa da Mãe do Senhor que levou o problema ao Filho, sem ousar verbalizar um pedido explícito, que ela sabia que o Filho tinha poder para resolver o problema e que Ele lhe atenderia. Pôs-lhe a situação e apenas confiou. Que confiou ela o demonstra porque foi logo dizendo aos que estavam servindo na festa: “Façam tudo o que Ele lhes pedir”. Ela não teve dúvidas de que o Filho iria agir e lhes pediria alguma coisa. Vem daí que os devotos de Maria ainda hoje não deixam nunca de confessar pública e ostensivamente a sua confiança na mãe do Senhor quando convidam todo mundo a invocar a sua intercessão, no caso de alguém ter alguma necessidade, dizendo: “Peça à Mãe que o Filho atende”. Não há neste mundo maior nem melhor intercessora do que a Mãe do Senhor. Não há dúvida alguma de que ela sempre intercederá em favor dos seus devotos, nem de que o Filho a atenderá.

            Desculpe-me, se faço comparação vulgar, mas uso a imagem da estratégia de que usam os homens quando programam, por exemplo, uma peça teatral ou uma apresentação televisa, por me parecer que torna mais fácil a compreensão para a qual os biblistas nos chamam a atenção. Ouso dizer que não constava no “script” o milagre das bodas de Caná. No roteiro do projeto do Pai, a entrada solene do Filho em cena, dando início à sua vida missionária, certamente se daria mediante a realização do primeiro milagre numa outra ocasião, talvez em circunstância de maior projeção, diante de uma multidão, em outro lugar, uma praça pública de uma grande cidade ou de Jerusalém. Não fosse assim, como se entender que Jesus tenha respondido à mãe: “Mulher, por que dizes isso a mim? Minha hora ainda não chegou”. Que teria a ver com o anúncio do Reino, conteúdo essencial da missão de Jesus, a falta de vinho na festa de um casamento do interior? Mulher, que tenho eu a ver com isso? Não está no roteiro. Inclusive a hora de acontecer um grande milagre nem chegou. Aos biblistas chamou a atenção de que Jesus, na sua resposta, dirigiu-se agora à “mulher”, não à mãe. Eles explicam que Jesus queria deixar claro que a sua missão, de fato, deveria ser entendida na perspectiva do Plano de Salvação da humanidade. Nesse Plano de Salvação, Jesus é o novo Adão, o novo homem, e a sua mãe, a nova mulher, a nova Eva. Para bem cumprir a missão de Salvador, então, realizar milagres deveria estar em sintonia com a salvação pelo perdão dos pecados. Ora, que teria a ver esse casamento com a salvação planejada para salvar e redimir do pecado? Que sentido teria com o Reino fazer milagre para não faltar vinho numa festa matrimonial de simples camponeses moradores de uma pequena aldeia?  

Jesus, no entanto, atendeu ao pedido da mãe, primeiro porque de mãe alguma se nega um seu pedido, depois, porque, pensando bem, diríamos nós hoje aproveitando o poeta, “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”, deixou de lado o “script” para expressar desde o início da sua carreira que o objetivo último do Plano do Pai é resgatar a antiga aliança judaica, que foi rompida pelo pecado, a fim de ser celebrada, por meio do seu amor sacrificado no altar da cruz, uma nova aliança, o esponsal cristão no qual não falte nunca o vinho bom da alegria e do amor, que reavivasse o espírito e tornasse a vida feliz, plena e esperançosa. Conviria, portanto, que desde o início de seu trabalho missionário, Ele fizesse acompanhar o anúncio do Reino com o oferecimento do vinho bom da alegria e do amor. E foi assim que Jesus fez, transformou água em vinho bom.  O Reino de Deus é como um casamento, Jesus é o noivo da comunidade que dá o vinho bom.