Palavra do Bispo
Comunhão Missionária

Conclui a reflexão que fiz no domingo passado sobre a passagem evangélica de Marcos 6, 7-13, dizendo que, tendo presente a alegria dos discípulos que voltaram entusiasmados da missão, podia-se dizer, sim, que a comunhão com Jesus levava à alegria de ser missionário.

Hoje, refletindo ainda na sequência de Marcos 6, 30-34, desejo salientar que a nossa adesão e intimidade com Jesus devem levar-nos também a uma comunhão missionária. Segundo ouvimos, os apóstolos, voltando da missão, contaram a Jesus tudo o haviam feito e ensinado. Então, Jesus os convidou para, sozinhos, se retirarem com Ele a um lugar deserto a fim de descansar um pouco, rezar e avaliar a experiência com mais calma. Isso porque, se ali permanecessem, o povo não lhes dava sossego nem para comer em paz. Acontece, porém, que Jesus e os apóstolos ao chegarem de barco ao outro lado do lago deram com uma numerosa multidão que lá se encontrava, esperando-os. Jesus viu e teve compaixão desse povo, porque eram como ovelhas sem pastor. Pôs-se, pois, a ensinar-lhes muitas coisas sobre o Reino de Deus.

Convido-o, prezado leitor e leitora, a ter presente também o que o Papa Francisco nos diz na “A Alegria do Evangelho”, nº 23: “A intimidade da Igreja com Jesus é uma intimidade itinerante, e a comunhão ‘reveste essencialmente a forma de comunhão missionária’ (João Paulo II). Fiel ao modelo do mestre, é vital que hoje a Igreja saia para anunciar o Evangelho a todos, em todos os lugares, em todas as ocasiões, sem demora, sem repugnâncias e sem medo. A alegria do Evangelho é para todo o povo, não se pode excluir ninguém; assim foi anunciada pelo anjo aos pastores de Belém: ‘Não temais, pois anuncio-vos uma grande alegria, que o será para todo o povo’ (Lc 2,10). O Apocalipse fala de ‘uma Boa-Nova de valor eterno para anunciar aos habitantes da terra: a todas as nações, tribos, línguas e povos’ (Ap 14,6)”.

A Boa-Nova de valor eterno é Jesus Cristo. Uma Igreja renovada e missionária só pode pôr-se “em saída”, a partir do renovado encontro com Jesus Cristo. Os Bispos latino-americanos reunidos recentemente em Aparecida assim se expressaram: “Conhecer a Jesus Cristo pela fé é nossa alegria; segui-Lo é uma graça, e transmitir este tesouro aos demais é uma tarefa que o Senhor nos confiou ao nos chamar e nos escolher” (D.Ap. 18).

 Com efeito, a intimidade com Jesus vem do encontro com Ele, que deve ser sempre renovado, não só para um gozo místico pessoal de quem recebeu em si a alegria de nEle crer, mas também para o animar a viver uma comunhão missionária no seio da Igreja, mas que o impulsione, bem como toda a Igreja, a sair para anunciar o Evangelho a todos, sem demora e sem medo. Uma Igreja “em saída” é aquela que, em primeiro lugar, vive na intimidade e comunhão com Jesus. Somente um discípulo apaixonado por Jesus sente a alegria de evangelizar, pois quer anunciar o tesouro que descobriu, no dizer de São Francisco de Assis “o amor que não é amado”, Jesus Cristo.

Por isso, Jesus convidou os apóstolos a se afastarem sozinhos com Ele para um lugar deserto, porque Ele desejava despertá-los quanto à necessidade de entremear na ação missionária momentos de recolhimento para descanso e diálogo em espírito e em verdade e para oração amorosa com Deus, com o objetivo último de estreitar os laços da convivência fraterna entre si e da intimidade e comunhão com Ele mesmo. Na escola de Jesus, os apóstolos foram se preparando para assumir no momento oportuno o mandato missionário de “sair em missão”, não isoladamente, mas como comunidade de missão itinerante, que vive sob a forma de “comunhão missionária”, sempre fiel “ao ensinamento dos Apóstolos, à comunhão fraterna, à Eucaristia e às orações” (At 2,42).

Em face do novo milênio, o Magistério da Igreja vem nos chamando e enviando à missão, “rumo a uma evangelização, que seja nova no entusiasmo, nos métodos e na expressão e responda aos desafios dos novos tempos” (Projeto ser Igreja no novo milênio). Continuamente, a partir de Jesus Cristo, em alegria e comunhão missionária.