Material Formativo
Conteúdo do Encontro de Liturgia e Música com Eurivaldo Silva Ferreira

ENCONTRO DE FORMAÇÃO LITÚRGICO-MUSICAL

 

Bauru, 26 de maio de 2013.

Colaboradores: Eurivaldo Silva Ferreira[1] (euriferreira@gmail.com), Márcio A. de Almeida[2] (almajm@ig.com.br) e Daniel De Angeles[3] (danidedeangeles@gmail.com)

 

PALAVRAS INICIAIS...

 

Uma saudação especial a quem se dedica ao ministério litúrgico-musical de nossa Igreja.

Durante este encontro, vamos fazer uma viagem pelo tema Canto e Música na Liturgia. Não somente para lidar com conhecimentos técnicos e conceituais a seu respeito, mas para tomá-los em nós, em nossos corações, em nossos corpos... Vamos preparar o nosso encontro significativo e sensível com o Mistério por meio do estudo e da vivência de conceitos centrais da liturgia e da música litúrgica, sem os quais esse encontro não alcançará sua plenitude. Aprender para participar ativa, plena e conscientemente... Aprender para guiar/formar o povo celebrante nas comunidades eclesiais espalhadas por esta cidade... Aprender para unir conhecimento e experiência da ação de Deus que faz sua caminhada pascal conosco e em nós... Aprender para servir, como fez Jesus.

Que vocês possam, nos momentos de estudo, reflexão, oração e recreação, provar da “fonte” e contemplar o “cume” da liturgia-vida no serviço ao povo de Deus!

 

 

 

RAZÕES DO NOSSO CANTAR (Estudos da CNBB, n. 79)

 

Razão teológica (cf. n. 347-349) – Celebrar a ação de Deus em nossa vida

A expressão litúrgica (palavra, ritos, gestos e símbolos) é encarregada de introduzir no mistério de Deus e desvelar as experiências mais profundas e inefáveis do coração humano. [...] a música e o canto carregam uma capacidade expressiva e mobilizadora muito acima do logos (Palavra). O texto poético [...] aliado a uma melodia que ressoa na profundidade do coração humano, eleva os corações e produz por si mesmo um encontro que vai além da mera emoção estética. Daí o seu caráter particularmente simbólico e sacramental.

 

Razão cristológica (cf. 350-351) – Celebrar o Mistério Pascal do Senhor

O canto litúrgico brota do [...] Mistério Pascal do Senhor. Culto: AT (Êxodo e na Aliança); NT (memória viva da Páscoa de Jesus – dimensão pascal da vida e do cantar).

 

Razão pneumatológica (cf. 352-353) – Cantar no espírito

A oração cristã, que tem sua expressão mais suave, mais bela e mais envolvente no canto litúrgico, não é somente oração para Deus, mas em Deus (entusiasmo). A assembleia que canta no Espírito faz ressoar um canto que é verdadeiro clamor que brota do fundo da alma, cheio de fervor, de alegria no Espírito [...] contato e imersão no Mistério.

 

Razão eclesiológica (cf. 354-355) – Cantar em comunidade

O canto é atividade essencialmente comunitária. [...] A comunidade faz o cantar e o cantar faz a comunidade. A participação comunitária não se dá só diretamente cantando, mas ouvindo e apreciando: deixando-se envolver pela beleza da música. O canto é um dos elementos que compõem a visibilidade, a corporeidade do simbolismo sacramental. Por meio deste sinal sensível, a Palavra cantada é veículo de encontro de Deus conosco e dos fiéis em Cristo entre si.

 

A NATUREZA SACRAMENTAL DA MÚSICA LITÚRGICA (Estudos da CNBB, n. 79)

 

189. Nossas celebrações são acontecimentos simbólicos. Não são, em primeiro lugar, momentos de doutrinação e aprendizado, de debate ou deliberação, de avaliação ou planejamento, nem mesmo de meditação ou oração individuais. Um pouco disso tudo pode até haver, mas o que se busca no momento celebrativo é transcender o cotidiano e ir além do superficial, atingir em profundidade, o mistério de tudo quanto se vê e se toca.

190. Nossas celebrações são Memorial e Mistério. Recordando, em palavras e gestos, os fatos salvíficos do passado, a assembléia celebrante goza da certeza de que o Deus de ontem, o Deus de hoje e de sempre, aí está presente. Ele continua realizando as mesmas maravilhas na caminhada do povo e garantindo-lhe um futuro de plenitude.

A celebração é o ponto de encontro com o Senhor Ressuscitado. Aí o ovo de Deus se renova na certeza de que Ele está presente todos os dias, até o fim do mundo (Mt 28,20).

191. A música, a mais espiritual de todas as artes, tem tudo a ver com essa experiência. Que coisa, mais que o canto em uníssono, acompanhado dos toques e sons sugestivos de instrumentos e realçado pela força comunicativa da dança, poderá nos transportar a esses mundos recônditos e nos fazer experimentar juntos o invisível, o inefável, levando os corações a vibrar juntos por aquelas “razões que a própria razão desconhece”?

192. Sem dúvida alguma, é, sobretudo este canto vibrante da assembleia cristã que nos faz provar mais saborosamente como o Senhor é bom (Sl 34,9), sentir e curtir a presença do Ressuscitado, experimentar a consolação e a força renovadora do seu Espírito. Mas é importante observar com alguém que melhor entendeu disso tudo que na celebração do culto da Igreja, a proposta não é de ‘fazer música’, mas de entrar, por meio da arte musical, no mistério da salvação (Gelineau).

193. Há 16 séculos atrás, S. Agostinho, ao definir o canto litúrgico como “profissão sonora da fé”, já fala do “canto eclesiástico” como aquele que é apto para cumprir a função litúrgica que dele se espera. Trata-se, portanto, de uma arte essencialmente funcional, vale dizer, trata-se de música ritual.

194. Foi essa compreensão original que o Concílio Vaticano II veio  resgatar, quando, ao falar de “Música Sacra”, a definiu como parte integrante da liturgia, e acrescentou que será tanto mais sacra, quanto mais intimamente estiver ligada à ação litúrgica (SC 112). Assim compreendida, a Música Litúrgica não pode ser tomada apenas como adorno ou acessório facultativo da celebração cristã da fé. Ela não é coisa que se acrescenta à oração, como algo extrínseco, mas muito mais, como algo que brota das profundezas do espírito de quem reza e louva a Deus (IGLH 270). Mais ainda, a Música Litúrgica participa da natureza sacramental ou mistérica de toda a liturgia, da qual sempre foi e sempre será parte essencial e sua expressão mais nobre.

195. A palavra “Liturgia” por si mesma já significa ação do povo. Eis a comunidade cristã reunida em nome de Jesus, dotada pelo Espírito de toda a sorte de carismas, organizada como um corpo vivo, no qual cada membro tem um serviço a prestar, no seu momento mais expressivo, a Celebração do Mistério da Fé!

196. A música que aí se toca, canta e dança, é ação musical – ritual da comunidade em oração. É música a serviço do louvor ou do clamor deste povo, ao realizar os seus “Memoriais”. É música a serviço do “encontro” das pessoas humanas entre si e com as Pessoas Divinas. Não uma música qualquer. Não simplesmente  uma bela música. Nem, apenas, piedosa. Mas uma música funcional, com finalidade e exigências bem delimitadas: um rito determinado, com seu significado específico.

197. Essa compreensão da natureza funcional, da ritualidade da Música Litúrgica, é que, em cada caso, definirá as escolhas a serem feitas em termos de textos, melodias, ritmos, arranjos, harmonias, estilos de interpretação, etc. O importante é que determinada criação musical sirva para a comunidade celebrante desempenhar bem o rito que realiza.

198. Esta funcionalidade da Música Litúrgica, ao delimitá-la com precisão, em nada vem a prejudicar sua qualidade como arte musical, nem bloquear a inspiração do artista litúrgico. Pelo contrário, em cada contexto existencial, cada momento ritual será novo apelo à criatividade e ao gênio musical de quem compõe a letra ou a música, de quem escolhe o repertório, anima o canto, toca o instrumento e, com a voz e o corpo, produz o louvor ou o clamor. O rito dá o rumo, e o artista embarca nessa inspiração inicial em busca da beleza a serviço da fé. E quando o artista litúrgico consegue atingir o pleno esplendor da forma musical, a música se torna a alma do rito. E a música ritual, graças à força simbólica e poética que ele imprime ao rito, será capaz de transportar seus atores, toda a assembleia orante, para bem além dela própria, projetando-a no insondável Mistério de Deus.

199. Tal funcionalidade ritual da música litúrgica vai, finalmente, exigir dos autores (letristas) e compositores (músicos), de todos os agentes litúrgico-musicais, na realização da sua arte ou do seu ministério, além da competência técnica e artística, uma consciência e uma sensibilidade que só consegue atingir quem participa efetivamente de uma comunidade cristã, só quem tem uma vivência suficientemente profunda da fé, partilhada num ambiente eclesial.

200. Em se tratando de música litúrgica, sua verdade, seu valor, sua graça, não se medem apenas pela sua capacidade de suscitar a participação ativa, nem por seu valor estético-cultural, nem por seu sucesso popular, mas pelo fato de permitir aos crentes implorar os ”Kyrie Eleison” dos oprimidos, cantar os “Aleluia” dos ressuscitados, sustentar os “Maranatha” dos fiéis na esperança do Reino que vem (Universa Laus).

 

 

CARTA AOS AGENTES DE MÚSICA LITÚRGICA DO BRASIL (Brasília, 25 de setembro de 2008)

 

 

A liturgia ocupa um lugar central em toda a ação evangelizadora da Igreja. Ela é o “cume para o qual tende a ação da Igreja e, ao mesmo tempo, a fonte de onde emana toda a sua força” (SC 10). Nela, o discípulo realiza o mais íntimo encontro com seu Senhor e dela recebe a motivação e a força máximas para a sua missão na Igreja e no mundo (cf. DGAE nº 67).

Há uma relação muito profunda entre beleza e liturgia. Beleza não como  mero esteticismo, mas como modalidade pela qual a verdade do amor de Deus em Cristo nos alcança, fascina e arrebata, fazendo-nos sair de nós mesmos e atraindo-nos assim para a nossa verdadeira vocação: o amor (cf. SCa 35). Unida ao espaço litúrgico, a música é genuína expressão de beleza, tem especial capacidade de atingir os corações e, na liturgia, grande eficácia pedagógica para levá-los a penetrar no mistério celebrado.

Acompanhamos, com entusiasmo e alegria, o florescer de grupos de canto e música litúrgica, grupos instrumentais e vocais, que exercem o importante ministério de zelar pela beleza e profundidade da liturgia através do canto e da música. Sua animação e criatividade encantam muitos daqueles que participam das celebrações litúrgicas em nossas comunidades. Ao soar dos primeiros acordes e ao canto da primeira nota, sentimos mais profundamente a presença de Deus.

Lembramos alguns aspectos importantes que contribuem para a grandeza do mistério celebrado.

1. A importância da letra na música litúrgica - a letra tem a primazia, a música está a seu serviço. A descoberta da beleza de um canto litúrgico passa necessariamente pela análise cuidadosa do conteúdo do texto e da poesia. A beleza estética não é o único critério. Muitas músicas cantadas em nossas liturgias estão distanciadas do contexto celebrativo. “Verdadeiramente, em liturgia, não podemos dizer que tanto vale um cântico como outro; é necessário evitar a improvisação genérica e o canto deve integrar-se na forma própria da celebração” (SCa 42). Não é possível cantar qualquer canto em qualquer momento ou em qualquer tempo. O canto “precisa estar intimamente vinculado ao rito, ou seja, ao momento celebrativo e ao tempo litúrgico” (DGAE 76). Antes de escolher um canto litúrgico é preciso aprofundar o sentido dos textos bíblicos, do tempo litúrgico, da festa celebrada e do momento ritual.

2. A participação da assembléia no canto - o Concílio Vaticano II enfatiza a participação ativa, consciente, plena, frutuosa, externa e interna de todos os fiéis (cf. SC 14). O canto litúrgico não é propriedade particular de um cantor, animador, ou de um seleto grupo de cantores. A liturgia permite alguns momentos para solos (tanto vocais quanto instrumentais), porém a assembléia deve ter prioridade na execução dos cantos litúrgicos. O animador ou o cantor tem a importante missão, como elemento intrínseco ao serviço que presta à comunidade, de favorecer o canto da assembléia, ora sustentando, ora fazendo pequenos gestos de regência, contribuindo para a participação ativa de toda a comunidade celebrante.

3. Cuidado com o volume dos instrumentos e microfones - em muitas comunidades, o excessivo volume dos instrumentos, como também a grande quantidade de microfones para os cantores, às vezes, não contribuem para um mergulho no mistério celebrado, antes, provocam a agitação interior e a dispersão, além de inibir a participação da assembléia no canto. Pede-se cuidado com o volume do som, a fim de que as celebrações sejam mais orantes , pois tudo deve contribuir para a beleza do momento ritual.

4. Cultivar uma espiritualidade litúrgica - os cantores e instrumentistas exercem um verdadeiro ministério litúrgico (SC 29). A celebração não é um momento para fazer um show, para apresentação de qualidades e aptidões. Os cantores e instrumentistas devem, antes de tudo, mergulhar no mistério, ouvir e acolher com a devida atenção a Palavra de Deus e participar intensamente de todos os momentos da celebração. Música litúrgica e espiritualidade litúrgica devem andar juntas, são duas asas de um mesmo vôo, duas nascentes de uma mesma fonte.

Invocamos as luzes do Espírito Santo sobre todos os agentes de música litúrgica de nosso país. Reconhecemos o valor do ministério exercido a serviço de celebrações reveladoras da beleza suprema do Deus criador e da atualização do Mistério Pascal de Jesus Cristo.

(D. Joviano de Lima Jr. – Presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Liturgia da CNBB)

 

 

MISTAGOGIA DA MÚSICA RITUAL[4] (Márcio A. de Almeida)

 

 

 

 

Partir...

do rito para chegar à sua compreensão teológica e conseqüente vivência espiritual.

do canto/música ritual, aprofundando sua função ministerial na ação litúrgica, levando em conta a participação ativa e frutuosa da assembléia na celebração e depois dela.

da experiência do mistério pascal de Cristo, vivido enquanto se canta/toca/celebra a liturgia e adentrar o conteúdo teológico, litúrgico e espiritual de cada exemplo musical.

 

Partimos de uma descrição e de uma análise ritual do canto em questão; em seguida, aprofundamos o sentido teológico do acontecimento de salvação expresso no canto, partindo de passagens das Sagradas Escrituras. Por fim, focalizamos e assumimos a atitude espiritual que o canto, como ação ritual propõe e requer (BUYST, 2008, p. 13-14).

 

Passo 1 – descrever a ação ritual e “dialogar” com os sinais sensíveis da música ritual:

Texto: verbos, entonação, palavras-chave, sentido das palavras, ritmo, “apelo” sensível, paralelismos etc.

Melodia/harmonia: como “veste” o texto; se reforça ou atenua o significado; que sentido e direção imprime ao texto, as qualidades puramente musicais e as vantagens e dificuldades entoativas etc.

Contexto: como o texto/melodia interage com o eixo celebrativo, com o tempo litúrgico/festa; como propõe o mistério celebrado etc.

Passo 2 – aprofundar o evento salvífico celebrado na ação ritual e sua raiz bíblica.

Tomamos consciência do sentido teológico da ação ritual e percebemos a ressonância da música ritual sobre nós enquanto cantamos/tocamos/celebramos (Cantar com inteligência!).

Passo 3 vivenciar a experiência da salvação acontecendo hoje, na e a partir da ação ritual.

O canto se torna fato de experiência. Unido aos passos anteriores, permite ultrapassar a superficialidade do texto e da música. Canta-se o “mistério”. O mistério canta em nós e em todo o universo. Algo se modifica.

 

Ensaio “mistagógico”: uma proposta

-      Ler e reler o texto prestando atenção às imagens, rimas, palavras-chave, relação com o tempo (litúrgico ou vital), emoções e outras sensações. Pode-se propor um rápido cochicho ou a leitura em voz alta, buscando “escutar” o texto.

-      Aprofundar o sentido do texto (fundamentos bíblicos, teológicos e litúrgicos).

-      Aprender a melodia. Buscar a simbiose texto-melodia. Pode-se fazer uma rápida análise musical. 

-      Como a simbiose se realizou. O que a melodia ajudou a ressaltar na letra? Qual a energia que pede o refrão, a estrofe? Como cantar este texto musical expressando o tempo, o mistério, as pessoas divinas e humanas, as lutas e circunstâncias da vida etc.

-      Durante a parte cantada, ficar atento à intensidade da voz e à intencionalidade das palavras...

-      Propor, criativamente, outros modos de entoar, além de diversificar o uso dos instrumentos e vozes.

-      Pensar na integração dos três pontos (gesto/corpo, sentido/mente e atitude/coração). O ensaio como caminho de inteireza.

CANTO E MÚSICA NA LITURGIA: VIVÊNCIAS

 

Liturgia é ação ritual [...] expressão simbólico-sacramental de uma visão do mundo, banhada numa relação ‘de coração’, de comunhão com o Transcendente, por Jesus Cristo, no Espírito Santo. (I. Buyst)

Segundo o Dicionário Houaiss:

Vivenciar: viver uma dada situação deixando-se afetar profundamente por ela.

Vivência: o fato de ter vida; o processo de viver; manifestação ou sensação de vida; coisa que se experimentou vivendo, vivenciando; conhecimento adquirido no processo de viver ou vivenciar uma situação ou de realizar alguma coisa; experiência, prática; aquilo que se viveu; situação, modo, hábito de vida.

 

Objetivos

-           Buscar a unidade entre o gesto ritual, o sentido teológico-litúrgico, a atitude espiritual para encontrarmos o caminho de uma participação litúrgica que seja não somente ativa, mas ainda plena e frutuosa, profunda e unificada, exterior e interior ao mesmo tempo pessoal e comunitária, autêntica.

-           Exercitar a criatividade, buscando a melhor expressão possível de cada rito ou subdivisão de um rito, dentro da cultura e do momento histórico de uma comunidade celebrante.

-           Buscar a inteireza do ser na execução do recorte, na expressão do mistério celebrado e conhecimento mais profundo do mesmo, ‘como se fosse’ numa celebração de verdade.

O fator principal: a ação! Não se trata de “falar sobre”, mas de fazer!

 

 

LEITURA ORANTE/LECTIO DIVINA (Penha Carpanedo e Márcio A. de Almeida)

 

 

O método da leitura orante da Bíblia é um método, um caminho genial para disciplinar-se na escuta e na obediência à Palavra a cada dia, buscando uma relação pessoal com Deus que se revela a nós e nos conduz ao conhecimento de nós mesmos por meio da Palavra. Aplica-se também aos textos litúrgicos, aos cantos e até aos acontecimentos da vida.

1º passo: Ler (O que o texto/canto diz?)

O primeiro passo é a Leitura individual atenta. Ler e reler o texto, prestando atenção em cada palavra, nas imagens, nos personagens. Se perceber que está distraído(a), voltar ao início e recomeçar a leitura. Tentar entender o sentido do texto valendo-se de algum subsídio e dos conhecimentos que já temos a respeito do texto. Prestar atenção na memória bíblica, ou seja, naquelas passagens que vêm em nossa mente durante a leitura. Os antigos diziam que “a Bíblia nos ensina a compreender a Bíblia”.

 

2º passo: Meditar (O que o texto/canto diz para mim?)

Repetir com a boca, a mente e o coração o que chamou a atenção na leitura. Não engolir logo as palavras, e sim, mastigar, sentir o sabor. Deixar a palavra manifestar toda a sua força dentro de nós, perceber como ela fala da nossa própria experiência, do que sofremos, do que sentimos e desejamos. Perceber como esta palavra tem a ver com a própria vida e a vida do mundo.

 

3º passo: Orar (O que o texto/canto me faz dizer a Deus?)

Deixar brotar de dentro do coração, tocado pela Palavra, uma resposta ao Senhor. Poderá ser uma prece de louvor, agradecimento, pedido de perdão, intercessão...

 

4º passo: Contemplar (Que atitude assumo a partir do texto/canto?)

A contemplação tem a ver com a nova atitude que o Espírito fez nascer em nós através da escuta atenta, da meditação e da oração. Voltamos aos afazeres da vida com um novo olhar sobre os acontecimentos e com a determinação de dar o primeiro passo para construir a unidade e a paz.

 

 

 

 

 

REPERTÓRIO LITÚRGICO-MUSICAL

 

A importância do repertório bíblico-litúrgico (Joaquim Fonseca)

 

A música ritual cumprirá de forma mais eficaz sua função ministerial no culto cristão à medida que cada comunidade puder organizar o seu repertório litúrgico. [...] infelizmente é comum, em muitas celebrações litúrgicas, depararmo-nos com situações extremas e até embaraçosas quanto ao uso indevido do canto e da música em tais celebrações. Aqui, canto e música são, às vezes, escolhidos de forma aleatória e até incompatíveis com o que se celebra.

Afinal, o que é e qual a importância do repertório litúrgico nas comunidades? Repertório é o conjunto de cantos que cada comunidade elege – a partir de critérios teológico-litúrgicos – para o uso nas celebrações ao longo do ano litúrgico. [...] uma escolha objetiva e cuidadosa, que leva em conta alguns critérios oriundos da própria natureza da liturgia.

Repertório pressupõe repetição. Repetição ajuda a expressar a espiritualidade do tempo litúrgico ou festa; ajuda a vivenciar o mistério pascal de Cristo (ação do Espírito).

A idéia do repertório está intimamente ligada à de rito (coloca ordem, estabiliza, dá sentido à ação). A função primordial do rito cristão é evocar, tornar presente, recordar e, sobretudo, alimentar a fé em Jesus Cristo. Um repertório bíblico-litúrgico: facilita a participação da assembleia e resgata a dimensão memorial (essencial!).

A novidade na repetição é fruto e ação do Espírito. A pedagogia [...] de repetir, a cada ano, um repertório básico de cantos, levará os fiéis a uma vivência espiritual, cada vez mais intensa, do mistério celebrado.

[...] a intenção de se criar um repertório bíblico-litúrgico é resgatar o verdadeiro sentido da música como parte integrante da liturgia (cf. SC 112). Como parte integrante, a música, assim como os demais elementos que compõem o rito, tem a nobre função de expressar, de tornar presente e, sobretudo, levar os fiéis à vivência do mistério pascal de Cristo.

 

Critérios básicos para a escolha do repertório litúrgico (Documentos da CNBB, n. 7)

 

A CNBB, à luz do Concílio, definiu alguns critérios básicos e essenciais para ajudar os ministros da música na análise, na escolha e na formação do repertório litúrgico.

Os(as) que cuidam da escolha dos cantos para as celebrações devem examinar, com cuidado, textos e partituras para uso litúrgico, avaliando-os, aprovando-os ou recusando-os, de acordo com o valor ou desvalor dos mesmos.

A criação de um repertório bíblico-litúrgico pressupõe o cumprimento de alguns critérios:

a)   Os textos dos cantos devem ser retirados da Sagrada Escritura, ou inspirados nela e das fontes litúrgicas (cf. SC 121); que sejam poéticos, evitando explicitações desnecessárias, moralismos, intimismos, chavões etc.;

b)  As melodias sejam acessíveis à grande maioria da assembléia, porém, belas e inspiradas;

c)   Sejam evitados e textos e melodias adaptados de canções populares, trilhas sonoras de filmes e novelas;

d)  Evitem-se paráfrases, acréscimos e outros tipos de “adulterações” nos textos do “Ordinário” da Missa;

e)  Sejam levados em conta o momento ritual, o tipo de celebração em que o canto será executado (cf. SC 112) e, na medida do possível, as características da assembléia;

f)    Sejam respeitados os tempos do ano litúrgico e suas festas (cf. SC 107);

g)  Seja considerada a cultura do povo do lugar (cf. SC 38-40).

h)  Sejam levados em conta a dimensão comunitária, dialogal, orante nos textos e nas melodias.

 

 

O CANTO E A MÚSICA NO TEMPO DO ANO LITÚRGICO (Joaquim Fonseca)

 

O canto e a música devem expressar o mistério pascal de Cristo, de acordo com o tempo do ano litúrgico e suas festas. A seguir, breve orientação sobre o repertório litúrgico correspondente.

1. Cantar o advento do Senhor

No início do ano litúrgico, ao longo de quatro semanas, a Igreja entoa um canto de esperança, àquele que está por chegar, o Príncipe da Paz, o Emanuel, Deus-conosco. Este canto, primeiramente entoado pelos profetas, João Batista e Maria continua ressoando no seio da Igreja que clama: “Vem, Senhor, nos salvar. Vem, sem demora, nos dar a paz”.

2. Cantar o natal do Senhor

“Neste tempo cantamos o nascimento do Príncipe da Paz, com a euforia dos profetas e evangelistas de todos os tempos. E os pobres, ao nos ouvirem, acorrerão pressurosos até o presépio: É sobretudo para eles a boa notícia, embora seja de alegria para todos o povo” (Hinário Litúrgico 1, introdução).

3. Cantar a quaresma

“Cantar a quaresma é, antes de tudo, cantar a dor que se sente pelo pecado do mundo, que, em todos os tempos e de tantas maneiras, crucifica os filhos de Deus e prolonga, assim, a Paixão de Cristo... É um canto de luto, um canto sem ‘glória’ e sem ‘aleluia’, um canto sem flores e sem as vestes da alegria, um canto ‘das profundezas do abismo’ em que nos colocaram nossos pecados (Sl 130); um grito penitente de quem implora e suplica: ‘Tende piedade de mim, Senhor, segundo a vossa bondade, e conforme a vossa misericórdia, apagai a minha iniqüidade’” (Hinário Litúrgico 2, introdução).

4. Cantar a páscoa do Senhor

Ao contrário da sobriedade quaresmal, o tempo pascal é de exultação e de alegria. Ressuscitados com Cristo, cantamos sua glória, sua vitória sobre a morte. O “aleluia” volta a ressoar em nossos lábios, invadindo todo o nosso ser com ardor sempre crescente, pois “as coisas antigas já se passaram, somos nascidos de novo!”.

5. Cantar o tempo comum

O tempo comum – o maior do ano litúrgico – nos possibilita desfrutar de outros aspectos da vida e da missão de Jesus e seus discípulos que não são contemplados nos ciclos do natal e da páscoa. Cada domingo do tempo comum tem o sabor de “páscoa semanal”. O Hinário Litúrgico 3 traz um rico repertório que acompanha o conteúdo central do evangelho de cada domingo, sobretudo nos versículos das aclamações ao evangelho e nos refrãos dos cantos de comunhão.

6. Cantar as festas do Senhor

Embora sabendo que, ao longo de todo o ano litúrgico, a Igreja celebra o mesmo mistério de Cristo - por exemplo: No ciclo do natal, o mistério de sua encarnação; no ciclo da páscoa, sua paixão, morte, ressurreição e ascensão; no tempo comum, a memória da presença do Senhor nas circunstâncias do dia-a-dia de sua Igreja -, mesmo assim, no decorrer da história, foi sendo agregado ao calendário litúrgico outras festas do Senhor e de seus santos.

Comecemos pelas Festas do Senhor. Vale lembrar, de antemão, que trataremos apenas da festas que são celebradas aos domingos, anualmente, e daquelas que quando caem no domingo são assumidas por este: Apresentação do Senhor no Templo (2 de fevereiro); Santíssima Trindade (domingo depois de pentecostes); Transfiguração do Senhor (6 de agosto); Exaltação da Santa Cruz (14 de setembro); e Cristo, Senhor do Universo (último domingo do T. Comum). Festas de Maria (Mãe de Deus, Assunção, Imaculada Conceição, Aparecida); Festas dos Santos e Santas (Natividade de S. João Batista,São Pedro e São Paulo Apóstolos, Todos os santos); e Outras (Dedicação da Basílica do Latrão, Comemoração do fiéis defuntos).

 

Tempo litúrgico ou Festa

Hinário Litúrgico

CD (Paulus)

Advento

I

Liturgia IV e VIII

Natal

I

Liturgia V

Quaresma

II

Liturgia XIII e XIV

Páscoa

II

Tríduo Pascal I e II; Liturgia X, XV e XVI

Tempo Comum

III

Liturgia VI, VII, IX, XI e XII

Festas do Senhor, de Maria, Santos e Santas

IV

Festas Litúrgicas I, II, III, IV

 

 

Cantos de Abertura e Comunhão

 

 

Partes Fixas

 

 



[1] Leigo, formado em Teologia pela PUC/SP, mestre em Teologia pela PUC/SP, com concentração em Liturgia. Membro da Rede Celebra de animação litúrgica e do Corpo Eclesial de Compositores da CNBB. Agente da pastoral litúrgica.

[2] Leigo, licenciado em Música (USP), especialista em Liturgia (Assunção), mestre e doutorando em Música (Unesp). Membro da Equipe de Reflexão de Música Litúrgica da CNBB. Membro da Rede Celebra de Liturgia. Professor de Liturgia do curso de Teologia para Leigos da Região Sé e Lapa. Professor de Canto e Música na Liturgia no Instituto Teológico de São Paulo (ITESP).

[3] Leigo, músico e advogado. Coordena a Comissão Diocesana de Liturgia de Bauru, atua na Câmara Eclesiástica da mesma diocese e integra o Corpo Eclesial de Compositores da CNBB. Agente de pastoral litúrgica.

[4] Dissertação de mestrado em música (www.ia.unesp.br).