Reportagens Diocesanas
publicado em: 01/06/2019
CORAÇÕES AO ALTO - POR DOM RUBENS SEVILHA, OCD

Hoje a liturgia católica celebra a Ascensão de Jesus ao Céu. São Lucas narra o fato nos Atos dos Apóstolos (At 1, 4-11): Durante uma refeição, deu-lhes esta ordem: “Não vos afasteis de Jerusalém, mas esperai a realização da promessa do Pai, da qual vós me ouvistes falar: João batizou com água; vós, porém, sereis batizados com o Espírito Santo, dentro de poucos dias.” Então os que estavam reunidos perguntaram a Jesus: “Senhor, é agora que vais restaurar o Reino em Israel?” Jesus respondeu: “Não vos cabe saber os tempos e os momentos que o Pai determinou com a sua própria autoridade. Mas recebereis o poder do Espírito Santo que descerá sobre vós, para serdes minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e na Samaria, e até os confins da terra.” Depois de dizer isto, Jesus foi levado ao céu, à vista deles. Uma nuvem o encobriu, de forma que seus olhos não mais podiam vê-lo. Os apóstolos continuavam olhando para o céu enquanto Jesus subia. Apareceram então dois homens vestidos de branco, que lhes disseram: “homens da Galileia, por que ficais aqui, parados, olhando para o céu? Esse Jesus que vos foi levado para o céu, virá do mesmo modo que o vistes partir para o céu.”

Nossa morada definitiva é no céu. Somos peregrinos neste mundo. Aqui não temos moradia fixa, tudo é transitório e instável. Somos cidadãos do céu (Fil 3,20). A solenidade litúrgica da Ascensão do Senhor nos recorda o nosso destino final. Hoje, por falta de fé, muitos vivem ansiosos e angustiados esperando algo fixo e definitivo neste mundo, agarrando-se às coisas humanas como se elas fossem eternas.

    Depois de certa idade, quando passa o natural idealismo ingênuo da juventude, com suas inúmeras ilusões e decepções, chega a maturidade com a dura realidade batendo na nossa porta. Os mais orgulhosos e os narcisistas sofrerão mais, pois não suportam ver seus sonhos desabarem, seus planos ruírem e se recusam a aceitar as limitações e fragilidades próprias da condição de criaturas.

A Palavra de Deus, que é luz para os nossos passos (Salmo 119), nos ensina que Deus Pai criador nos colocou neste mundo, por amor e para amar a Ele e a todas as pessoas que Ele colocar no caminho da nossa vida. O sentido da vida é ser bom e fazer o bem. Pelo contrário, fazer o mal não tem sentido algum e desnorteia o nossa vida. Toda ação ruim é vida desperdiçada e inútil desgaste de energia que deve ser sempre usada para o bem. Afinal, somos imagem e semelhança de Deus, que é o sumo bem.

    A solenidade da Ascensão nos convida a olhar para o alto, para a eternidade. O cristão deve caminhar com os pés no chão e o coração para o alto. Alguns, ingenuamente, querem viver, não no alto, mas nas nuvens. São nefelibatas que vivem uma religiosidade imaginária e fantasiosa querendo virar anjos puros em um artificial paraíso terrestre onde, obviamente, só entram alguns assépticos eleitos especiais. Creio ser este o pior tipo de orgulho que existe, e por ser o mais sutil e refinado,torna-se muito difícil de ser detectado e desmascarado.

Outros, pelo contrário, não têm somente os pés no chão, mas estão inteiros voltados para a terra: coração, inteligência, emoção, tudo enterrado no chão e, às vezes, na lama. O cristão tem que ter os pés calcados no chão da realidade humana, com suas alegrias e tristezas, sombras e luzes. Jesus assumiu em tudo a condição humana e tomou sobre si as nossas dores. Se Cristo assumiu a difícil e complexa condição humana, por que haveríamos nós de rejeitá-la e fugir dela? A falta de fé torna o ser humano covarde e medroso.

A coragem do cristão vem da sua confiança em Deus. O cristão, segurando nas mãos fortes e amorosas do Pai, enfrenta com coragem o mistério da vida do jeito que ela vem, mantendo os pés no chão da realidade e o olhar do coração fitando o doce olhar do Amado.

 Dom Rubens Sevilha, OCD.

Artigo publicado na coluna "Conversando com o Bispo" do Jornal da Cidade em 2 de junho de 2019.