Reportagens Diocesanas
publicado em: 17/08/2019
CORAÇÕES AO ALTO - POR DOM RUBENS SEVILHA

Hoje celebramos a Assunção de Maria ao céu. Cristo foi elevado ao céu e, com ele, foi elevada toda a humanidade. Maria, a mãe de Jesus, foi a primeira e a mais perfeita na fé e no discipulado de seu Filho; portanto, coube a ela ser a primeira a ser elevada ao céu, junto ao seu Filho.

Todos nós somos cidadãos do céu. Nossa morada definitiva é na eternidade para onde caminhamos. Toda a nossa existência humana não é uma dolorosa descida para a decrepitude humilhante da velhice com o desfecho trágico da morte. Toda existência humana foi criada por Deus para ascender cada dia mais até a plenitude da vida que é a glória e gozo eternos no céu.

Há aqui um paradoxo. Ao longo da vida vamos experimentando perdas e sofrimentos e, no momento, enxergamos os fatos como um humilhante rebaixamento e esvaziamento da nossa condição humana. Em um segundo momento, porém, aquilo que nos rebaixou e humilhou, misteriosamente, torna-se fermento e alavanca para o nosso crescimento, para a nossa elevação, para uma vida nova. A morte é, sem dúvida, a maior humilhação da condição humana e, paradoxalmente, ela é a suprema elevação nos colocando no eterno convívio com Deus.

Obviamente, para aqueles que não cultivam a transcendência da fé, resta somente enxergar uma parte da sua existência composta de muitas perdas, sofrimentos e humilhações, com alguns momentos menos infelizes, encarados como exceções no triste conjunto da vida. O ateu tem explicação somente para a metade da realidade. Quem tem fé consegue vislumbrar a totalidade da realidade que é composta de terra e céu. O ateu enxerga somente a terra. O fanático enxerga somente o céu. O verdadeiro crente tem os pés fincados no difícil chão da realidade humana, mas os olhos da alma fixos em Deus. Todos os domingos, na Liturgia Eucarística (Missa), repetimos: Corações ao alto, o nosso coração está em Deus.

O Apóstolo Paulo sabiamente entendeu que apesar dos sofrimentos e obscuridades da vida “não perdemos a coragem, pelo contrário, ainda que nosso exterior vá se desfazendo, o nosso interior vai se renovando dia a dia; pois nossas tribulações momentâneas são leves em comparação com o peso eterno de glória que elas preparam para nós. Não olhamos para as coisas que se veem, mas para aquelas que não se veem. Pois as que se veem são passageiras, e as que não se veem são eternas” (2 Cor 4, 16-18). Em seguida, ele descreve com clareza o desfecho final da nossa vida: “De fato, sabemos que se for desfeita a nossa morada terrestre, temos de Deus um edifício, uma eterna morada nos céus, não feita por mãos humanas. É Deus quem nos preparou exatamente para isso, Ele que nos deu a garantia do Espírito” (2 Cor 5, 1-5).

Nada acontece por acaso, tudo tem um sentido. Algumas coisas, com o passar do tempo, conseguimos entender. Todavia, para muitas outras coisas que nos acontecem, jamais teremos uma explicação. Somente no céu vamos compreender o porquê de certos acontecimentos. Diante da angústia e insatisfação do intelecto ao não conseguir entender a totalidade dos fatos, é grande a tentação de inventar ou acreditar em falsas explicações fantasiosas e fanatizantes. Todo fanatismo, apesar da aparência, revela uma fé superficial ou até mesmo inexistente. Talvez o fanatismo religioso seja uma forma de ateísmo travestido.

A verdadeira fé convive serenamente com as dúvidas racionais, pois enxerga com os olhos da alma e sabe que Deus está sempre amorosamente agindo em tudo e em todos e além de tudo e de todos.

Em qualquer circunstância, sobretudo nos momentos difíceis, digamos como Maria, a Mãe de Jesus e nossa: “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segunda a vossa Palavra” (Lc 1,38). Amém!

Bauru, 18 de agosto de 2019. 

Solenidade da Assunção de Nossa Senhora. 

                  Dom Rubens Sevilha, OCD.