Formação Litúrgica
Desafios atuais da reforma litúrgica no Brasil

40.º ANIVERSÁRIO DA SACROSANCTUM CONCILIUM

 

 desafios atuais da reforma litúrgica no Brasil

 

 

 

                                                                                  D. Geraldo Lyrio Rocha

Arcebispo de Vitória da Conquista

                                  

 

INTRODUÇÃO

 

 

 

Com grata satisfação, acolhi o convite da Direção do Instituto de Filosofia e Teologia da Arquidiocese de Vitória para participar desta Semana Teológica que aqui se realiza. Além da alegria de poder reencontrar tantos amigos e de poder rever este Instituto, ao qual me sinto ligado por laços muito profundos, sinto-me feliz em poder abordar um tema que me é muito caro, isto é, a Sagrada Liturgia. Felicito o IFTAV pela oportuna iniciativa de comemorar nesta Semana Teológica os 40 anos da Constituição sobre a Sagrada Liturgia, intitulada Sacrosanctum Concilium (SC),  aprovado no dia 04 de dezembro de 1963.

 

A SC se inicia relembrando os objetivos Vaticano II: “O Sacrossanto Concílio propõe-se:  fomentar sempre mais a vida cristã entre os fiéis; ajustar melhor às necessidades do nosso tempo as instituições que podem mudar; favorecer  tudo quanto possa contribuir para a união dos que crêem em Cristo; e promover tudo o que conduz  ao chamamento de todos ao seio da Igreja. Por isso, julga ser seu dever cuidar de modo especial da reforma e do fortalecimento da Liturgia” (SC 1); e acrescenta: “O Sacrossanto Concílio julga que devem ser  relembrados princípios e estabelecidas normas práticas” (SC 3).

 

Sem pretender apresentar uma definição acadêmica ou didática sobre a Liturgia, a SC de forma magisterial ensina-nos que “a Liturgia é o exercício do múnus sacerdotal de Jesus Cristo, no qual, mediante sinais sensíveis, é significada e, de modo peculiar a cada sinal, realiza-se a santificação do ser humano; e é exercido o culto público integral pelo Corpo Místico de Cristo, Cabeça e membros” (SC 7).

 

É bom sempre recordar que “toda celebração litúrgica como obra de Cristo sacerdote e de seu Corpo que é a Igreja, é uma ação sagrada por excelência, cuja eficácia, no mesmo título e grau, não é igualada por nenhuma outra ação da Igreja” (SC 7).

 

Com o Vaticano II, soprou um vento renovador em toda a Igreja. O Povo de Deus experimentou a atmosfera alegre e vibrante de um novo Pentecostes. A Constituição sobre a Sagrada Liturgia abriu caminhos novos para a vida litúrgica e mesmo para toda a vida eclesial. Por ocasião do 25.º aniversário da SC, o Papa João Paulo II, em sua Carta Apostólica Vicesimus Quintus Annus assim se expressa: “A renovação litúrgica é o fruto mais visível de toda a obra conciliar. Para muitos, a mensagem do Concílio Vaticano II foi percebida antes de tudo por meio da reforma litúrgica” (VQA, 12).

 

 

 

1.      DESAFIOS ATUAIS

 

No Brasil, o empenho para aplicar o Concílio no contexto de nossa realidade tem sido muito grande, não obstante as dificuldades encontradas no caminho. Muita coisa bonita vem acontecendo em nossas comunidades eclesiais, em toda a parte. A Igreja no Brasil pode se alegrar com os frutos colhidos ao longo desses 40 anos de intensa renovação litúrgica. Sem nenhum pessimismo, mas, com realismo pastoral, constatam-se grandes desafios que ainda persistem em nossos dias. Entre esses destacam-se:

 

1.1.    Aplicação da Reforma Litúrgica

 

Na Carta Apostólica sobre a preparação para o Jubileu do ano 2000, o Papa João Paulo II propõe uma séria revisão de vida pessoal e eclesial: “O exame de consciência não pode deixar de incluir também a recepção do Concílio, este grande dom do Espírito feito à Igreja quase ao findar do segundo milênio. É vivida a liturgia como ‘fonte e cume’ da vida eclesial? (cf. TMA 36). “Muito resta a ser feito para assimilar em nossas celebrações a renovação litúrgica desencadeada pelo Concílio Vaticano II, como para ajudar os fiéis a fazer da celebração eucarística a expressão de seu compromisso pessoal e comunitário com o Senhor. Ainda não se alcançou a plena consciência do que significa a centralidade da liturgia como fonte e cume da vida eclesial. Persiste a pouca participação da comunidade cristã, e surge quem queira se apropriar da liturgia sem considerar seu verdadeiro sentido eclesial” (cf. SD 43). A aceitação e aplicação do Vaticano II certamente constitui-se num dos maiores desafios que a Igreja está enfrentando atualmente.

 

1.2.    A Formação Litúrgica

 

Não obstante os decênios transcorridos desde o Concílio, não se pode dizer que a formação litúrgica, em geral, seja satisfatória. “É necessário e convém urgentemente empreender uma formação intensiva para fazer descobrir as riquezas que a liturgia contém” (DC n. 9). “A tarefa mais urgente – afirma o Papa – é a da formação bíblica e litúrgica do povo de Deus, dos pastores e dos fiéis (VQA 14-15).

 

“Descuidou-se a séria formação litúrgica segundo as instruções e documentos do magistério em todos os níveis” (SD 43). É fundamental que os seminaristas se familiarizem com o espírito litúrgico e se preparem bem para presidir as celebrações; para isso importa que os diversos aspectos da formação no seminário encontrem expressão privilegiada nas celebrações litúrgicas, além de observar atentamente a carga horária mínima e o conteúdo programático estabelecido. Assim, a vivência da Liturgia acompanha todas as etapas da vida do formando. É importante que desde o início do seminário, os seminaristas tenham uma participação consciente e ativa na Liturgia e aprendam gradativamente a celebrar a Liturgia das Horas. O Ano Litúrgico deve orientar a espiritualidade comunitária do seminário. Que os presbíteros se aprimorem de modo permanente para crescerem na compreensão e animação dos vários ministérios, já que para a maioria do nosso povo a celebração da Liturgia é a única evangelização de que participam de fato ao longo de sua vida. E não se esqueçam que a Liturgia mal celebrada causa frequentemente o afastamento dos fiéis. Os presbíteros valorizem a celebração da Liturgia das Horas como parte de seu ministério. Os(as) leigos(as) que assumem funções ou só participam na Liturgia sejam imbuídos do espírito litúrgico, tenham consciência dos mistérios que celebram e sejam capacitados para executar as suas funções; e que os(as) religiosos(as) tenham no programa de seu processo formativo a preocupação de transformarem a Liturgia em fonte da própria espiritualidade e de se tornarem animadores da celebração litúrgica. Tenha-se presente que a grande meta desta formação ampla e profunda é preparar agentes para a aculturação e a inculturação da Liturgia, porque homens e mulheres que vivem as duas realidades, a sócio-cultural e a celebrativa, poderão facilitar a tarefa dos responsáveis por esse processo” (CNBB, Doc. 43, 190-192 e 194-195).

 

1.3.     A Inculturação

 

A Conferência de Santo Domingo, constata: Ainda não se dá atenção ao processo de um sã inculturação da liturgia. Isto faz com que as celebrações sejam, para muitos, algo ritualista e privado que não os leva à consciência da presença transformadora de Cristo e de seu Espírito, nem se traduz em compromisso solidário para a transformação do mundo” (cf. SD 43). Em relação aos indígenas, a Conferência de Santo Domingo propõe: “Promover uma inculturação da liturgia, acolhendo com apreço seus símbolos, ritos e expressões religiosas compatíveis com o claro sentido da fé, mantendo o valor dos símbolos universais e em harmonia com a disciplina geral da Igreja” (SD 248). Em relação aos afro-americanos, a mesma Conferência propõe: “A Igreja na América Latina e no Caribe quer apoiar os povos afro-americanos na defesa de sua identidade e no reconhecimento de seus próprios valores, como também ajudá-los a manter vivos seus usos e costumes compatíveis com a doutrina cristã e favorecendo a manifestação das expressões religiosas próprias de suas culturas” (cf. SD 249). “Temos de promover uma liturgia que, em total fidelidade ao espírito que o Concílio Vaticano II quis recuperar em toda sua pureza, busque, dentro das normas dadas pela Igreja, a adoção das formas, sinais e ações próprios das culturas da América Latrina e Caribe. Nesta tarefa, dever-se-á dar uma especial atenção à valorização da piedade popular, que encontra sua expressão especialmente na devoção à Santíssima Virgem, nas peregrinações aos santuários e nas festas religiosas, iluminadas pela Palavra de Deus” (SD 53). Além da inculturação nas várias etnias, não se pode esquecer o imenso desafio da inculturação no meio urbano e no meio dos pobres.

 

1.4.    Os Ministérios

 

 Há forte tendência, hoje, na teologia e na prática pastoral, de considerar ministério, fundamentalmente, o carisma que assume a forma de serviço à comunidade e à sua missão no mundo e na Igreja e que, por esta, é como tal acolhido e reconhecido” (CNBB, doc. 62, n. 83). Mas, só pode ser considerado ministério o carisma que, na comunidade e em vista da missão na Igreja e no mundo, assume a forma de serviço bem determinado, envolvendo um conjunto mais ou menos amplo de funções, que responda a exigências permanentes da comunidade e da missão, seja assumido com estabilidade, comporte verdadeira responsabilidade e seja acolhido e reconhecido pela comunidade eclesial (cf. n. 85). “A ‘recepção’ ou ‘reconhecimento’ dos ministérios tem modalidades e graus diversos, dependendo da natureza da função, ou seja, da sua relação com a identidade e a missão da Igreja” (86) “Alguns dos ministérios que os leigos e as leigas exercem são chamados de ministério de “suplência”, porque embora seu exercício não dependa da ordenação, as funções neles implicadas são historicamente consideradas próprias e típicas do ministério ordenado. Portanto, quando os leigos ou leigas as assumem, estão suprindo a falta ou impossibilidade de ministros ordenados. A questão de fundo que se poderia colocar em relação a esta situação é a seguinte: se estas funções, embora próprias e típicas do ministério ordenado, podem, em determinadas circunstâncias, ser assumidas por leigos e leigas, por que não se pensar numa reorganização mais ousada dos ministérios eclesiais, criando verdadeiros e próprios ‘ofícios’ a serem conferidos a leigos e leigas estavelmente e com responsabilidade própria e não simplesmente como ‘suplência’? Nas atuais circunstâncias, em muitos lugares, a suplência não tem o caráter de eventualidade ou de provisoriedade, mas de situação pastoral normal e habitual, sem previsão razoável de mudança desse quadro” (cf. CNBB, Doc. 62, n. 89).

 

 

1.5.    Liturgia e Catequese

 

“A Catequese é intrinsecamente ligada com toda a ação litúrgica e sacramental” (CT 23). “Muitas vezes, porém, a praxe catequética apresenta uma ligação fraca e fragmentária com a liturgia: atenção limitada aos símbolos e ritos litúrgicos, pouca valorização das fontes litúrgicas, percursos catequéticos que pouco ou nada têm a ver com o ano litúrgico, presença marginal de celebrações nos itinerários da catequese” (DGC 30). “Para realizar suas tarefas, a catequese se vale de dois grandes meios: a transmissão da mensagem evangélica e a experiência da vida cristã. A educação litúrgica, por exemplo, necessita explicar o que é a liturgia cristã e o que são os sacramentos; porém, deve também fazer experimentar os diversos tipos de celebração, fazer descobrir e amar os símbolos, o sentido dos gestos corporais etc...” (DGC 87).

 

1.6. A Pastoral Litúrgica

 

 Lamentavelmente, em muitas situações, continua válida a constatação feita em Puebla: “Não se deu ainda à pastoral litúrgica a prioridade que lhe corresponde dentro da pastoral de conjunto” (cf. DP 901). A Liturgia “não esgota toda a ação da Igreja, mas promovendo-a, estamos desencadeando o dinamismo de toda atividade eclesial. Coração e cérebro desta pastoral é a Equipe de Pastoral Litúrgica em nível nacional, diocesano e paroquial. Cabe-lhe com a CNBB, com o bispo ou com o pároco planejar, nos respectivos campos de ação, a Pastoral Litúrgica, o que será mais eficiente se continuamente pesquisar a situação real dos que celebram, aprofundar sempre mais  seu conteúdo teológico, formar agentes e organizar sua ação. Essas equipes, grande anseio do Concílio (cf. SC 44 e 46), nós as estamos organizando de modo lento demais face às urgências da pastoral litúrgica. A grande tarefa destas equipes é dinamizar um processo de formação de todos os participantes da Liturgia, visando, de um lado, que a celebração seja sempre mais expressiva e, de outro lado, o enriquecimento espiritual de todo o povo” (CNBB, Doc. 43, n. 186-189).

 

 

1.7.            A Recuperação dos Símbolos e Sinais

 

 “Os sinais, importantes em toda a ação  litúrgica, devem ser empregados de forma viva e digna, suposta uma adequada catequese. As adaptações previstas na Sacrosanctum Concilium e em outras normas posteriores são indispensáveis para se conseguir um rito adequado às nossas necessidades, especialmente às do povo simples, tendo em conta suas legítimas expressões culturais” (DP 926). “A força dos símbolos e sinais, sobretudo quando retirados da vida e da cultura do povo, completam a grande variedade de elementos da nossa Liturgia” (CNBB, Doc. 43. n. 84). “É meta da criatividade a introdução de novos símbolos, mais compreensíveis ao povo de hoje, porque criados pela piedade popular ou experimentados nas CEBs e outros grupos de oração. Para isso inaugure-se um processo de pesquisa, reflexão e análise, com ajuda de um grupo de trabalho integrado por teólogos, liturgistas, pastoralistas e outros” (CNBB, Doc. 43, n. 174). Vale aqui ressaltar os passos que foram dados com a elaboração do Ritual do Matrimônio e o novo Ritual do Batismo de Crianças próprios para o Brasil e o Ritual de Exéquias que se encontra em elaboração. É importante promover o conhecimento de certos aspectos frequentemente esquecidos na pastoral quotidiana e que podem fazer redescobrir a densidade simbólica com a qual se exprime o sentido mistérico dos sacramentos e os permite produzir todos os seus frutos: por exemplo a promoção do batismo por imersão, nos termos previstos pelo Ritual; a fração do pão na Missa; a  comunhão sob as duas espécies; a dimensão pascal das exéquias; o valor simbólico dos espaços, lugares e objetos litúrgicos (Francesco Pio Tamburrino, in Duc in Altum, Libreria Editrice Vaticana, 2002, p.93), bem como  “os projetos arquitetônicos e iconográficos, o altar, a sede, o ambão, a expressividade dos sinais como pão, vinho, óleo, água, incenso, cinzas, fogo, flores”... (cf. VQA n. 10).

 

1.8. O Canto, a Música, o Silêncio e a Dança

 

“Auxiliam nossa prece, reforçando a palavra que ouvimos, a linguagem universal da música, cantada ou instrumental, que os momentos de silêncio ressaltam e ao mesmo tempo abrem espaço para outro tipo de oração. E até mesmo a simples modulação da voz pode expressar nossa alegria, nossa confiança ou nossa dor. Nosso corpo, sensível e dócil ao movimento, é uma fonte inesgotável de expressão. Por isso, na liturgia têm importância os gestos, as posturas, as caminhadas e a dança” (CNBB, Doc. 43, n. 82 e 83). “A partir do Concílio, algumas intuições e critérios vão inspirando e provocando providencialmente toda uma renovação da música litúrgica:

 

·          Liturgia é a celebração do Mistério Pascal realizada pelo Povo de Deus: a participação das pessoas, da assembléia, como exercício do novo sacerdócio, com Cristo, por Cristo e em Cristo, é de fundamental importância e constitui valor primordial;

 

·          Canto e música participam da dimensão sacramental da liturgia: são símbolos importantes do Mistério de Cristo e da Igreja, e não ornamento exterior; são encarnação, em estruturas comunicativas, da Palavra, do diálogo salvífico entre as pessoas Divinas e as pessoas humanas, e não elementos rituais e estéticos de uma religiosidade qualquer;

 

·          Canto e música, no contexto da ação litúrgica, não são realidades autônomas, mas funcionais: estão aí a serviço do Mistério da Fé, da assembléia sacerdotal. Artistas e demais atores devem se empenhar em encontrar a expressão musical mais bela e adequada, levando em conta o rito e as pessoas que vão executá-lo. O que deve prevalecer não são os gostos, a estética individual de cada um, mas a essencialidade do Mistério e a participação frutuosa e prazerosa de todos. Os agentes litúrgico-musicais desempenharão tanto melhor o seu papel, quanto melhores intérpretes forem da fé, da vida e do jeito de ser da sua gente (CNBB – estudos 79).

 

 

 

1.9.            O Espaço Celebrativo

 

“O templo é sinal da presença e ação salvífica do Pai; é imagem do Corpo Místico de Cristo, único e verdadeiro templo, construído com pedras vivas para oferecer sacrifícios novos (cf. Jo 2,19 e 21). O próprio Deus consente que nossos edifícios sejam sua casa, pois nesse espaço ele nos dá vivenciar a sua união conosco e a união fraterna entre nós. Por isso, a igreja-edifício é sinal também da Igreja-Comunidade. Assim este edifício não é uma construção qualquer: é sinal da Igreja peregrina, é imagem da Igreja celeste.  A Igreja, como família de Deus, precisa de uma casa para reunir-se, dialogar, viver na alegria e na comum-união os grandes momentos de sua vida religiosa” (cf. CNBB, Doc. 43, n. 139, 140 e 141). “Como pede sua natureza, a igreja terá de ser adequada às celebrações sacras, bela, resplandecente de nobre formosura e não de mera suntuosidade, e verdadeiramente sinal e símbolo das realidades celestes. A disposição geral do edifício deve manifestar de algum modo a imagem do povo reunido e permitir uma ordem inteligente, bem como a possibilidade de se exercerem com decoro os diversos ministérios” (RDI, 3).

 

1.10.      As Missas na TV e as “Missas Show”

 

“Precisamos fazer a celebração sempre mais autêntica, mais unida à vida, para transformar a vida toda em oração” (CNBB, Doc. 43, 196). No encontro com os produtores de Missas na TV, realizado em setembro de 1998, promovido pelo setores de Liturgia e de Comunicação da CNBB, foram assumidas, entre outras, as seguintes proposições:

 

·          Sempre se deve ter presente que o que celebramos na liturgia é o mistério pascal de Cristo. Isso deve aparecer nas transmissões televisivas, ajudando o telespectador a entrar nessa dimensão celebrativa, associando-se à Páscoa de Cristo. Os fatos significativos e os acontecimentos da vida devem ter lugar na celebração, associando-se os sinais de morte e de vida ao mistério pascal do Senhor. Assim, vai-se expressando que a Páscoa de Cristo se realiza em nossa vida e nossa vida se insere no mistério de Cristo.

 

·          Haja, por parte de todos, respeito e fidelidade ao que está estabelecido pelo Magistério da Igreja sobre a celebração da Santa Missa e o Culto Eucarístico. Recomenda-se o estudo aprofundado da Instrução Geral sobre o Missal Romano e das orientações a respeito do Culto Eucarístico fora da Missa, especialmente por parte dos que presidem e dos responsáveis pela elaboração dos roteiros de celebração. É necessário que sejam observadas as normas e orientações do Magistério para que se evitem desvios e abusos especialmente nas transmissões televisivas pois essas ultrapassam os limites das paróquias e dioceses e se constituem, de certa forma, modelo de celebração para as comunidades eclesiais. Por isso, deve-se redobrar a atenção nessas celebrações, inclusive para que não criem problemas em muitas dioceses, como lamentavelmente vem acontecendo.

 

·          Como os destinatários da celebração da Missa na TV são principalmente os que estão impossibilitados de participar na assembleia litúrgica na comunidade eclesial, sejam explicitamente mencionados nos roteiros da celebração. Ao mesmo tempo, haja forte motivação para estimular os que podem a que participem da celebração na comunidade.

 

·          Toda a celebração se realize com unção e tenha sempre um tom mais de oração do que de discurso ou de teatro. Evite-se tanto a postura artificial, fria e rígida como os exageros no sentido contrário. Deve-se evitar também a falta de autenticidade, o populismo e outras expressões que não condizem com a celebração litúrgica. É preciso zelar muito para que transpareça a dimensão de sacralidade do mistério celebrado.

 

·          Haja empenho na formação, tanto litúrgica como na arte da comunicação, dos que presidem e dos demais agentes que atuam na produção e na realização das Missas de TV.

 

·          Valorize-se o espaço celebrativo, tanto na conveniente decoração do ambiente, como também na disposição dos vários elementos: altar, mesa da Palavra, cadeira de quem preside, estante do comentarista, coral, assembleia e outros.

 

·          Como a linguagem celebrativa é eminentemente simbólica, dê-se o devido valor aos símbolos litúrgicos, garantindo-lhes sempre a devida autenticidade, beleza e verdade. Cuide-se da expressão artística do canto, do espaço, dos objetos e das vestes litúrgicas.

 

·          Quanto às vestes, leve-se em conta o que diz a Instrução Geral sobre o Missal Romano: “Na Igreja que é o Corpo de Cristo, nem todos os membros desempenham a mesma função. Esta diversidade de ministérios se manifesta exteriormente no exercício do culto sagrado pela diversidade das vestes litúrgicas, que por isso devem ser um sinal da função de cada ministro. As vestes litúrgicas contribuam para a beleza da ação sagrada. Convém que a beleza e a nobreza de cada vestimenta decorra não tanto da multiplicidade de ornatos, mas do tecido e da forma (IGMR 297 a 306).

 

·          O canto e a música sejam devidamente valorizados, respeitando-se a índole própria da celebração, inclusive quanto ao tempo litúrgico e aos diversos momentos celebrativos, e levando-se em conta os critérios artísticos da composição e execução.

 

·          As transmissões de caráter nacional estejam atentas a essa realidade e tenham a preocupação em expressar, o quanto possível, a riqueza e a variedade de nosso País.

 

Muitos outros desafios se somam a esses aqui apontados. Entre eles destacam-se: a necessária ligação entre liturgia e vida; a distinção entre teatro e ação simbólica; a questão da linguagem; as dificuldades com a celebração do Dia do Senhor numa sociedade pluralista e dessacralizada; a problemática referente aos folhetos litúrgicos; e a persistência de graves questões em relação a algumas transmissões de Missas na TV.

 

 

 

 

 

 

2.      CAMINHOS DA REFORMA LITÚRGICA

 

2.1. Aplicações Erradas

 

Na Carta Apostólica Vicesimus quintus Annus, o Papa João Paulo II elenca uma série de desvios, mais ou menos graves, na aplicação da reforma: “Constatam-se, às vezes, omissões ou acréscimos ilícitos; ritos inventados fora das normas estabelecidas; posturas ou cantos que não favorecem a fé ou o sentido do sagrado; abusos na prática da absolvição coletiva; confusões entre o sacerdócio ministerial, ligado à ordenação, e o sacerdócio comum dos fiéis, que tem seu fundamento no batismo”.

 

 “Não se pode tolerar – diz o Papa – que alguns sacerdotes se arroguem o direito de compor orações eucarísticas ou substituam textos da Sagrada Escritura por textos profanos. Iniciativas deste gênero, longe de estar ligadas à reforma litúrgica, ou aos livros que lhe seguiram, a contradizem diretamente, a desfiguram e privam o povo cristão da riqueza autêntica da liturgia da Igreja”.

 

E o Papa acrescenta: “Compete ao Bispo estirpar tais  abusos pois que a regulamentação da vida litúrgica depende do Bispo nos limites do direito, e a vida cristã dos seus fiéis de certo modo depende dele” (id. Ib. 13).

 

Mas, há também aberrações no sentido contrário, que se manifestam numa hostilidade radical contra toda a renovação conciliar e pós-conciliar. Nos mais inflamados tradicionalistas (que até chegaram a consumar um cisma em nome da liturgia!) chega-se a duvidar da validade dos sacramentos que teriam sido gravemente contaminados por uma visão protestante do culto. Os menos radicais pediram a permissão para celebrar com os ritos anteriores ao Concílio, e lutam para que se chegue urgentemente a uma  “reforma da reforma”. O fenômeno é extremamente complexo. Tenha-se em conta que, não é raro, alguns se aproximam do tradicionalismo em reação a certos desvios e experiências muitas vezes conduzidas de forma incompetente.

 

 

2.2. A busca do equilíbrio

 

A liturgia tem necessidade de dois aspectos complementares: de uma parte há o livro litúrgico, a norma objetiva que estabelece as condições de validade no uso de uma determinada matéria e forma, descreve a estrutura e seqüência dos ritos, os sinais e símbolos, as fórmulas; de outra parte, há a assembléia concreta de pessoas, que exige senso das circunstâncias e adaptações. Compete ao ministro da celebração ser mediador entre o livro e a assembléia, entre a norma universalmente válida e as exigências próprias de cada comunidade.

 

O que falta muitas vezes é o conhecimento, o estudo do livro litúrgico, do rito específico que se vai celebrar. A verdadeira atenção ao livro e à sua normatividade leva a descobrir toda uma série de estímulos que convidam a estar atento à assembléia concreta, à sua capacidade celebrativa, à sua cultura, à sua linguagem, ao seu passado e a seu nível de fé. Quem sabe ler entre as linhas do livro litúrgico e entre a dobras do coração humano sabe que não tem necessidade de retorcer os ritos para ser criativo (Francesco Pio Tamburrino, op. cit. p 95).

 

3.      A BUSCA DE SOLUÇÃO

 

Mesmo que sejam grandes os desafios para prosseguir na reforma litúrgica proposta pelo Vaticano II, não podemos nos deixar vencer por uma visão pessimista ou uma atitude derrotista. A saída se encontra na recuperação do autêntico espírito litúrgico que deve animar nossa espiritualidade e orientar nossa ação pastoral. “A Igreja encontra o sentido último de sua convocação na vida de oração, louvor e ação de graças que o céu e a terra dirigem a Deus por ‘suas obras grandes e maravilhosas’ (Ap 15,3s; 7,9-17). Esta é a razão pela qual a liturgia ‘é o cume ao qual tende a atividade da Igreja e, ao mesmo tempo, a fonte de onde emana sua força’ (SC 10). Mas a liturgia é ação do Cristo total, Cabeça e membros, e, como tal, deve expressar o sentido mais profundo de sua oblação ao Pai: obedecer, fazendo de toda a sua vida a revelação do amor do Pai pelo gênero humano. Por isso, o culto cristão deve expressar a dupla vertente da obediência ao Pai (glorificação) e da caridade com os irmãos (redenção), pois a glória de Deus é que o ser humano viva (cf. SD 34). “O gesto litúrgico não é autêntico se não implica um compromisso de caridade, um esforço sempre renovado por sentir como sente Cristo Jesus, e uma contínua conversão” (Medellín, Liturgia, n. 3).

 

CONCLUSÃO

 

Na hora presente de nossa América Latina, como em todos os tempos, a celebração litúrgica coroa e comporta um compromisso com a realidade humana, precisamente porque toda a criação está inserida no desígnio salvador que abarca a totalidade do ser humano (cf. Medellín, Liturgia n. 4). Como consequência da deficiência de uma autêntica renovação litúrgica, o Documento de Santo Domingo aponta a falta de coerência entre fé e vida em muitos católicos, incluindo, às vezes, a nós mesmos ou alguns de nossos agentes de pastoral (SD 44).

 

“O serviço litúrgico tem, por si mesmo, um valor evangelizador que a Nova Evangelização deve situar em lugar de grande destaque. Na liturgia, Cristo Salvador se faz presente hoje. A liturgia é o anúncio e realização dos feitos salvíficos (cf. SC 6) que nos chegam a tocar sacramentalmente; por isso, convoca, celebra e envia /.../ Sustenta o compromisso social enquanto orienta os fiéis a assumir sua responsabilidade na construção do Reino /.../ A celebração não pode ser algo separado ou paralelo à vida. Por último, é especialmente pela liturgia que o Evangelho penetra no coração das culturas. Por isso, as formas de celebração litúrgica devem ser aptas para expressar o mistério que se celebra e, por sua vez, ser claras e inteligíveis” (cf. SD 35). “Sem capacidade de contemplação, a liturgia, acesso a Deus através de sinais, converte-se em ação carente de profundidade” (SD 37).

 

A celebração dos 40 anos da SC nos estimule a envidar todos os esforços para que a Sagrada Liturgia seja de fato “cume para o qual tende a ação da Igreja e, ao mesmo tempo, fonte de onde emana toda a sua força” (SC 10), certos de que, “na Liturgia terrena, antegozando, participamos da Liturgia celeste, que se celebra na cidade santa de Jerusalém, para a qual, peregrinos, nos encaminhamos. Lá Cristo está sentado à direita de Deus, ministro do santuário e do tabernáculo verdadeiro; com todo o exército celestial entoamos um hino de glória ao Senhor e, venerando a memória dos Santos, esperamos fazer parte da sociedade deles; suspiramos pelo Salvador, Nosso Senhor Jesus Cristo, até que ele, nossa vida, se manifeste, e nós apareçamos com ele na glória” (SC 8).

 

 

 

SIGLAS:

 

 

CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil

CT – Catechesi Tradendae

DD – Dies Domini

DC – Dominicae Cenae

DGC – Diretório Geral para a Catequese

DP _ Documento de Puebla

IGELM – Introdução Geral ao Elenco das Leituras da Missa

IGMR – Instrução Geral sobre o Missal Romano

NMI – Novo Millennio Ineunte

PO – Presbyterorum Ordinis

SC – Sacrosanctum Concilium

SD – Documento da Conferência do Episcopado Latino-americano em Santo Domingo (1992)

RDI – Ritual de Dedicação de Igreja

TMA – Tertio Millennio Adveniente

VA – Vicesimus quintus Annus

 

                                                          

 

 

 

       Vitória da Conquista, 08 de setembro de 2003

 

 

Palestra de D. Geraldo Lyrio Rocha, Arcebispo de Vitória da Conquista, no dia 16 de setembro de 2003, durante a Semana Teológica promovida pelo Instituto de Filosofia e Teologia da Arquidiocese de Vitória – IFTAV.