Palavra do Bispo
Dia Nacional da Bíblia

Neste último domingo de setembro, celebramos o Dia Nacional da Bíblia. A Bíblia contém a Palavra de Deus escrita. Ela é a carta de amor que Deus escreveu para nós. Seu centro e ponto de culminância é Jesus Cristo. É do Salvador que falam todas as Sagradas Escrituras (cf. Lc 24,27). O Antigo Testamento fala de Cristo, o Messias, o Salvador que virá. Os 46 livros do Antigo Testamento se reportam a Cristo, a esperança da salvação. Os 27 livros do Novo Testamento falam do Cristo que veio e o apresentam como o “cumprimento das Profecias bíblicas” e a “consumação da Lei”, e, consequentemente, falam da Igreja fundada por Ele como “Ekklesia”, a assembleia do novo povo de Deus, e dos cristãos, seus discípulos, que devem viver na “koinonia”, na comunhão de fé, vida, oração e serviço, constituídos herdeiros das promessas e continuadores da sua missão. Assim se expressou Santo Agostinho: “O Novo estava latente no Antigo e o Antigo se esclarece no Novo”.

            Além disso, a Bíblia não é um livro fácil de ser compreendido e interpretado. São Pedro, falando das Catas de São Paulo, nos diz: “É verdade que em suas Cartas há algumas passagens difíceis de entender, cujo sentido os ignorantes e vacilantes deturpam, como o fazem com as demais Escrituras, para a sua própria perdição” (2Pd 3,16).

        Por isso, o mesmo São Pedro nos adverte: “Antes de mais nada, sabei isto: que nenhuma profecia da Escritura resulta de interpretação particular, pois que a profecia jamais veio por vontade humana, mas os homens impelidos pelo Espírito Santo falaram da parte de Deus” (2Pd 1,20-21). Assim sendo, o ofício de interpretar autenticamente a Palavra de Deus escrita (a Bíblia Sagrada) ou transmitida oralmente (a Sagrada Tradição) foi confiado unicamente ao Magistério vivo da Igreja, cuja autoridade se exerce em nome de Jesus Cristo, que disse aos Apóstolos e seus sucessores “até a consumação dos séculos”: “Ide e ensinai a todos os povos tudo o que vos ensinei... quem vos ouve a mim ouve”.

São Jerônimo, falecido no ano 420, que é festejado no próximo dia 30, foi um grande estudioso da Bíblia, recebeu o título de Doutor da Igreja e de Patrono dos Biblistas, fez uma nova tradução da Bíblia para o Latim, chamada “Vulgata”, reconhecidamente como uma das melhores versões da Bíblia, que passou a ser a mais usada, por séculos, em toda a Igreja. Hoje, há muitas traduções diretamente dos originais nas mais diversas línguas, inclusive no português, as católicas trazem a aprovação eclesiástica. Há também as traduções ecumênicas que têm o reconhecimento comum com outras Igrejas cristãs. Estas diferentes traduções da Bíblia se justificam em função da finalidade para a qual elas foram traduzidas, por exemplo, em linguagem popular para as pessoas simples, em linguagem litúrgica para a proclamação na Igreja, em linguagem sofisticada para a pesquisa. Mas estas têm a mesma mensagem, pois a Palavra de Deus é uma só.   

            São Jerônimo dizia: “Ignorar a Bíblia é ignorar a Cristo”. “Se alguém deseja falar com Deus, ore, se quiser ouvi-Lo, leia a Bíblia”. Princípio e conselho que ainda valem para nós, hoje.

            No trecho evangélico da Missa de hoje - Mc 9,38-43.45.47-48 - São Marcos fala de ensinamentos de Jesus quanto a algumas coisas práticas, a partir de questionamentos que os apóstolos mesmos lhe fizeram. Por exemplo, João informou a Jesus que ele e os demais viram uma pessoa expulsar demônios em nome dEle, e eles, então, o proibiram porque ele não os seguia. Posto o caso, a resposta de Jesus tem validade universal e perene. “Jesus disse: ‘Não o proibais, pois ninguém faz milagres em meu nome para depois falar mal de mim. Quem não é contra nós é a nosso favor’”. Em meio às muitas diferenças de credo e fé, respeitemos os que em nome de Deus fazem o bem, porque não são contra nós, mas a nosso favor. Ensinou também que se alguém lhe fizer um bem, ainda que seja dar um copo de água, porque você é cristão, não ficará sem recompensa. Logo, ser cristão é ser merecedor de privilégio que o dignifica como também dignifica quem o faz, pois voltará para ele o bem que deseja ao que é cristão. Depois, Jesus fala da radicalidade pessoal que obriga todo discípulo que quer levar a sério o compromisso de segui-Lo. Se alguma coisa em você mesmo é causa de pecado - mão, pé, olho – corta, porque é melhor ir ao céu sem alguma parte de você mesmo, do que ir por inteiro para o inferno. Os mandamentos de Deus e os ensinamentos de Jesus valem para todos, observá-los é decisão pessoal, a resposta pessoal que cada um for capaz de dar demonstrará o tamanho do seu amor. E em termos de amor, como se sabe, Deus não se contenta com pouco, mas a medida do amor que Ele pede é um amor sem medida seja para com Ele seja para com o próximo. Amemos sem medida, pois Jesus disse: “Com a medida com que medis sereis medidos” (Mt 7,2). Jesus não se deixou vencer em amor, amou os que o Pai lhe entregou para salvar, a humanidade toda, até o fim. “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo 15,13).   

            Nada de se exigir radicalidade dos outros, importa se perguntar: Quero amar a Deus e ao próximo como pede o primeiro e o maior de todos os mandamentos? Responder sim será fácil, difícil, no entanto, será responder: Com que medida de amor quero amar a Deus e ao próximo? Esta pergunta pela radicalidade é dirigida individualmente a mim e a você: Qual é a medida do amor com que quero amar a Deus e ao próximo?

            A medida do amor que devo querer para mim que seja do tamanho do amor de Jesus “que me amou e se entregou a si mesmo por mim” (Gal 2,20). Há maior prova de amor do que esta?