Palavra do Bispo
Dom Caetano: “Correção Fraterna”

Posso dizer que como cristãos, nós temos muito amor à Palavra de Deus, à Bíblia Sagrada, às Divinas Escrituras, como queiramos chamar este que é o livro traduzido em todas as línguas e o mais divulgado em todo o mundo.

A Igreja estabeleceu setembro como o mês preferencial da Bíblia, com o objetivo de nos estimular a conhecê-la mais, a amá-la mais e a vivê-la mais. É bom termos presente as palavras bíblicas que nos recordam que “Muitas vezes e de modos diversos falou Deus, outrora, aos Pais pelos profetas; agora, nestes dias que são os últimos, falou-nos por meio do Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, e pelo qual fez os séculos” (Hb 1,1-2). Conhecer e amar a Bíblia é conhecer e amar o autor da Palavra Sagrada, Deus, e o seu maior revelador, Jesus Cristo. Como Palavra de Deus, o seu poder é enorme, ela não desce sobre nós sem produzir os seus efeitos, a começar atingindo-nos desde o âmago do nosso ser, indo a fundo para desvendar nossas mais secretas intenções, pondo às claras nossa vida interior, nossos sentimentos e disposições. Ela põe a descoberto o mistério do pecado que nos habita, nos divide internamente e destrói ao nosso redor a comunhão no amor. Mas, ela é poderosa para nos curar e salvar, como lemos em Hebreus que “A Palavra de Deus é viva, eficaz e mais penetrante do que qualquer espada de dois gumes; penetra até dividir alma e espírito, junturas e medulas. Ela julga as disposições e as intenções do coração. E não há criatura oculta à sua presença. Tudo está nu e descoberto aos olhos daquele a quem devemos prestar contas” (Hb 4, 12-13). Na sequência, lemos que temos um sumo sacerdote eminente capaz de se compadecer das nossas fraquezas e que ofereceu dons e sacrifícios pelos nossos pecados, Jesus Cristo. E convida-nos a aproximarmos, com segurança, desse trono da graça para alcançarmos misericórdia (cf. Hb 4, 14-16).

São Paulo Apóstolo advertiu Timóteo, a quem considerava como verdadeiro filho amado na fé, a permanecer firme no ensinamento das Sagradas Letras, como ele dizia, que te foi passado desde a tua infância, porque “Elas têm o poder de comunicar-te a sabedoria que conduz à salvação pela fé em Jesus Cristo. Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para instruir, para refutar, para corrigir, para educar na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito, qualificado para toda boa obra. Eu te conjuro, diante de Deus e de Jesus Cristo, que há de vir julgar os vivos e os mortos, pela sua Aparição e por seu Reino: proclama a Palavra, insiste, no tempo oportuno e no inoportuno, refuta, ameaça, exorta com toda paciência e doutrina. Pois virá tempo em que alguns não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, segundo os seus próprios desejos, como que sentindo comichão nos ouvidos, se rodearão de mestres. Desviarão os ouvidos da verdade, orientando-os para as fábulas. Tu, porém, sê sóbrio em tudo, suporta o sofrimento, faze o trabalho de evangelista, realiza plenamente teu ministério” (2Tm3,15-4,5).

Por ocasião deste mês da Bíblia, que o Senhor nos dê a graça de crescer no amor à sua Palavra Divina, de aprender a ler a vida com a Bíblia e a Bíblia com a vida.

O Evangelho da santa Missa de hoje fala-nos da correção fraterna. É um ensinamento novo que Jesus passou aos discípulos e, por conseguinte, a todos nós com uma sabedoria e pedagogia que só podem mesmo ter vindo d´Ele, o Divino Mestre – Mt 18, 15-20). O erro ou o pecado de alguém contra ti, dizia Jesus, não deve servir de ocasião para que tu humilhes esse alguém, mas para que tu o conquistes, indo ao seu encontro com o bom propósito de corrigi-lo, por meio de uma conversa particular a sós. “Se ele te ouvir, tu ganhaste o teu irmão. Se ele não te ouvir, toma contigo mais uma ou duas pessoas, para que toda a questão seja decidida sob a palavra de duas ou três testemunhas. Se ele não vos der ouvido, dize-o à Igreja. Se nem mesmo à Igreja ele ouvir, seja tratado como se fosse um pagão ou um pecador público”. A correção fraterna proposta por Jesus deve, portanto, se dar por esses vários passos, a fim de que prevaleça a compreensão, o amor, a misericórdia em vista da paz e da comunhão na comunidade. A luz do amor mútuo entre os irmãos brilhará no rosto da pessoa humilde que reconhece o seu erro e se corrige, e no rosto de quem corrige na caridade para perdoar e não humilhar. Desta maneira, Jesus nos ensina a manifestar a responsabilidade pelos irmãos que pecam. Agindo com esse espírito de caridade, o que se liga e se desliga com responsabilidade para o bem da Comunidade Eclesial será ratificado por Deus no céu. Jesus insiste em dizer aos discípulos que “se dois de vós estiverem de acordo na terra sobre qualquer coisa que quiserem pedir, isso lhes será concedido por meu Pai que está nos céus. Pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí, no meio deles”. É muito interessante como Jesus valoriza que as pessoas aprendam a se reunir em seu nome para se pôr de acordo sobre o que desejar pedir ao Pai, que os atenderá, porque Ele, Jesus, estará presente e isto basta para que a graça aconteça. Pois onde está o Filho está o Pai e o Espírito Santo.         

 

Dom Caetano Ferrari, OFM

Diocese de Bauru