Palavra do Bispo
Dom Caetano: “Estarei convosco todos os dias”

Chegou a hora de Jesus subir ao céu para junto do Pai. A promessa do Pai revelada por Jesus será cumprida pelo Batismo no Espírito no dia de Pentecostes, cuja solenidade celebraremos no próximo domingo. Na Santa Missa de hoje, solenidade da Ascensão do Senhor, ouvimos nos Atos dos Apóstolos 1,17-23 o relato resumido do que aconteceu nesses quarenta dias depois da ressurreição de Jesus, das suas aparições, mostrando-se vivo com numerosas provas, das suas instruções dadas aos apóstolos, do Reino de Deus de que tanto já havia falado. Inclusive os Atos recordam que Jesus em certo dia ordenou aos apóstolos para que não se afastassem de Jerusalém, mas esperassem a realização das promessas do Pai de que receberão o Espírito Santo que descerá sobre eles com o seu poder, a fim de irem à missão, como suas testemunhas em toda a Judéia, a Samaria e os confins da terra. E no Evangelho de São Mateus 28, 16-20 ouvimos que os onze foram para o monte da Galiléia, conforme foi indicado por Jesus, onde Ele os recebeu, indo para perto deles, dizendo-lhes: “Toda a autoridade me foi dada no céu e sobre a terra. Portanto, ide e fazei discípulos meus todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo e ensinando-os a observar tudo o que vos ordenei!”. E antes de subir ao céu à vista deles, concluiu com estas consoladoras palavras, que vêm nos animando na nossa vida cristã rumo à casa do Pai: “Eis que Eu estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo”.

Peço a sua licença para retornar à crônica da nossa vida cotidiana. A crise moral que se abate sobre os quadros das estruturas fundamentais da republica e das pessoas mais importantes do nosso Brasil faz o nosso povo gritar aos céus: Vem, Senhor, vem nos salvar! Como o Senhor ouviu os gritos do seu povo na escravidão e Ele mesmo desceu do céu para libertá-lo e ser o seu pastor, precisamos da nossa parte perseverar, como é tradição na Igreja, assíduos na oração, como se tudo dependesse dEle, e firmes na ação pessoal e comunitária contra a corrupção, como se tudo dependesse de nós.

Não se pode calar a voz e deixar de gritar que o problema de base é moral, a perda dos valores fundantes que ainda se veem, graças a Deus, presentes na parte sadia da sociedade, das boas famílias, dos heróis trabalhadores, dos honestos empresários, dos corretos políticos, dos justos juízes, dos impolutos governantes. Mas está difícil de se encontrar pessoas de bem e de virtude que restaurem a nossa república. É preciso sairmos, com  lâmpadas acesas, às ruas e às praças à sua procura.  

Que saudades que tenho da minha infância passada na roça, no pequeno sítio de propriedade de meu pai e seus três irmãos, em minha querida Pirajuí/SP. Ao redor de nós, outros sitiantes, fazendeiros e também colonos viviam do cultivo do café. Os valores que norteavam a vida dessa gente eram: religião, família, trabalho e educação. Nunca meus pais disseram a nós, os filhos: O objetivo último da vida é riqueza e poder. O objetivo é ter fé, trabalhar e estudar para formar a própria família e ser feliz. As virtudes básicas são: honestidade, honradez, justiça, respeito, sobriedade, fidelidade aos seus compromissos e deveres, fé em Deus e caridade. Evitar os vícios e praticar as virtudes esse era o lema. “Liberté, egalité, fraternité” da revolução francesa não tinham chegado por lá.

Na modernidade e pós-modernidade atual o ideal e valores daquela gente da minha infância não passam de velharia, coisa ultrapassada, conservadorismo, tradicionalismo, nada disso ou pouca coisa disso sobra de aproveitável. Os valores mais ambicionados na sociedade laica atual são: o máximo de liberdade, de direitos, de bem-estar, de poder, de dinheiro e o mínimo de obrigações e deveres. O lema é seja vencedor, portanto, passe por cima dos outros, porque são concorrentes, não tenha escrúpulos nem medo de levar vantagem em tudo. O mundo é dos espertos. Tudo se resume numa ética e moral simples e mínima, como, por exemplo, respeite a liberdade do outro para que o outro respeite a sua, não faça mal a ninguém para que ninguém o faça contra você. 

O Papa Francisco, falando sobre a corrupção, frisou que a questão é “por que nasce a corrupção na pessoa?”. Explicou que “a corrupção é quando o pecado entra lentamente na tua consciência e não deixa espaço nem sequer para o ar, e tudo se torna pecado: isto é corrupção”. Há a corrupção nos negócios públicos e privados, corrupção de legalidade, de legalismo, de autoritarismo, na política, na economia. Na Bíblia há reis corruptos, juízes corruptos, religiosos corruptos, patrões corruptos, administradores corruptos. E o Papa afirma que é oportuno interrogar-nos se somos corruptos ou não. Se alguém se reconhecer corrupto, então, deve reconhecer o seu erro, procurar não pecar mais, pedir perdão e retomar o caminho do bem e da virtude.     

 

Dom Caetano Ferrari, OFM

Diocese de Bauru