Palavra do Bispo
Dom Caetano: “O poder e a autoridade de Jesus”

São Marcos, no Evangelho da santa Missa deste quarto domingo do tempo comum, prossegue narrando os primeiros passos de Jesus desde que começou a sua atividade apostólica, pregando o Evangelho do Reino de Deus e ensinando como quem tem autoridade - Mc 1,21-28. Assim sendo, segundo São Marcos, Jesus, num dia de sábado, entrou na sinagoga da cidade de Cafarnaum. Todos ficavam admirados com o seu ensinamento. Estava na sinagoga um homem que possuía um espírito mau, que gritava: “Que queres de nós, Jesus Nazareno? Vieste para nos destruir? Eu sei quem tu és: tu és o santo de Deus”. Jesus, então, o intimou, dizendo: “‘Cala-te e sai dele!’ O espírito mau, sacudindo o homem com violência, deu um grande grito e saiu dele”. Naturalmente, todos os presentes, vendo o que acabara de acontecer, ficaram muito espantados e se perguntavam: “O que é isso? Um ensinamento novo, dado com autoridade: Ele manda até nos espíritos maus, e eles obedecem!” São Marcos encerra o relato da cena, registrando que a fama de Jesus se espalhava por toda a região da Galiléia.

Para entender o poder e a autoridade de Jesus, precisamos voltar ao batismo de Jesus por João Batista, quando o Espírito Santo desceu sobre Ele, e à sua retirada ao deserto para onde o mesmo Espírito o levou, a fim de ser tentado pelo diabo (cf. Mc 1,9-13). Jesus recebeu o Espírito que desceu sobre Ele em forma de pomba, e o Pai O abençoou, proclamando: “Tu és o meu Filho amado, em ti me comprazo”. Jesus, o “Ungido de Deus”, venceu as tentações de Satanás que O assediou nos quarenta dias e noites em que passou em jejum e orações. Portanto, o poder e a autoridade de Jesus vêm de quem Ele é: o Messias ou o Cristo, o Filho de Deus e o Salvador; vem do Pai que O ama e nEle se compraz; e vem do Espírito Santo que é “Sopro” e “energia criadora de Deus”, o qual no passado dirigia os profetas, e agora dirigirá o próprio Jesus no cumprimento de sua missão. Com este poder e autoridade, Jesus derrotou aquela “besta”, no retiro do deserto, e, agora, na sinagoga de Cafarnaum, exorcizou o homem possuído pelo demônio que, em face de Jesus, dizia saber quem Ele era, “o santo de Deus”; Jesus conjurou esse diabo severamente: “Cala-te e sai dele”.    

São Mateus, no seu Evangelho, conta que “Jesus percorria toda a Galiléia, ensinando em suas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino e curando toda e qualquer doença ou enfermidade do povo... De modo que lhe traziam todos os que eram acometidos por doenças diversas e atormentados por enfermidades, bem como endemoninhados, lunáticos e paralíticos. E Ele os curava. Seguiam-no multidões numerosas vindas da Galiléia, da Decápole, de Jerusalém, da Judéia e da Transjordânia” (Mt 4,23-25).

De onde vêm o poder e a autoridade da Igreja? Nosso Catecismo elucida bem essa questão. Lembra-nos, por exemplo, que “Após a sua ressurreição, Jesus doou aos seus discípulos o Espírito Santo (Jo 20,22). Foi assim que o Espírito de Jesus transbordou para a sua Igreja: ‘Assim como o Pai me enviou, também Eu vos envio a vós’ (Jo 20,21)” (Youcat, 114). Continua: “O Espírito Santo edifica a Igreja, impele-a e recorda-lhe a sua missão. Chama homens e mulheres para o serviço dela, concedendo-lhes os dons necessários. Introduz-nos cada vez mais profundamente na comunhão com o Deus trino”... “É o Espírito Santo que mantém a Igreja, como um todo, na verdade e a introduz cada vez mais profundamente no conhecimento de Deus. É o Espírito Santo que age nos ‘Sacramentos” e faz que a Sagrada Escritura se torne viva para nós. Presenteia ainda hoje, com os seus dons gratuitos (Carismas), as pessoas que se abrem totalmente a Ele” (Youcat, 119). A fonte da força, poder e autoridade da Igreja é o Divino Espírito Santo que dirige a Igreja no cumprimento de sua missão no mundo: “Recebereis uma força, a do Espírito Santo que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e a Samaria, e até os confins da terra” (At. 1,8).   

A Igreja é santa e pecadora. Santa, enquanto divina, desejada pelo Pai, fundada por Jesus e vivificada pelo Espírito Santo. Pecadora, enquanto constituída pelo povo de Deus peregrino neste mundo, que é frágil e suscetível a pecados e erros. “A inquebrável ligação entre o humano e o divino, o pecado e a graça, é o mistério da Igreja. Vista com os olhos da fé, a Igreja é indestrutivelmente santa” (Youcat, 124 e 132). Mesmo sendo Igreja de pecadores, Cristo nunca abandona a Igreja, porque inclusive deu a sua vida por ela. Dom Helder Câmara explicou assim: “Achas que as fraquezas da Igreja fariam com que Cristo a abandonasse? Abandonar a Igreja seria o mesmo que abandonar o seu próprio corpo”. Mesmo que os homens da Igreja, só para argumentar, tivessem cometido algum pecado sem perdão, poderíamos também perguntar: achas que Cristo desistiria da sua Igreja, a deixaria entregue à sua própria sorte, e apoiaria a fundação de alguma outra Igreja para substituí-la? Não, porque “Deus é fiel”, seu amor é para sempre, jamais abandona a sua criatura ou destrói a sua obra, ao pecador também diz “nunca te deixarei, jamais te abandonarei”. Não, porque Jesus Cristo é o mesmo, ontem e hoje; Ele o será para sempre!”; “As potências do mal nunca prevalecerão contra a Igreja, edificada sobre a rocha firme de Pedro”; A Igreja é a “esposa de Cristo”. Não, porque o Espírito Santo vivifica a Igreja e a conduz incólume rumo ao céu; “A Igreja é o lugar do Universo em que o Espírito Santo se encontra integralmente” (Youcat, 128).

Dom Caetano Ferrrari, OFM

Bispo Diocesano de Bauru