Palavra do Bispo
Dom Caetano: “Rumo à Páscoa”

Com a Quarta-feira de Cinzas, entramos, mais uma vez, no tempo da Quaresma e partimos rumo à Páscoa do Senhor que é também a Páscoa dos Cristãos. Por sua Sagrada Liturgia, todo ano, a Igreja celebra como a maior das solenidades cristãs a Páscoa da ressurreição do Senhor em sua tríplice dimensão: memória, anúncio e esperança. Ao mesmo tempo, celebra-a como memorial atualizante e presencial do evento da morte do Senhor na cruz e da sua ressurreição que perdoa os pecados e opera a transfiguração da vida dos cristãos no aqui e agora manifestada no Batismo; também a celebra como anúncio perene da boa nova para o mundo quanto à vitória de Cristo sobre o pecado; e ainda a celebra como testemunho da esperança na vitória definitiva sobre a morte que nos anima na certeza da nossa ressurreição e da vida nova em Deus, plena, eterna e feliz. Assim sendo, a Páscoa é a festa primordial da salvação e redenção da humanidade, e a sua celebração é a mais importante do Ano Litúrgico. Consequentemente, quanto mais importante é a festa, melhor deve ser a sua preparação.

Por esta razão, a Quaresma é para nós, cristãos, tempo forte de conversão e penitência em preparação para a Páscoa. O Papa Francisco, conforme a sua mensagem para este ano, acaba de nos recordar que “Todos os anos, com a finalidade de nos preparar para a Páscoa do Senhor, Deus na sua providência oferece-nos a Quaresma, como sinal sacramental da nossa conversão, que anuncia e torna possível voltar ao Senhor de todo o coração e com toda a nossa vida”. É que desde há muito que a Quaresma é tempo privilegiado na vida da Igreja. A palavra-chave, sempre relembrada, é “metanóia”, ou seja, conversão que leva à mudança de vida. A fim de se alcançar este fim, sempre de novo, a Igreja nos propõe os grandes exercícios quaresmais, a saber: a prática da caridade, da esmola e das obras de misericórdia; a observância do jejum feito com coração sincero e penitente; e a vida de oração sempre assídua e devota. Estes exercícios penitenciais são antiquíssimos, vêm da espiritualidade judaica dos tempos bíblicos. Por conseguinte, a Quaresma significa um tempo denso de sentido, rico de conteúdo e, por isso, longo, isto é, de quarenta dias, que demanda ser bem vivido, pessoal e comunitariamente, em privado e em público, em casa e na Igreja.  

No Evangelho da santa Missa deste primeiro domingo da Quaresma São Marcos resume em poucas palavras a quaresma que Jesus passou no retiro do deserto. Marcos registrou que Jesus, depois do Batismo no Jordão, foi arrebatado pelo Espírito Santo que o levou para o deserto, onde Ele ficou quarenta dias e foi tentado por satanás, tendo, porém, o derrotado nas três vezes que o tentou. Jesus vivia entre os animais selvagens e os anjos o serviam. Depois que João Batista foi preso, Jesus foi para a Galiléia, pregando o Evangelho de Deus, dizendo: “O tempo já se completou e o reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho” – Mc 1,12-15). Portanto, conversão, fé no Evangelho de Cristo e compromisso com a vida nova formam as linhas-força da Quaresma que ora inicia. 

Todo ano, a Campanha da Fraternidade foca algum tema de grande importância da atualidade para ajudar-nos a viver mais intensamente a Quaresma. Neste ano o tema é: Fraternidade e superação da violência, baseado no lema bíblico: “Em Cristo, somos todos irmãos” (Mt 23,8). De que modo devemos vivenciar os exercícios quaresmais como práticas penitenciais de conversão e mudança de vida que possam nos ajudar a superar a violência de uma sociedade que mata cada dia mais pessoas e destrói a natureza como a nossa, nos dias de hoje? Tudo começa com mais empenho e doação de nossa parte, ou seja, com mais tempo à oração, mais generosidade na esmola e mais renúncia no jejum. Vencendo, como Jesus, as tentações com as quais satanás tenta nos dominar, poderemos nos sentir suficientemente livres, inspirados e fortalecidos para trabalhar pela superação da violência ao nosso redor. Não haverá nunca mundo novo e pacificado, sem homens e mulheres novos e pacificados. Assim como ouvimos Jesus dizendo nas bem-aventuranças: “Bem-aventurados os mansos, os pacíficos, os que promovem a paz, porque deles é o reino dos céus e eles serão chamados filhos de Deus” (Mt 5, 4 e 9). Só pessoas pacificadas têm força para pacificar o mundo. A paz que primeiramente deve começar dentro do coração para depois de expandir nasce de uma vida de oração, de um coração arrependido, de uma vivência sacramental e de uma entrega de amor a Deus e aos outros. Só depois as ações interventoras na sociedade e transformadoras das estruturas poderão acontecer na realidade.  

Rezemos como na oração da Campanha da Fraternidade, suplicando ao nosso Deus e Pai: “Derramai sobre nós o Espírito Santo, para que, com o coração convertido, acolhamos o projeto de Jesus e sejamos construtores de uma sociedade justa e sem violência, para que, no mundo inteiro, cresça o vosso reino de liberdade, de verdade e de paz”.

 Dom Caetano Ferrari, OFM

 Diocese de Bauru