Palavra do Bispo
Dom Caetano: “Sair a outros lugares”

Relembrando: De acordo com o Calendário Litúrgico, em 2018, Ano B, a Liturgia dominical nos oferece à meditação o Evangelho segundo São Marcos. Estamos há dois domingos ouvindo o capítulo primeiro. No domingo passado, na santa Missa, ouvimos que Jesus, na cidade de Cafarnaum, entrara num dia de sábado na sinagoga e aí exorcizara um homem possuído por um demônio, fato que provocara extraordinária admiração entre os que ali se encontravam. Espantados, eles disseram: “O que é isso? Um ensinamento novo, dado com autoridade: Ele manda até nos espíritos maus, e eles obedecem!” (cf. Mc 1,21-28.

Pois bem, na santa Missa de hoje, quinto domingo do tempo comum, lê-se a sequência daquele dia de Jesus em Cafarnaum, em mais um trecho do Evangelho de Marcos, a saber, Mc 1,29-39. Ele conta que Jesus, saindo da sinagoga, foi com Tiago e João até a casa de Simão e André. A sogra de Simão estava acamada com febre. Jesus se aproximou dela, segurou a sua mão e a curou. Ela levantou-se e pôs-se a servi-los. Logo depois do pôr do sol, começaram a chegar à casa de Simão doentes e possuídos pelo demônio. A cidade inteira acorreu até ali à frente da porta. Jesus curou muitas pessoas de diversas doenças e expulsou muitos demônios. Nem deixava que os demônios falassem, pois sabiam quem Ele era. De madrugada, quando ainda estava escuro, Jesus se retirou e foi rezar num lugar deserto. Simão e companheiros foram procurar Jesus. Encontrando-O, disseram: “Todos estão Te procurando”. Jesus respondeu: “Vamos a outros lugares, às aldeias da redondeza! Devo pregar também ali, pois foi para isso que Eu vim”. Termina aqui aquele dia de Jesus em Cafarnaum.

Jesus veio a este mundo, enviado pelo Pai e ungido pelo Espírito Santo, para evangelizar toda a gente daqui, dali e de outros lugares. Ao voltar para o Pai, depois de sua ressurreição, enviou os seus apóstolos a “evangelizar toda criatura por todo o mundo” (Mc 16,15), “a fazer que todas as nações se tornassem seus discípulos, batizando-as e ensinando-as a observar tudo o que Ele ordenou, garantindo estar com eles todos os dias até a consumação dos séculos” (Mt 28,19-20). Ao longo de sua vida e apostolado, Jesus demonstrou a sua fidelidade à missão que recebeu do Pai: passou anunciando o Evangelho, curando doentes e expulsando demônios, o que são três faces da mesma realidade.

Como sabemos, Jesus passou esta missão à sua Igreja; a Igreja deve continuar o que Jesus começou. Antes de subir ao céu, Jesus instruiu os apóstolos que escolhera sob a ação do Espírito Santo, dizendo: “Assim como o Pai me enviou, também Eu vos envio” (Jo 20,21). Afirma o Concílio Ecumênico Vaticano II, apoiando-se sobretudo em Atos 1,8, que este solene mandamento de Cristo a Igreja o recebeu dos apóstolos com a ordem de cumpri-lo até os confins da terra (cf. Lumen Gentium, 17). A Igreja é constituída como Povo de Deus. A Lumen Gentium fixa como ponto de partida que “Aprouve a Deus santificar e salvar os homens não singularmente, sem nenhuma conexão uns com os outros, mas constituí-los num povo”. Acentua que, por isso, no passado, Deus escolheu Israel como o seu povo, com quem estabeleceu uma verdadeira Aliança, e o santificou. Mas, tudo isso aconteceu em preparação e prefiguração de uma nova e mais perfeita Aliança a se estabelecer em Cristo. Jeremias profetizou a nova Aliança com a casa de Israel e de Judá, quando Deus será o seu Deus e eles serão o seu povo. Agora, segundo São Paulo, “Foi Cristo quem instituiu essa nova Aliança, isto é, o novo testamento em seu sangue (cf. 1Cor 11,25), chamando de entre judeus e gentios um povo, que junto crescesse para a unidade, não segundo a carne, mas no Espírito, e fosse o novo povo de Deus”... “(Este povo), constituído por Cristo para a comunhão de vida, caridade e verdade, é por Ele ainda assumido como instrumento de redenção de todos, e é enviado ao mundo inteiro como luz do mundo e sal da terra” (LG, 9).

O povo de Deus é vocacionado à unidade e à comunhão, como primeira forma de Evangelização, a fim de que todos, isto é, toda a gente do mundo inteiro, vendo a caridade que existe na Igreja, possam também crer. Onde há amor Deus aí está. Por isso, Paulo exorta a andarmos de modo digno da nossa vocação, procurando conservar a unidade pelo vínculo da paz. Afirma ele: “Há um só Corpo e um só Espírito, assim como é uma só a esperança da vocação a que fostes chamados; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo. Há um só Deus e Pai de todos, que está acima de todos, por meio de todos e em todos” (Ef 4,1-6). Em síntese, a vocação da Igreja é o amor.

Só pode haver uma Igreja de Cristo. Como só há um único Cristo, só pode haver um único ‘corpo’ de Cristo, uma única ‘esposa’ de Cristo; Ele é a cabeça, ela é o seu corpo, juntos formam o ‘Cristo total”, no dizer de Santo Agostinho. Jesus construiu a Igreja sobre o fundamento dos Apóstolos, base sólida que a suporta até hoje. Os Apóstolos transmitiram a fé em Cristo conforme a receberam e viveram pelos tempos a fora e por todas as partes do mundo. Os Apóstolos viveram na unidade e em comunhão, sob o ‘ministério petrino’, isto é, de Pedro, a pedra eleita por Jesus para ‘presidir à caridade e à unidade na Igreja’. Deram a sua vida para que os ensinamentos do Mestre e os Sacramentos da salvação instituídos por Cristo continuassem a atuar com toda a sua força original para a maior glória de Deus e o bem de toda a humanidade (cf. Youcat, 129). Assim é a Igreja Católica, que eu tanto amo.

 

Dom Caetano Ferrari, OFM

Diocese de Bauru