Palavra do Bispo
Dom Caetano: “Sim aos pequenos, não aos sábios”

No Evangelho da santa Missa de hoje - Mt 11,25-30 - Jesus pôs-se a louvar o Pai porque escondeu “essas coisas” aos sábios, mas as revelou aos pequeninos. A primeira pergunta que vem é: Que são “essas coisas”? São as coisas relacionadas à misericórdia divina que Jesus neste trecho evangélico revela.  Lá em Oséias, Jesus deve ter encontrado a inspiração que fundamenta “essas coisas”: “Porque é misericórdia que eu quero e não sacrifício, conhecimento de Deus mais do que holocaustos” (Os 6,6). De acordo com Jesus, a revelação da misericórdia de Deus traz alívio e paz aos aflitos, ela é a expressão da sabedoria do Reino. Inclusive, foi essa a missão que Ele recebeu do Pai, a de revelar a misericórdia ao mundo. A segunda pergunta é: por que Deus revelou “essas coisas” da misericórdia divina aos pequeninos e não aos sábios? Porque são estes os que acolhem com boa vontade e mansidão a sua mensagem, aceitam entrar em comunhão com Ele e assim conseguem conhecer o Pai, como somente Ele conhece o Pai e o Pai conhece a Ele. Por isso é que Jesus louva o Pai, pois foi do seu agrado assim proceder. O Pai, Senhor do céu e da terra, escondeu essas coisas aos sábios e entendidos, mas as revelou aos pequenos, pobres e aflitos. Os letrados, os fariseus, não acolheram a Jesus, não aceitaram a sua mensagem, ao contrário a ela se opuseram e foram dizer ao povo que Jesus estava com o demônio, que era por Belzebu que Ele expulsava demônios, tentando desqualificá-Lo. Consequentemente, para essa gente Jesus teria pregado em vão. Mas, para muitos outros, como por exemplo, os iletrados, os pequenos, os aflitos, e, sobretudo, para os pagãos, tais como os moradores de Tiro, Sidônia/Sodoma, no dia do juízo, bem como Nínive/a rainha do sul, no juízo, a graça de Deus não foi oferecida em vão, neles produziu frutos porque se arrependeram de seus pecados e acolheram a Jesus e ao Pai de todo coração. Sob o arco mais amplo de Mateus, dos capítulos 11 a 12, se pode encontrar o conjunto teológico que explica todo esse contexto que situa a mensagem que Jesus expõe na santa Missa de hoje.

Fechando o Evangelho, o Jesus misericordioso conclama a todos dizendo: “Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e Eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vós encontrareis descanso. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve”.

A missão da Igreja é professar e proclamar a misericórdia divina em toda a verdade, e oferecê-la a toda gente, gratuitamente, sem imposição alguma, a fim de que seja generosamente acolhida e produza os frutos do descanso, da paz e do bem aos que a acolherem.

O Santo Padre o Papa São João Paulo II escreveu uma belíssima Carta Encíclica sobre o tema da misericórdia divina, chamada “Dives in Misericordia” (Rico em Misericórdia). Nela lemos que “A Igreja vive uma vida autêntica quando professa e proclama a misericórdia, o mais admirável atributo do Criador e do Redentor, e quando aproxima os homens das fontes da misericórdia do Salvador, das quais ela é depositária e dispensadora” (DM 7,13). O Papa diz inspirar-se na linguagem da revelação e da fé, por ser eterna e ao mesmo tempo incomparável por sua simplicidade, para iluminar as grandes preocupações do nosso tempo. E estimular os fiéis a recorrer ao Pai das misericórdias, em nome de Cristo e em união com Ele (cf. DM 1, 2).

O Papa Francisco, por sua vez, acentuou na sua Exortação Apostólica “Evangelii Gaudium” (A Alegria do Evangelho) que a misericórdia tem um lugar de destaque na vida e missão da Igreja, inclusive, na sua vida pessoal, pois adotou como seu lema episcopal “Miserando atque eligendo” (Olhou-o com misericórdia e o escolheu). Na Exortação, o Papa tira a lição para afirmar que da teologia da misericórdia deve emergir a eclesiologia do perdão. Como consequência, declara que “A Igreja deve ser o lugar da misericórdia gratuita, onde todos possam sentir-se acolhidos, amados, perdoados e animados a viver segundo a vida boa do Evangelho” (EG 114). O Papa Francisco convida todos os batizados a ser evangelizadores com espírito, que anunciam a Boa Nova não só com palavras, mas com gestos concretos que visam dar resposta às necessidades mais profundas das pessoas, em nome das exigências evangélicas da caridade. Os evangelizadores com espírito rezam e trabalham, sabem conjugar a mística, a espiritualidade, com a ação e a missão (EG, capítulo V).

 

Dom Caetano Ferrari, OFM

Bispo diocesano de Bauru