Palavra do Bispo
Dom Sevilha: “Onde não há amor, coloque amor e colherás amor!”

O que denominamos Evangelização significa colocar amor em um mundo necessitado de amor. O Papa Francisco nos exorta que devemos combater a cultura da indiferença e do egoísmo com a cultura evangélica da proximidade, da misericórdia, do desejo sincero e concreto de nos ajudarmos reciprocamente, especialmente, os mais frágeis. Jesus veio para servir e nós também desejamos nos colocar à disposição do Espírito de Deus para que Ele nos conduza e fortaleça no serviço de levar amor onde não tem amor. Onde está faltando amor no nosso mundo? Infelizmente há inúmeros bolsões de desamor na realidade que nos cerca. Não é uma contradição, por exemplo, que a palavra amor não combine com a palavra economia? Se a economia é tão importante, como de fato é, porque o amor está excluído dela? (O dinheiro deve servir, não governar!) Falta amor na política, na vida profissional. As vezes falta amor até na família, que deveria ser a primeira escola onde o ser humano aprende a amar. Até na Igreja, por nossa culpa, falta amor naquela que é a Mater et Magistra (Mãe e Mestra) da humanidade no amor e Lumem Gentium (Luz dos povos) para iluminar de amor o nosso coração.

O Papa Francisco tem nos falado com frequência sobre a alegria. De fato, faltando a verdadeira alegria, o mundo moderno aposta desesperadamente no entretenimento, na diversão, na euforia para acalmar ou anestesiar as dores e angustias da alma, o tedio, a depressão. O falso remédio ou placebo espiritual vem em forma de consumismo-materialismo (amor ao dinheiro), drogas licitas e ilícitas, prazeres desregrados; ou em formas mais sutis e refinadas: busca de sucesso, carreirismo, apego doentio à família, o culto neurótico do corpo e da aparência, a busca de emoções nas experiências religiosas malucas, etc. A lista vai ao infinito.

O remédio verdadeiro que cura as dores da alma, não é de fabricação humana, é de fabricação divina, ele é Made in Paradiso. A composição desse remédio é o amor misericordioso de Deus. O Divino Espírito Santo em um milenar hino litúrgico é chamado de “Doce hóspede da alma”, que habita e preenche o pobre e solitário coração de paz quando aflito, de doçura quando lida com as amarguras da vida, de calma nas tempestades, de descanso e calor nos momentos gelados da tristeza e do abandono. Espírito Santo de Deus, hálito divino, brisa suave e mansa lavai as nossas sujeiras, regai as áreas secas do nosso ser, curai as feridas profundas da nossa alma, dobrai a orgulhosa dureza do nosso Ego. Enchei luz bendita, chama que crepita, o íntimo de nós!

Nos Atos dos Apóstolos (2,3) consta que o Espírito Santo se manifestou em forma de luz, chamas de fogo. Luz que ilumina nossa escuridão. Uma das tentações do nosso tempo é a do pessimismo devido à falta de clareza na compreensão e explicação do mundo que nos rodeia. Primeiro, pelo que me consta, desde que o mundo é mundo, o homem tenta compreender e explicar a realidade e não consegue fazê-lo plenamente. Daí a tentação de cair no extremo oposto e duvidar de tudo, inclusive de Deus, ficando paralisado e angustiado na sua escuridão intelectual e existencial. A enxurrada de informações que hoje se despeja sobre nós, deixa-nos ainda mais atordoados e desorientados.

Pedimos ao Espírito Santo na mesma milenar oração: guiai no escuro! De fato, Deus nos guia no escuro. Não nos assustemos com as noites escuras da alma, com as noites escuras da vida, não nos assustemos com a noite escura da história. São João da Cruz afirma que o Amor de Deus se derrama na nossa vida, também nas noites escuras e através delas, vai secretamente agindo, transformando-a, lapidando-a, iluminando-a. Se nós tivemos a graça de receber o dom da fé e decidimos livremente acolhê-la, vamos nos abandonar nos braços do Pai, deixar-nos conduzir por Ele e, aconteça o que acontecer, no sucesso ou no fracasso, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, repetiremos todos os dias da nossa vida, com Maria a Mãe de Jesus e nossa: “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a vossa Palavra”.

O Papa Francisco nos recorda que o Espírito Santo harmoniza as coisas que, humanamente, nos parecem desarmônicas, contraditórias e incompreensíveis. Não somos senhores da história, nem mesmo da história da nossa vida pessoal, ou senhores da vida da Igreja, e aqui reside o perigo do clericalismo. Entre nós cristãos jamais deveria ser dito: aqui quem manda sou eu. Mas, aqui quem serve sou eu! Chegaremos um dia a ter no cristianismo uma santa competição para ver quem serve mais?

A fé entendida e vivida como confiança e abandono nos fortes braços do Pai, ilumina a alma enchendo-a de alegria espiritual, de esperança teologal, de amor misericordioso. Essa pessoa será feliz e, portanto, verdadeira evangelizadora, pois contagiará de felicidade o ambiente e as pessoas ao seu redor, levando Deus para as pessoas e as pessoas para Deus. Deus é amor e onde há amor, Deus ai está!

O Papa Francisco escrevendo recentemente sobre a santidade (Gaudete et Exsultate 89) nos diz que “não é fácil construir esta paz evangélica que não exclui ninguém; antes integra mesmo aqueles que são um pouco estranhos, as pessoas difíceis e complicadas, os que reclamam atenção, aqueles que são diferentes, aqueles que são muito fustigados pela vida, aqueles que cultivam outros interesses. É difícil, requerendo uma grande abertura da mente e do coração, uma vez que não se trata de ‘um consenso de escritório ou uma paz efêmera para uma minoria feliz’, nem de ‘um projeto de poucos para poucos’. Também não pretende ignorar ou dissimular os conflitos, mas ‘aceitar suportar o conflito, resolvê-lo e transformá-lo no elo de ligação de um novo processo’. Trata-se de ser artesãos da paz, porque construir a paz é uma arte que requer serenidade, criatividade, sensibilidade e destreza. Semear paz ao nosso redor: isto é santidade”.

Enfim, façamos o que sabiamente aconselhou o grande místico carmelita São João da Cruz: Onde não há amor, coloque amor e colherás amor!

Dom Rubens Sevilha, OCD

Bispo Diocesano de Bauru