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publicado em: 30/03/2019
Dom Rubens Sevilha - ESPERANDO A VIDA COMEÇAR

    O poeta americano Lawrence Ferlinghetti que está completando 100 anos de idade, inicia um de seus poemas dizendo “estou esperando que a vida comece...” Não sei em qual idade da vida ele expressou esse sentimento. Em todo caso, parece-me, que a maioria da humanidade está esperando que, repentinamente, em algum momento, a própria vida comece.

    Para nós que temos fé, a vida já começou há muito tempo. A nossa existência começou no coração de Deus. Nenhum ser humano apareceu neste mundo por acaso ou por acidente. Todo ser humano foi planejado por Deus, amado por Deus antes do ventre materno. Daqui decorre que ciência e religião nunca vão concordar a respeito do aborto, pois para a ciência, a vida começa com a fecundação de células enquanto a fé nos revela que a vida começa em Deus na eternidade.

    Deus nos criou e não nos jogou na vida como fazem os pais omissos que põem filhos no mundo e os abandonam ou não cuidam deles devidamente. Deus ama e acompanha cada um de nós seus filhos e filhas, antes, durante e depois da nossa vida neste mundo. Para aqueles que não têm fé sobra a sensação de abandono e desamparo, sentem-se órfãos como frutos do acaso e jogados ao léu na vida. Enfim, quem não tem fé é filho sem pai nem mãe. Nós os crentes sabemos que temos um Pai que é Deus e temos uma mãe espiritual que é Maria de Nazaré, a própria mãe de Jesus que Ele, do alto da cruz, nos deu como nossa mãe (Jo 19,27).

    Quem não tem fé está esperando a vida começar. Os anos vão passando, a vida vai escorrendo inexoravelmente com o implacável tempo que passa. Alguns vão se desesperar quando, tardiamente, irão acordar e perceber que a maior parte da vida já passou e eles ainda estão esperando a vida começar. O nosso natural orgulho com sua mania de grandeza, cria em nossa alma a enganosa sensação de que a vida deve ser diferente da pequena e normal rotina do dia a dia e ficamos esperando que algo grandioso aconteça repentinamente em nossa existência e, nesse dia, então, a nossa vida teria “começado de verdade”.

    A morte irá chegar e vai pegar de surpresa a muitos que se esqueceram de viver a vida do jeito que ela veio, continuam esperando a tal vida glamorosa e desprezam a única vida possível, que é a vida real, essencialmente feita de rotina e pequenas coisas, com raras exceções. Podemos contar nos dedos de uma das mãos os dias “extraordinários ou grandiosos” da nossa vida. Sabiamente escreveu Bernard Shaw que “na existência há duas catástrofes: a primeira, quando não vemos nossos desejos realizarem-se de forma alguma; a segunda, quando se realizam completamente”.

    Nossa missão nesse mundo é muito clara e definida: estamos nesse mundo para sermos bons e fazermos o bem, sempre e a todas as criaturas (cf. Mt 5, 43-48). Sem Deus não conseguimos realizar essa missão tão simples e tão difícil. A bondade deve ser conquistada, exercitada e cultivada, do nascer ao morrer, apoiando-se totalmente na graça de Deus. Sem Ele nada podemos e nada somos. Toda bondade verdadeira, seja em relação às outras pessoas, seja em relação à natureza e consigo mesmo, terá sua raiz em Deus, ou não será bondade verdadeira.

    O nosso mundo atual está carente de bondade e sobrando maldade. Peçamos a Deus um coração mais bondoso e comecemos espalhando pequenos gestos de bondade ao nosso redor que, pela força de Deus, serão sementes que brotarão e darão frutos novos de transformação.

    Que todos nós, nos momentos difíceis, possamos ouvir e dizer mais vezes não a confortável frase: “Calma, tudo vai terminar bem.” Mas sim a confortante e empenhativa frase: “Calma, eu vou te ajudar!”

    Dom Rubens Sevilha, OCD.

 

Artigo publicado na coluna "Conversando com o Bispo" no Jornal da Cidade de 31 de março de 2019.