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publicado em: 23/02/2019
Dom Rubens Sevilha: AMOR GRATUITO

   Sempre me pareceu uma redundância dizer amor gratuito, pois seria o mesmo que dizer água molhada. O amor é sempre gratuito ou deixaria de ser amor verdadeiro. O que seria um amor não gratuito? É o bem que fazemos buscando alguma forma de recompensa ou pagamento. Por exemplo, podemos fazer o bem esperando receber aplausos, admiração e louvor das pessoas. Pode haver alguma forma de vaidade embutida em uma aparente boa ação. Obviamente é melhor fazer o bem, mesmo que imperfeito, do que fazer o mal.

   Podemos fazer o bem para aprisionar afetivamente as pessoas. Claro está que essa bondade ruim vai logo degenerar em indiferença mútua ou até mesmo ódio. A vítima se sentirá enganada e o falso benfeitor julgará como ingratidão a reação da vítima. A chantagem afetiva pode ter cara de afeto, jeito de afeto e até apresentar-se como amor, mas, de fato, é egoísmo altamente refinado. Por isso esse tipo de egoísmo é muito difícil de ser detectado em nós mesmos e nos outros. Ele será desmascarado pela verdade dos fatos, afinal a verdade da realidade sempre se impõe. Deus conduz a história e em Deus não pode haver senão a verdade que liberta.

   Existe ainda a falsa bondade profissional e a bondade mercadoria que se vende e se compra. Aqui há gentileza, promessas e sorrisos até à hora em que o contrato é assinado. Surge, então, uma repentina indiferença, má vontade, quando não má fé. Alguns se matam de trabalhar, fazem sacrifícios pessoais enormes por pura ganância pelo dinheiro ou vaidoso carreirismo querendo mostrar poder e superioridade conseguindo cargos importantes ou trabalham exaustivamente por pura neurose, pois acham que vão enlouquecer se ficarem parados e em silêncio por um minuto. Muitos querem justificar tudo isso alegando que são trabalhadores esforçados e doados, mas, na realidade, tudo é essencialmente realizado em vista de si mesmos. São egoístas. Reafirmo que fazer o bem, mesmo imperfeito, sempre vale a pena.

   Há também a bondade maluca, apego desequilibrado, onde o egoísmo doentio é glamourosamente chamado com o pomposo nome de amor demais ou amor exagerado. O amor verdadeiro nunca é demais ou exagerado. São Paulo, no hino do amor, escreveu que “o amor não faz nada de inconveniente e não procura o próprio interesse” (1 Cor 13,5). O apego é sempre egoístico enquanto que o amor verdadeiro é sempre um sair de si, um esquecer-se, um renunciar a si mesmo, doar-se, sacrificar-se pelo bem do outro. Cristo é o modelo perfeito e máximo do amor.

   A literatura espiritual clássica combate fortemente o chamado “amor próprio” que é uma mistura de orgulho com egoísmo. Quanto mais amor verdadeiro no coração, menos amor próprio e vice-versa. A cultura atual estimula o amor próprio (egoísmo + orgulho) quase como uma virtude. Daqui decorre a baixa capacidade de amor verdadeiro e o excesso de amor mentiroso.

   É altamente explosiva, como fios descascados, o relacionamento de pessoas cheias de amor próprio. Logo se armará a guerra das cobranças e das decepções mútuas. O ambiente se torna um inferno. O cristão é chamado e enviado por Deus para começar a construir o céu ao seu redor (o Reino de Deus), sendo luz e sal, espalhando luminosidade e sabor. “Descobri que o céu é fazer as pessoas felizes” dizia e vivia o santo bispo jesuíta, Dom Luciano Mendes de Almeida.

   Para ser feliz basta olhar para Jesus e, com a ajuda d’Ele, não querer nada para si mesmo e doar tudo. Com certeza “há mais felicidade em dar do que em receber” (Atos 20,35). Seja feliz!

Dom Rubens Sevilha, OCD.

Artigo publicado no Jornal da Cidade - Coluna Conversando com o Bispo - de 24 de fevereiro de 2019.