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publicado em: 08/12/2018
Dom Sevilha: “A Ditadura da Excelência”

Artigo publicado no Jornal da Cidade de 09/12/2018

Hoje em dia existe a ditadura da excelência. Exigem que você seja o melhor em tudo. O melhor pai, a melhor mãe, o melhor profissional.

A armadilha para fazer você tropeçar, cair e desanimar é exigir que você se destaque. Aliás, o orgulhoso fariseu fez esta absurda oração diante do altar (Lucas 18,11): “Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, ladrões, injustos e adúlteros; nem ainda como este pecador [que estava no fundo do Templo]. Jejuo duas vezes na semana, e dou o dízimo de tudo quanto possuo”.

Não sou como os demais homens, gabou-se o fariseu, ou seja, ele julga-se superior, especial e melhor do que os demais. Assim sendo, consequentemente, vai exigir das pessoas ao seu redor o tratamento correspondente à alta dignidade que ele acha que é. Vai se irritar quando não lhe derem a devida reverência ou não se comportarem em relação a ele do jeito que ele pensa que merece ser tratado.  

Claro que esse sentimento de “deusinho” de segunda classe, quando contrariado ou desprezado, reagirá como os deuses da mitologia grega que disparavam raios e trovões sobre os pobres mortais desobedientes e insolentes.

Essas pessoas orgulhosas e megalomaníacas, quando contrariadas, literalmente disparam sobre quem está ao seu redor raios e trovões em forma de impropérios e agressões, com palavras e ações. Boa parte da violência atual é causada por motivos banais e emocionais: ciúme, briga no trânsito, partilha de herança, inveja e disputa por cargos na vida profissional, ambição desenfreada por dinheiro etc.

Boa parte do desânimo existencial tem várias causas: não aceitamos ser contrariados pelas perdas da vida quando, por exemplo, nos são tiradas pessoas que pensávamos amar, mas, que na realidade, julgávamos ser donos delas; revoltamo-nos no trabalho por não termos conseguido ser aquela pessoa brilhante e bem sucedida que pensávamos que seríamos um dia; decepção e culpa por não termos conseguido formar uma família maravilhosa como havíamos imaginado; a saúde não é de ferro; não ganhamos na loteria.

Estou aqui recordando somente os problemas corriqueiros que, mesmo assim, geram enorme sofrimento e angústia na maioria das pessoas que conhecemos. Imagina se começarmos a elencar as grandes tragédias, catástrofes e dores profundas da humanidade!

Queridos irmãos e irmãs, o problema maior da nossa vida, não são os sofrimentos de toda espécie, com os quais temos, inevitavelmente, que conviver. Eles fazem parte da vida. O grande problema é não saber como lidar com eles, como enfrentar e conviver com essas contrariedades.

O remédio para curar, ou ao menos, aliviar as dores da alma chama-se: humildade. A humildade é uma virtude que está muito depreciada em nossos dias. Chega até mesmo a ser vista como algo ruim por algumas pessoas e por alguns ambientes. Exalta-se a superioridade e o orgulho do vencedor. Despreza-se com desumana indiferença àquele que está fragilizado e não consegue competir. Na nossa sociedade não há lugar para o perdedor, pois ela tem olhos somente para o vencedor.

Aliás, é impressionante a fria crueldade da nossa cultura que propõe uma injusta disputa entre desiguais. A disputa na vida profissional e econômica assemelha-se a uma luta entre dois grupos: um munido de metralhadoras e farta munição e o outro grupo com estilingues!

Quando, humildemente, reconhecemos e aceitamos a nossa pequenez e fragilidade diante da realidade e, “ipso facto”, somos misericordiosos e solidários com a fragilidade e a pequenez do outro, o caminho fica escancaradamente aberto para a chuva torrencial da graça de Deus, que tudo transforma e eleva.

Sabendo que não estamos sozinhos e abandonados, mas que temos um Deus que nos ama e cuida de cada um de nós, e lançando-nos confiantemente nos braços do Pai, tudo se acalma. É possível, sim, ser feliz mesmo em meio a dores e tragédias. Ademais, tudo passa! Só Deus basta!

Dom Sevilha, OCD.