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publicado em: 08/09/2018
Dom Sevilha: “Brilho na Alma”

D. Helder Câmara, que foi bispo, profeta e poeta escreveu: “As pessoas, por que não sei, me lembram sempre um pedaço do dia: amanhecer, pôr-do-sol, noite serena..., mas, há pessoas que, independente de idade, pelo que são, pelo que dizem, pelo que fazem, são sempre meio dia!”

De fato, algumas pessoas têm não somente o brilho nos olhos, no rosto, mas, sobretudo o brilho na alma. Aliás, o ser humano tem desejo de brilhar. A nossa cultura atual exalta o narcisismo, o individualismo exacerbado e, portanto, a corrida desesperada pelo brilho pessoal. Há um triste jargão atual que erroneamente afirma alguém “ter luz própria” quando, na verdade, é um poço de orgulho e vaidade.

Existe o brilho verdadeiro e o falso. O verdadeiro procede da luz de Deus. O rosto de Moisés “resplandecia por ter falado com o Senhor” (Ex. 34,29). Jesus é o “Sol nascente que veio nos visitar para iluminar os que estão nas trevas” (Lc 1, 78). Ele é a luz do mundo.

Quando, no dia de Pentecostes, o Espírito Santo foi enviado sobre os Apóstolos e sobre a Mãe de Jesus, reunidos no cenáculo em Jerusalém, Ele apareceu em forma de chama ou língua de fogo, pousando sobre a cabeça de cada um deles (Atos 2,3). Antes da luz elétrica, a única maneira de iluminação era com o fogo.

Deus é a luz que ilumina o caminho da nossa vida. Quem se afasta de Deus, se afasta da luz e caminha na escuridão. Obviamente não chegará a lugar algum e dará com a “cara contra a parede” ou “despencará” nos abismos da ilusão.

O verdadeiro brilho do ser humano está em ser reflexo do amor de Deus. O bem, mesmo sendo simples e discreto, tem um forte brilho, que supera e vence infinitamente o mal. O mal não tem brilho nenhum, ele é treva!

Infelizmente, muitos não encontrando a luz que vem do alto, correm atrás do falso brilho das aparências e da vaidade (vaidade física, intelectual, profissional, religiosa!); banham-se no falso brilho da importância que o dinheiro ilusoriamente oferece.

O intenso e patético brilho da sedução transforma os relacionamentos humanos numa armadilha, causando decepção e dor, tanto no seduzido como no sedutor.

Creio que está na hora do nosso mundo atual lavar o rosto e retirar toda essa maquiagem falsa e grotesca e, com o rosto limpo, olhar para o alto e deixar a luz de Deus brilhar! Precisamos nos colocar mais diante de Deus, sobretudo na oração, e deixar-nos iluminar pela luz que vem do alto. Somos filhos da luz, não das trevas.

Com certeza, iluminados pela presença de Deus, nossos olhos e nosso rosto terão novo brilho em forma de “amor, alegria, paz, bondade, benevolência, fé, mansidão e domínio de si” (Gal 5,22).

O cristão sabe que não tem luz própria e percebe-se como reflexo da luz divina. O verdadeiro cristão reflete Cristo no seu comportamento, reflete a luz do amor de Deus na sua maneira cotidiana e simples de viver. Portanto, a pessoa verdadeiramente “brilhante” é aquela na qual enxergamos o amor de Deus expresso na sua maneira de ser.

O brilho da bondade tem uma beleza infinita e profunda, enquanto que o brilho da vaidade é superficial e grotesco, chegando ao ridículo.

O Sol divino não se apaga jamais, por isso, mesmo quando aqui embaixo há tempestades ou noites escuras, a luz de Deus está sempre brilhando acima das nuvens ou em outro lugar. Meu irmão e minha irmã abra a porta do seu coração e deixe a luz do céu entrar, afinal o cristão nasceu para brilhar!

Dom Sevilha, OCD.