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publicado em: 09/11/2018
Dom Sevilha: “Combater o Bom Combate”

D. Geraldo Lyrio Rocha, Arcebispo de Mariana, no seu jubileu áureo de Ordenação Presbiteral, testemunhou em sua terra natal o seguinte: Depois de 50 anos de vida sacerdotal posso afirmar que eu nasci para ser padre!

A nossa vida poderia ter sido outra coisa, mas não foi e, desse modo, constatamos que a vida é, realmente, um mistério.

O mistério a Deus pertence. Nunca sabemos, exatamente, porque nossa vida correu sobre esses trilhos e não por outros. Obviamente, as nossas decisões certas e erradas têm grande peso no resultado final da nossa existência, porém, muitos outros ingredientes, novos e imprevistos, alteram a rota e a coloração final da nossa vida.

Os resultados são múltiplos: alguns morrem no começo ou meio do caminho, são as mortes prematuras de crianças (inclusive abortadas) e jovens (inclusive negros e pobres). Alguns são tão desligados e alienados, sobretudo os que vivem e morrem na pobreza extrema, que passam a vida sem ter noção de quem eles são.

Outros, por mil razões, são verdadeiras “metamorfoses ambulantes”, várias personagens alternando-se e procurando-se ao longo da vida.

Muitos chegam ao final da vida com a sensação de final infeliz. A vida que viveram não foi a que eles gostariam de ter vivido e já não há mais tempo para refazê-la. A vida não volta, ela sempre corre para o mar.

Mesmo aqueles poucos felizardos que chegam à maturidade com a graça de reconhecerem que nasceram para ser aquilo que são, sentem que a vida não foi perfeita. Nada nesse mundo se encaixa como uma luva, pois em tudo sempre há uma ponta de inadequação.

Sempre falta algo e esse algo tem nome: Deus! O problema de fundo é sempre o orgulho e a solução é a humildade.

Hoje as pessoas não querem negar-se a si mesmas, como pede Jesus; pelo contrário, há uma busca neurótica de autoafirmação, gerando infelicidade em si e ao redor de si.

“O amor nutre-se de sacrifícios”, afirmava Santa Teresinha. O contrário do amor não é o ódio, é o egoísmo. Segundo o místico São João da Cruz, a pessoa que ama vive mais no amado do que em si mesma. No amor, a felicidade dos outros é mais importante do que a minha, as dores dos outros são mais importantes do que a minha.

Não se trata de perguntar qual dor é maior ou mais profunda, mas trata-se de saber qual é a mais importante. Aqui temos um paradoxo próprio do amor cristão: a dor do outro é sempre mais importante do que a minha, mesmo quando a minha dor for maior e mais profunda do que a dor do outro. Jesus assumiu sobre si as nossas dores (Mt 8,17).

Quem perder a sua vida vai ganhá-la. De que adianta alguém ganhar o mundo inteiro, se destrói a própria vida? Afirmou Jesus (Mt 16, 25). A vida de fé pressupõe certo “esquecimento” de si mesmo, uma dose de sadia “autodesvalorização”.

Deus é o ponto de referência da medida de valoração de nós mesmos. Diante de Deus somos, de fato, muito pequenos, mas acolhidos e, infinitamente, amados por Ele.

Sem Deus, nos medimos entre nós mesmos, comparando-nos e julgando-nos uns aos outros, caindo na desenfreada competição e na lei do mais forte, gerando inúmeros sofrimentos para nós e ao redor de nós.

Eu creio que a vida é uma espécie de rascunho ou preparação para a vida verdadeira e definitiva: a Vida Eterna. Só a perspectiva e expectativa da eternidade me dá sentido para essa vida e me dá motivação para viver com entusiasmo o bom combate, com suas alegrias e dores, olhando e esperando o desfecho final, que é o eterno abraço e beijo do Pai. Amém.

Dom Sevilha, OCD.