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publicado em: 16/11/2018
Dom Sevilha: “Coração que arde”

Creio que no imaginário da maioria dos povos o coração é o símbolo do amor ou, pelo menos, da interioridade humana. Na Bíblia não é diferente. Nas Sagradas Escrituras encontramos, inúmeras vezes, referências ao coração de Deus, ao coração do homem, ao coração do mundo.

O coração do cristão deseja ser semelhante ao coração de Cristo: manso e humilde (Mt 11,29). A tradicional representação do Coração de Jesus mostra-o cercado por uma coroa de espinhos e encimado por uma chama de fogo. O fogo simboliza a intensidade do amor; já os espinhos, simbolizam a ausência da reciprocidade ao amor ou os sofrimentos na realização concreta do mesmo. O amor nutre-se de sacrifícios, afirmava Santa Teresinha.

O amor de Deus derramado sobre nós é como um fogo que faz arder também o nosso coração. Os discípulos de Emaús sentiram o coração arder com a presença e com as palavras do Ressuscitado.

Sem a presença de Deus acolhida pela fé, o coração vai lentamente tornando-se gelado. Durante a juventude é ainda possível manter certa temperatura elevada através do fogo das paixões, idealismos, apegos e ilusões. Contudo, é questão de tempo, pois logo a interioridade da alma começará a esfriar ao perceber, com a maturidade, a realidade dura batendo à sua porta.

Viver não é fácil. Viver não é para os fracos. O coração frio, fechado em si mesmo, tortura a alma e a afunda no brejo das angústias, das dúvidas intermináveis, da descrença de tudo e de todos. Sem a luz (fogo) do amor de Deus, o ser humano desnorteado termina enveredando para o brejo das almas.

No diário exame de consciência devemos honestamente nos perguntar: O que, de fato, faz meu coração arder? O único fogo verdadeiro realmente capaz de aquecer o coração humano é o amor de Deus, traduzido em boas obras. Resumindo: Quem é bom e faz o bem tem o coração automaticamente aquecido.

Quando falta bondade o nosso coração gela e daí a tentação de buscar aquecê-lo falsamente, nos “prazeres” do mundo. O fogo do mundo assa, torra e destrói o coração ao invés de aquecê-lo.

O Papa Francisco disse que o cristão, quando “caminha desde e com Cristo...” não é uma pessoa que parte das próprias ideias e gostos, mas que se deixa olhar por Ele, por esse olhar que faz o coração arder.

Quanto mais Jesus toma o centro da nossa vida, tanto mais nos faz sair de nós mesmos, nos descentra e nos torna mais próximos dos outros” (5/7/2017).

Ofereço alguns exemplos curiosos desse relacionamento ardoroso entre Deus e a alma. A narrativa poética, que expressa o que esses santos experimentaram, é típico do exagero barroco.

Santa Teresa de Ávila escreveu que, certa vez, lhe apareceu um anjo com uma flecha, em cuja ponta havia fogo, e enfiou-a em seu coração. Ela desmaiou de amor! Esse fato foi a inspiração para a escultura considerada a obra prima de Bernini, chamada Êxtase de Santa Teresa, que se encontra na Igreja “Santa Maria della Vittoria”, em Roma.

Santa Catarina de Sena diz que Jesus lhe apareceu segurando o Seu próprio coração, abriu-lhe o peito e o introduziu dizendo: “Querida filha, como no outro dia eu tomei o teu coração que tu me ofereceste, eis que agora te dou o Meu, e de agora em diante ficará no lugar que ocupava o teu” (Raimundo de Cápua, S. Caterina da Siena, Legenda maior).

Em 1544, na Catacumba de São Sebastião, em Roma, São Felipe Neri sentiu um “ardor de amor” por Jesus tão forte, que o coração se dilatou e chegou a romper duas costelas. Ele colocava panos molhados para aliviar o ardor do coração.

Sagrado Coração de Jesus, fornalha ardente de amor, fazei o nosso coração semelhante ao Vosso. Amém.

Dom Sevilha, OCD.