Notícias
publicado em: 17/08/2018
Dom Sevilha: “Do Caos ao Cosmos”

Diz o livro do Gênesis que Deus organizou o feio caos e criou o bonito cosmos. A palavra grega Kósmos significa: ordem, harmonia, beleza e, curiosamente, está na origem da palavra cosmético.

Adão e Eva bagunçaram o paraíso e até hoje Deus, através de nós e apesar de nós, continua organizando o caos.

Infelizmente, parece que estamos cada vez mais bagunçando a obra de Deus. De fato, o nosso mundo está muito desorganizado, caótico, feio. A humanidade não está sabendo organizar a casa comum.

A lista de coisas fora do lugar é quase infinita: criamos uma minoria feliz rica e uma multidão de pobres sofredores. A economia é mais importante do que a pessoa humana. A falta de harmonia é tamanha que, por exemplo, na economia não se usa a palavra amor. Economia sem amor (isto é, sem solidariedade, generosidade, compaixão...) gera exclusão e escravidão. Simples assim!

Basta olhar ao seu redor para ver uma imensa massa de excluídos e escravos disfarçados de funcionários.

A política é o modo da humanidade se organizar.  Ainda não encontramos o jeito certo de organização por um simples motivo: o ser humano em estado bruto, de modo geral, é egoísta e perverso.

A conclusão é obvia: caso a humanidade não lapide e melhore essa sua maneira de ser (conversão!), ela só pode se organizar de maneira egoísta e perversa. Daqui decorrem todos os já conhecidos males do nosso mundo: exclusão, pobreza, corrupção, opressão, prepotência, ganância.

Se falta amor ao outro ser humano, que é ontologicamente igual a si em natureza e dignidade, o que não fará o homem com o resto do planeta e com os seres e criaturas consideradas “inferiores”?

Num futuro próximo vai faltar água potável para grande parte da humanidade, enquanto outra parte estará muito preocupada com os estúpidos e inúteis caríssimos produtos de luxo.

Qual a solução para tudo isso? Só Deus, literalmente. Quem se abre à fé deixa-se lapidar e reeducar por Deus Pai.

A pedagogia divina que nos reeduca se expressa de inúmeros modos, sobretudo, enviando seu Filho Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, para nos mostrar o caminho certo. Ele nos ensinou com palavras e ações o longo e árduo caminho da construção do Reino de Deus.

Embora, aos olhos humanos, pareça que essa “construção” esteja ainda muito atrasada, na verdade, a construção do Reino está sendo realizada no ritmo de Deus, através de nós e apesar de nós. Deus é o Senhor que conduz a história. Ele é o princípio, o meio e o fim de todas as coisas.

Alguns se desesperam porque o tempo vai passando, a morte vai se aproximando e o mundo não está melhorando. Isto é falta de fé. Quem tem fé continua combatendo o bom combate, confiando e esperando no Senhor.

Quando o homem rejeita a Deus, coloca-se a si mesmo no lugar de Deus e essa mania de grandeza idolátrica potencializa o seu egoísmo e perversidade, levando-o a cometer loucuras, causando muito sofrimento ao seu redor e, no final, ele termina sendo vítima da própria loucura, caindo no fundo do poço existencial.

Deus Pai é tão bom que vai sempre lançar a corda da misericórdia para erguer os caídos, mesmo no fundo do poço. Nós, os cristãos, discípulos missionários de Jesus, também somos convocados para passar nesse mundo fazendo o bem, ou seja, começando por nós mesmos, deixando-nos lapidar e reeducar pelo amor misericordioso do Pai e, consequentemente, lapidar e reeducar o mundo ao nosso redor, sendo cada vez mais misericordiosos, solidários, generosos, justos.

Enfim, obedecendo ao mandamento maior: “Amai-vos uns aos outros”, o ser humano liberta-se do egoísmo e perversidade e, feliz, torna-se instrumento de vida em abundância e felicidade ao seu redor.

De fato, ninguém é feliz sozinho! O cristão diante do mal não se intimida, não se deprime, nem se revolta; ele simplesmente continua fazendo o bem. “Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem” (Rm 12,21). E ainda: “Não nos cansemos de fazer o bem”. (Gl 6,9).

Apesar de todos os males e problemas o homem de fé enxerga a maravilha que é este mundo e sente o delicioso prazer de viver. Ele sabe que o melhor ainda está por vir. Se este mundo maravilhoso, apesar das mazelas, é apenas o aperitivo, como será o banquete que Deus preparou para nós no Céu? Amém.

Dom Sevilha, OCD.