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publicado em: 30/11/2018
Dom Sevilha: “Estelionato Religioso”

A palavra dízimo está sendo entendida como uma estratégia para arrancar dinheiro dos fiéis, como uma chantagem espiritual ou estelionato religioso. Ingenuamente, alguns pensam que podem comprar as graças e os bens de Deus com o “pagamento” do dízimo.

Assim sendo, erroneamente, pensam que quanto maior for o pagamento, maior será a “mercadoria” recebida. A esse “toma lá da cá” deram o nome de teologia da prosperidade, que de teologia não tem nada, pois Deus é um Pai Amoroso com seus filhos, e não um comerciante calculista.

Porém, a principal fundamentação do dízimo encontra-se na Sagrada Escritura. A decisão de contribuir com o dízimo nasce de um coração agradecido por ter encontrado o Deus da vida e experimentado a beleza de sua presença amorosa no dia a dia. Deus é o Senhor de tudo, o proprietário da terra de onde provém o alimento e a fonte de toda bênção (Lv 25,23; Sal 24,1).

O dízimo é oferecido como reconhecimento e gratidão pela dádiva de Deus, que abençoa e acompanha aquele que a Ele se confia.

Não somos donos de nada nesse mundo, tudo pertence ao Senhor: “Todo dízimo do país tirado das sementes da terra e dos frutos das árvores pertence ao Senhor como coisa consagrada” (Lv 27,30).

Nos Evangelhos as menções ao dízimo se referem à prática da religião judaica no tempo de Jesus, que se opõe ao comportamento dos fariseus e escribas, por se preocuparem em dar o dízimo da hortelã, do coentro e do cominho, mas negligenciavam a justiça, a misericórdia e a fé (Mat. 23,23; Lc 11,42). Os discípulos, porém, o “ajudavam com seus bens” (Lc 8,1-3) e tinham uma “bolsa comum” (Jo 13,29).

Nas primeiras comunidades cristãs o que cada um possuía era posto a serviço dos outros. Eram perseverantes em ouvir o ensinamento dos Apóstolos, na comunhão fraterna, na fração do pão e nas orações (cfr. At. 2,44-47). Por livre decisão: “a partilha não era imposta pelos apóstolos, mas expressão natural do amor a Cristo e aos irmãos” (CNBB Doc. 100 n. 84).

O apóstolo Paulo ensina que cada fiel deve dar “como dispôs em seu coração”, pois “Deus ama a quem dá com alegria” (2Cor 9,7). O cristão é chamado a contribuir pela consciência que tem de ser servo de Cristo (1Cor 7,22) e por saber que ele não pertence a si mesmo (1Cor 6,19).

Esse percurso bíblico leva a perceber que a consciência do dízimo parte do reconhecimento a Deus e da gratidão a Ele. Assim, tanto a décima parte – prescrita no Antigo Testamento -, como a partilha dos bens – praticada pela primeira comunidade cristã -, são formas diferentes da mesma atitude que brota da fé.

A atual reflexão dos bispos do Brasil (Documento 106 da CNBB), afirma que o dízimo é uma contribuição sistemática e periódica dos fiéis, por meio da qual cada comunidade assume, corresponsavelmente, a sustentação da Igreja. É um compromisso de fé, pois está relacionado com a experiência de Deus e com o amor fraterno. Exprime a pertença efetiva à Igreja, vivida em uma comunidade concreta; manifesta a amizade que circula entre os membros da comunidade; diferencia-se do cumprimento de uma lei, por provir de uma decisão pessoal, baseada na fé; é compromisso moral e espiritual.

A contribuição do dízimo é sistemática. Isso significa que ela é estável, assumida de modo permanente e mensal. É importante lembrar que a escolha da quantia de dinheiro destinada ao dízimo é decisão de consciência, iluminada pela Palavra de Deus, sensível às necessidades da Igreja e do próximo.

As finalidades do dízimo são organizar o culto divino, prover o sustento do clero e dos demais ministros ordenados, possibilitar a realização de obras de apostolado, de missão e de caridade, principalmente em favor dos pobres.

Quando faltam nos fieis o amor e gratidão a Deus, falta também o amor à sua família espiritual que é a Igreja, chegando ao ponto de ter que vender bebida alcoólica nas festas para poder pagar as contas do Templo.

 

Dom Sevilha, OCD.