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publicado em: 04/02/2019
Dom Sevilha: “Honesto não Praticante”

Alguns anos atrás ouvi uma conferência de um líder religioso muçulmano onde ele dizia que um muçulmano não praticante seria o mesmo que alguém dizer: sou honesto, mas, não praticante. Infelizmente, muitos olham a religião somente como a prática de alguns atos externos rituais. Ser católico é mais do que ir à igreja de vez em quando. Ser cristão é um modo de ser e de agir. Cristo é o modelo do ser e agir do cristão.

Embora para ser bom católico não basta ir à igreja, pior será a situação espiritual daquele que aparece somente nas grandes ocasiões: Natal, Páscoa, batizado, casamento e missa de sétimo dia. Lembro-me de uma senhora super católica, tipo beata, que tinha um temperamento do cão, literalmente. Certa feita, em uma das frequentes discussões familiares, um dos filhos, que pouco ia à igreja, perguntou: “Mãe, a senhora vive na igreja e continua com esse temperamento terrível!” A mãe sabiamente respondeu: “Imagina, então, como eu seria se não vivesse na igreja. Eu seria muito pior!”

Além da clássica desculpa da falta de tempo, muitos se afastam da igreja alegando que lá tem pessoas com muitos defeitos, que são piores do que ela. Lá tem fofoca, inveja, pessoas que gostam de mandar, as donas da igreja, outras que gostam de aparecer. A resposta é: igreja não é lugar de anjo, igreja é lugar de pecador. Foi Jesus quem disse que veio para os pecadores e não para os justos (Cfr. Mt.9, 13). A igreja é o lugar onde nós pecadores vamos aprender com o Divino Mestre Jesus como sermos pessoas melhores. A igreja é uma escola de comunhão, escola de amor. O professor Jesus é ótimo, mas, nós os alunos somos muito complicados. Na liturgia nos encontramos com Jesus, olhamos para Ele, aprendemos com Ele ouvindo a sua Palavra, alimentamos a alma com o Pão do Céu, recebemos a sua bênção e, como brinde, nos encontramos com nossos irmãos de fé.

Em uma homilia eu disse que uma das formas de alimentar a fé, entre muitas outras, é frequentar a igreja. Quem não alimenta sua fé, ficará com anemia espiritual. Os sintomas da anemia espiritual são: desânimo, tristeza, ansiedade, angustia, nervosismo. Para o anêmico espiritual a vida se torna um fardo, a família um peso e o trabalho uma escravidão.

Após a homilia, uma jovem me procurou na sacristia e disse cheia de convicção: “padre, eu acho que a gente deve vir à igreja somente quando tiver vontade, se o coração não pedir, é melhor nem vir”. Pensei em responder ironicamente: “amanhã, segunda-feira, se o seu coração pedir para ficar na cama, não se levante para trabalhar. O seu patrão poderá seguir o próprio coração e lhe mandar embora do trabalho. Também consulte o seu coração se deseja pagar ou não as contas que vencem nessa semana”. Enfim, para as coisas humanas e materiais, com vontade ou sem ela, nós temos nossos compromissos e responsabilidades. Entretanto, quando se trata das coisas de Deus, que todos nós afirmamos estar em primeiro lugar, nos deixamos levar pelo descaso preguiçoso e irresponsável. A fé é um dom que nos é dado gratuitamente por Deus, mas, cabe a nós a responsabilidade de acolhê-la e cultivá-la.

Outra desculpa mais moderna é dizer: “Deus sim, religião não. Eu tenho minha fé, mas, não preciso de igreja, pois a religião é uma coisa humana criada pela sociedade ao longo da história da civilização. Eu rezo sozinho em casa que é a mesma coisa”. Resposta: Fé e religião só existem e sobrevivem juntas. A religião sem a fé, deixa de ser religião e torna-se uma perigosa empresa ou ONG. A fé sem a religião torna-se uma imaginação inútil ou alienante, na cabeça da pessoa. Enfim, a fé é recebida e cultivada no fértil terreno comunitário da religião ou ela é criada e cultivada no infértil terreno solitário e pantanoso do ego narcisista. Fatalmente essa fé vai pro brejo.

Eu, pessoalmente, prefiro a fé que me é oferecida, que venha de fora de mim mesmo. Acho saudável alguém não confiar demais em si mesmo. Creio, Senhor, mas aumentai a minha fé. Amém.

Dom Sevilha, OCD.