Palavra do Bispo
Dom Sevilha: "Ilusão e Ganância"

O que move o mundo é a ilusão e a ganância. O dinheiro é a materialização simbólica e instrumental da ilusão e da ganância. O mundo está organizado em dois grupos: os hipnotizados consumidores que querem comprar e os gananciosos vendedores que querem ganhar. Excluo desse raciocínio as necessidades básicas da existência, embora hoje seja quase impossível saber claramente a distinção entre o supérfluo e o necessário.

Muitas pessoas estão, literalmente, se matando por coisas desnecessárias. A ilusão e a ganância geram a desigualdade social: muitos pobres e alguns poucos ricos. Ambos são prisioneiros da ilusão e da ganância. Mas o sofrimento do pobre é infinitamente maior, pois, além das angústias próprias das ilusões e do desejo de possuir o que não tem, sofre concretamente as dores e as humilhações da pobreza: não tem acesso à moradia de qualidade, à saúde de qualidade, não tem acesso à educação de qualidade e à qualificação profissional.

Não vou citar a falta de acesso à cultura e ao lazer, pois estes são itens considerados artigos de luxo ou “perfumarias” e, portanto, desnecessários para o pobre. Em geral, na periferia das cidades o pobre só tem duas opções pronunciáveis ao sair de casa: vai à Igreja ou ao bar!

Os ricos sofrem menos, embora também eles igualmente sejam vítimas da ilusão e da ganância, mas usufruem das mordomias da riqueza. Os políticos, que geralmente foram pobres, adquirem a psicologia dos ricos, assim como, infelizmente, alguns clérigos e líderes religiosos.

Os remédios que curam as doenças da ilusão e da ganância são a simplicidade, a generosidade, a humildade que mata o carreirismo, o desapego das coisas materiais, a solidariedade e compaixão pelos que sofrem, a misericórdia para com o caído.

Jesus afirmou claramente: "Ninguém pode servir a dois senhores; pois odiará um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6,24). O dinheiro tem o poder de escravizar aqueles que se deixam levar pela ambição, avareza e desejos loucos de poder. O dinheiro é um instrumento criado pelo homem para facilitar a vida prática, mas, infelizmente, ele pode tornar-se um ídolo que destrói a vida daqueles que o idolatram.

Todos conhecemos os estragos que a idolatria do dinheiro faz, não somente na vida dos indivíduos, mas, sobretudo, em escala global. A maior parte do sofrimento humano é consequência da ganância pelo dinheiro, por exemplo, a terrível desigualdade entre ricos e pobres, geração de guerras e violências, destruição da natureza, o trabalho como escravidão disfarçada, etc. Sabiamente a Palavra de Deus já nos adverte que “o amor ao dinheiro é raiz de todos os males”.

Algumas pessoas, por cobiçarem o dinheiro, desviaram-se da fé e se torturaram com muitos sofrimentos” (1Timóteo 6,10). É urgente que os cristãos decidam, verdadeiramente, seguir e imitar Jesus, optando por uma vida mais simples e despojada. Eliminando da própria vida as coisas supérfluas e desnecessárias: luxo, ostentação, desperdício de comida e roupa, etc.

Cuidado para não confundir a pessoa simples e desprendida com a avarenta neurótica que vive como um maltrapilho, mas, acumula uma fortuna pensando que o dinheiro lhe dará segurança. Nossa segurança e nosso futuro pertencem a Deus!

É para a liberdade que Cristo nos libertou (Gal 5,1) e o homem livre tem a alma feliz.

 

Dom Sevilha, OCD.

Bispo da Diocese de Bauru