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publicado em: 03/11/2018
Dom Sevilha: “O barro de Deus”

Artigo publicado no Jornal da Cidade de Bauru - 04/11/2018
Dom Sevilha, OCD.

Há momentos em que nos sentimos terra dura, como barro queimado no forno do sofrimento; outras vezes, como terra quebrada em mil pedaços e cacos de nós mesmos, espalhados ao léu. Em outros momentos somos como areia esparramada pelo vento das circunstâncias e não sabemos quem somos, onde estamos e nem para onde o vento vai nos levar.

É nesse barro onde Deus sopra o seu sopro divino que faz de nós, maravilhosa e milagrosamente, não mais simplesmente terra, mas imagem e semelhança d’Ele. Literalmente, todo ser humano é terra santa.

De fato, somos essa misteriosa mistura de céu e terra. O Espírito de Deus habita o centro mais profundo da alma humana. Infelizmente, hoje, olhamos mais para a porção de terra que temos em nós e nos outros, do que a presença e ação de Deus que preenche o universo.

Com facilidade julgamos pela aparência. Toda pessoa não é somente o resultado do feixe de qualidades ou defeitos físicos, intelectuais e morais que possui. Todo esse feixe de coisas e circunstâncias ainda é casca. Temos uma camada profunda de nós mesmos que é infinita e inatingível, mas, tremendamente fundante e presente na nossa existência. É uma espécie de alicerce, ou raízes profundas de nós mesmos. Hoje em dia, muitos têm dificuldade em acreditar que nós somos também espírito.

Quando deixamos Deus agir em nós, desarmando o nosso orgulho defensivo, o amor de Deus purifica, eleva e potencializa o nosso ser. As fraquezas são absorvidas pelas virtudes, sobretudo, a virtude mor: o amor.

A pessoa assim transformada pela graça do amor de Deus, em um longo, natural e doloroso processo, recebe o título de “santo”. Hoje celebramos a festa de todos os santos canonizados, isto é, todos os cristãos falecidos que tiveram uma vida exemplar e foram “heroicos” na vivência da fé e foram, portanto, oficialmente declarados santos pela Igreja.

Há outros inúmeros santos no céu que não foram oficialmente canonizados. Há aqueles que o povo, por conta própria, declarou santos, sem o aval oficial da Igreja.

Além disso, há os santos vivos, que são aquelas pessoas normais e simples que, cheias de extraordinária bondade e sabedoria, fazem a diferença positiva em qualquer ambiente onde estão.

Ser santo é ser normal! É muito difícil ser normal. É considerado santo aquele que chegou ao topo da sua humanidade, a excelência do humano. Assim sendo, sem a graça do amor de Deus, isto é, sem a santidade, o homem se desumaniza. Aliás, a crescente desumanização na cultura atual está alimentando a lei da selva, a lei do mais forte onde, literalmente, o homem é lobo do homem (homo homini lupus).

A fé eleva nossa humanidade para a dignidade para a qual ela foi criada: filhos do mesmo Pai misericordioso, imagem e semelhança de Deus, que é amor.

Se não puder ser santo, seja pelo menos uma pessoa educada, pois como dizia São Francisco de Sales: a boa educação já é meia santidade.

A fragilidade do nosso barro pode nos espantar a nós mesmos, mas não ao Pai misericordioso. A poesia orante de Dom José Tolentino Mendonça consola-nos, mostrando Deus carinhosamente nos falando assim: Ama-me como tu és, a cada instante e na posição em que te encontras, no fervor ou na secura, na fidelidade ou na infidelidade. Se primeiro tu esperas tornar-te perfeito para só, então, começares a me amar, não me amarás nunca! Eu só não te permito uma coisa, que não me ames. Ama-me, tal como és. Eu quero o teu coração esfarrapado, o teu olhar indigente, as tuas mãos vazias e pobres. Eu te amo até o fundo da tua fraqueza. Eu amo o Amor dos pobres. Eu quero ver crescer, no fundo da tua miséria, o Amor e só o Amor. Se para me amar tu esperas primeiro ser perfeito, nunca me amarás. Ama-me como és!