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publicado em: 12/01/2019
Dom Sevilha: “O Copo e o Dedal”

Desde sempre nos perguntamos sobre o sentido da vida; todavia, devemos também nos perguntar, de vez em quando, “que sentido tem a vida que levo? ”. Alguns acham que levam uma vida inútil, outros pensam que ainda vão conseguir alcançar alguma coisa grandiosa, outros ligaram o “piloto automático” e levam a vida anestesiados, muitos preferem “deixar a vida me levar...”

Deus não nos pede muitas coisas ou grandes coisas, unicamente nos pede tudo. Tudo não significa algo grande, pois na nossa pequenez só podemos dar o nosso “pequeno” tudo. O tudo não significa muitas coisas, pois na nossa pobreza humana (vide a viúva do Evangelho em Mc 12,42) o nosso tudo poderá ser poucas coisas, aliás, poderá até não haver nada para oferecer; então, nos apresentaremos diante de Deus como o fez Santa Teresinha: com as mãos vazias.

O que atrapalha a caminhada é a megalomania (mania de grandeza) que habita nossa alma e nos torna insatisfeitos ou revoltados ou deprimidos diante da nossa realidade pequena e frágil. Queremos inconscientemente grandes coisas, queremos muitas coisas, queremos “ser como deuses” (Gn 3,5) e daqui nascem os inúmeros sofrimentos causados pelas frustrações, invejas, disputas, etc.

Curiosamente olhamos o sofrimento como se fosse algo estranho e não natural, como se a dor fosse uma exceção e não uma regra da nossa frágil e limitada natureza humana.

 “Para ser grande, sê inteiro”, dizia Fernando Pessoa. S. Teresinha ao observar a grande diferença no modo de ser entre as suas irmãs na clausura das carmelitas, e ao perceber-se pequena e imperfeita diante das qualidades de algumas irmãs, e vice-versa, concluiu que o essencial era ser inteira usando uma comparação tirada do seu pequeno mundo doméstico. Um copo grande, um copo médio ou um pequeno dedal cheio de água, todos eles estão plenos, cheios. O copo grande com água pela metade não tem a plenitude do dedal transbordante. Por isso há pessoas ricas em qualidades que vivem insatisfeitas, enquanto há outras com poucas qualidades que vivem e morrem felizes da vida!

É preciso florescer onde Deus lhe plantar. Na linguagem espiritual chamamos a isso de “obediência”, que tem sua origem no verbo latino “escutar”. Deus fala, eu escuto e executo a ordem recebida. Deus nos fala através dos acontecimentos normais da nossa vida. Nada acontece por acaso, tudo tem um porquê de Deus. Estamos todos incluídos no grande e misterioso projeto de Deus. Ele conduz a história universal e pessoal.

A virtude da obediência a Deus exige de nós fé, humildade e confiança. É um entregar-se totalmente nas mãos do Pai, abandonar-se e deixar-se conduzir por Ele. Infelizmente, nossa fé é fraca e por isso queremos sozinhos planejar e conduzir a nossa realidade do nosso jeito, deixando Deus de lado, ou somente recorrendo a Ele na hora do fracasso e do desespero. Reduzimos Deus a nosso “super-secretário-executivo”, ou seja, na nossa ilusão, imaginamos que nós vamos à frente decidindo e Deus vem atrás executando.

É preciso vários fracassos e sofrimentos para invertermos a falsa relação e colocarmos Deus à frente conduzindo e nós atrás, humildes, sendo carregados amorosamente por Ele. Enquanto o lema do Brasão do Estado de São Paulo é Non ducor duco, na vida espiritual é exatamente o oposto: sou conduzido, não conduzo.

Dom Sevilha, OCD
Bispo Diocesano de Bauru