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publicado em: 09/07/2018
Dom Sevilha: “O Mestre e o Escorpião”

“Era uma vez, um sábio mestre que viu um escorpião se afogando e decidiu retirá-lo da água, mas, ao estender o braço o escorpião picou-lhe a mão. O mestre reagiu bruscamente diante da dor e o animal caiu de novo na água. O mestre tentou tirá-lo novamente, e novamente o escorpião o picou.

O discípulo, que estava observando, disse: “Desculpe-me mestre, mas, não percebe que toda vez, ao tentar tirá-lo da água, ele irá picá-lo”? O sábio mestre respondeu: A natureza do escorpião é picar; e isto não vai mudar a minha natureza, que é ajudar!”.

Este singelo relato ajuda-nos a refletir sobre a autêntica natureza do cristão. A nossa natureza é de origem divina, pois fomos feitos à imagem e semelhança de Deus, somos templos do Espírito Santo e, portanto, fomos criados para amar e ser amados.

Contudo, a desobediência e rebeldia ao Pai Amoroso levaram o ser humano a desumanizar-se e a não viver segundo a sua natureza amorosa.

O filho que se afasta do Pai acaba no meio dos porcos, como narrou Jesus. Aquele que volta para junto do Pai, sua vida acaba em festa: novilho gordo, música, dança, anel no dedo, sapato novo...

Na Igreja católica, quando o ser humano alcança o topo da sua humanidade, recebe o título de santo. Não ser santo é não ser plenamente humano, é desumanizar-se. Ser santo é ser normal e, depois da queda do pecado original, sabemos como é difícil ser normal.

S. Francisco de Sales teria afirmado que “a boa educação já é meia santidade” e S. Teresa de Ávila escreveu que quanto mais santos, melhores de conversa com as pessoas! (“mientras más santas, más conversables con sus Hermanas”. Cam 41,7).

A palavra amor está encharcada de significados, por isso, ela pode significar tudo e pode significar nada. Uma das melhores palavras que traduz e enxuga o termo amor é bondade.

A verdadeira bondade é gratuita, não espera retribuição alguma, a não ser somente o bem do outro. Não é fácil ser bom, isto é, querer o bem e fazer o bem possível pelas pessoas. Mais difícil ainda quando algumas pessoas não “merecem” a nossa bondade e, por puro amor e obediência a Jesus, continuamos fazendo o bem. Fazer o bem nem sempre é doce, pelo contrário, às vezes é bem sofrido no momento, mas, o resultado final será uma alegria e paz interiores que não têm preço.

De zero a dez, que nota você dá si mesmo em relação à bondade? Você é bom? Seu coração é bom? Seus pensamentos e suas palavras são bons? Há bondade em você na sua vida profissional, nos negócios, no trânsito, na internet...?

Quem se aproxima de Deus, que é o sumo Bem, torna-se melhor e, consequentemente, mais feliz. Afastando-se de Deus, o ser humano, além de sentir-se abandonado e solitário na vida, vai ter muita dificuldade para ser bom.

Sem alimentar a fé com a intimidade com Deus, a alma fica com “anemia espiritual”, e a baixa imunidade espiritual permite que as doenças dos vícios, males e pecados invadam a pobre alma.

Deus tem remédio para curar e fortalecer a alma. Basta ir ao encontro do Divino Médico e deixar-se cuidar e curar por Ele. E tomar o remédio, mesmo amargo, que Ele receitar, e fazer a ginástica diária da prática das virtudes (paciência, autodomínio, bondade...!), e ainda, seguir a dieta prescrita: renunciar (jejuar) tudo aquilo (apegos!) que está tornando a alma obesa. Jesus disse que a porta do céu é estreita, portanto, só os “magrinhos” de alma entrarão.

Enfim, Deus nos criou para sermos bons, mas infelizmente, alguns seres humanos preferem assemelhar-se ao escorpião.

 

Dom Sevilha, OCD

Bispo da Diocese de Bauru