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publicado em: 16/02/2019
Dom Sevilha: "O pessimismo é uma forma de ateísmo"

Artigo publicado em 17 de fevereiro de 2019 no Jornal da Cidade de Bauru. 

O verdadeiro pessimista tem um grave problema de visão mental, pois ele só consegue enxergar o lado ruim das coisas. Para ele o bem está perdendo e o mal vencendo. Ele argumenta a seu favor elencando a enorme ladainha de tragédias e desgraças que nos rodeiam e conclui que tudo está perdido, tudo está errado, que não há solução possível diante da montanha de problemas que vivemos. Enfim, o mal venceu.

A pergunta simples e óbvia que fazemos ao pessimista é: “Deus, onde está?” O pessimista nega a Deus. Para ele Deus ausentou-se da nossa realidade ou Deus “enfraqueceu” e, por isso, o mal está vencendo e Deus perdendo. O pessimismo é uma forma de ateísmo.

O clássico pessimista irá contra argumentar que ele é, na verdade, um “realista”. Todos sabemos como é complexa a percepção e a definição da palavra realidade e como ela não pode ficar submissa somente aos olhos de quem a vê. Você tem o direito de ter um olhar pessimista sobre a realidade, mas é preciso saber que há outros olhares sobre ela e que, portanto, devemos humildemente relativizar o nosso, às vezes, pequeno e estreito entendimento. Não somos donos da verdade.

Cabe aqui a pergunta: Como Deus “olha” a realidade? Nós cristãos nos esforçamos para enxergar a realidade com os olhos de Deus. Por isso estudamos e rezamos a Palavra de Deus para podermos compreender o mundo que nos rodeia com a maior nitidez e profundidade possíveis.

Quem tem a graça de ter recebido o dom da fé sabe que a realidade não é composta somente de dores, mas sim “também” de dores. O cristão vê com clareza e realismo os trágicos absurdos da existência, pequenos e grandes, com os quais tem que conviver diariamente nesse vale de lágrimas. Todavia, a fé, como uma poderosa lente, nos permite enxergar além da nossa pobre e limitada razão humana. A fé não suprime a razão, pelo contrário, a eleva. São João Paulo II afirmou que a fé e a razão são as duas asas da alma. Contudo, essas duas asas, ao contrário dos pássaros, não se movem sempre de maneira simétrica e harmônica, não têm o mesmo formato e não são feitas da mesma matéria. A fé é fabricada no Céu, enquanto que a razão é de fabricação terrena. Além disso, infelizmente, ambas podem ser pirateadas e, de fato, há muita produção de fé e razão falsificadas. A essa verdade falsificada os antigos chamavam de sofisma (enganação) e os modernos de fake News, ou simplesmente: mentira com aparência de verdade.

O resultado concreto do olhar da fé, que vê a realidade iluminada pela luz de Deus, chama-se esperança teologal. O cristão vê e sente na pele as dores e erros humanos, mas entende profundamente que Deus conduz todas as coisas segundo um misterioso projeto de amor, onde até do mal Ele tira o bem e, assim, o crente tem a certeza da fé de que tudo irá terminar bem.

Ao dizer que tudo vai terminar bem não significa que tudo irá terminar como eu planejei, mas sim que tudo terminará como Deus planejou. Diante dos erros e dos fracassos o cristão faz, humildemente, uma primeira avaliação dos fatos procurando ver onde foi que errou. Depois de vencer a barreira do próprio orgulho que dificulta a percepção e aceitação dos próprios erros e limitações, a pessoa que tem fé avança e aguça o olhar da alma e, na oração, renova sua confiança no infinito amor misericordioso do Pai Celestial. E continua combatendo o bom combate.

O remédio para a doença do pessimismo é composto de três elementos: fé, esperança e amor verdadeiro. Esse remédio você pode usar retirando-o gratuitamente no aberto Coração de Cristo. Ele tem um efeito colateral: felicidade!

Dom Rubens Sevilha, OCD.