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publicado em: 13/10/2018
Dom Sevilha: “O Sal da Terra”

Artigo publicado no Jornal da Cidade de Bauru - 14/10/2018

A vida sem fé é semelhante a uma comida sem sal. É possível viver comendo somente comida insossa. É possível viver sem fé, tendo uma vida insossa. Aliás, a sociedade atual ao negar Deus, torna o nosso mundo cada vez mais sem gosto.

A economia sem o sal da solidariedade torna-se intragável. A política sem o sal de Deus apodrece; a família sem o sal do amor cristão vira uma prisão; o trabalho sem o sal da fraternidade é escravidão; a educação sem o sal divino é manipulação; a liberdade sem o sal do Evangelho torna-se loucura; a religião sem o sal da fé torna-se um teatro mambembe; a velhice e a morte sem o sal da fé tornam-se desespero.

Nada substitui o sal. Nossa cultura atual procura freneticamente algo que possa dar algum sabor à existência sem Deus. A procura desenfreada do prazer, entretenimento, consumismo, carreirismo, o desejo neurótico de ser importante, de ser amado, de ser rico. Tudo isso não consegue “salgar” a existência, pelo contrário, torna-a mais frustrante.

Nesse mundo insosso, sem o sal de Deus, o ser humano cai na depressão, na tristeza profunda, no tédio, ou no disfarce e fuga de tudo isso, através de uma vida tremendamente agitada e confusa.

Talvez, aqui esteja a causa do aumento do número de suicídio, de fato, e também do suicídio disfarçado em overdose de drogas, alcoolismo, gula, descuido proposital da saúde já precária, excesso de velocidade no trânsito e outras inúmeras situações de risco.

O Papa Francisco tem repetido constantemente que o cristão é naturalmente alegre. Com o sal da fé a comida, mesmo simples e pobre, torna-se saborosa. A vida com fé em Deus, mesmo sendo simples e pobre, isto é, mesmo no meio das dificuldades e lutas, é saborosa. Mas não é um sabor humano, é um sabor divino.

Parece uma contradição o amargo ser saboreado como doce, ou saborear alegria na alma em meio às aflições e combates. A vida cristã é como “doce de jiló”!

O sal da fé não pode ser fabricado, pois é um dom que Deus nos oferece, mas pode e deve ser encontrado. Basta extraí-lo do mar de Deus, através da oração litúrgica e pessoal, da leitura orante da Palavra de Deus, da prática das boas obras de misericórdia.

Além disso, o sal humildemente torna-se invisível dentro do alimento, para dar-lhe sabor.

O sal existe para os outros e não para si mesmo. Muitos querem substituir o sal da fé pelos sais artificiais ilusórios. Alguns querem temperar a própria vida com o sal do dinheiro e, mais cedo ou mais tarde, sentiram a sua existência como algo sem sabor, sem sentido e vazia.

Jesus, certa vez, encontrou um jovem rico e lhe ofereceu outra vida melhor, com mais sentido e sabor, dizendo-lhe: “uma só coisa te falta: vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres, e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me!” (Mc 17,21).

O jovem não conseguiu desapegar-se dos bens materiais e Jesus concluiu: “Meus filhos, como é difícil para os ricos entrar no reino de Deus. É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus” (v. 25).

Infelizmente, depois de dois mil anos de cristianismo, muitos ainda desejam neuroticamente ser ricos. O desejo de ser rico não combina com o cristianismo. Deus quer vida digna para todos e não acumulação inútil e orgulhosa de bens materiais, ostentando luxuosamente a própria vaidade e vangloria.

Tornam-se sepulcros caiados e enfeitados por fora e feios por dentro. Certas pessoas parecem dar mais importância à moldura do que ao retrato. Outras se assemelham a uma comida muito bonita e complicada, mas, sem gosto algum.

Graças a Deus, muitas outras pessoas que conhecemos, temperadas com muita fé e bondade, fazem a nossa vida e o nosso mundo ficarem muito mais saborosos e agradáveis de se viver.

Dom Rubens Sevilha, OCD.