Palavra do Bispo
Dom Sevilha: “Portas abertas”

A Bíblia está repleta de metáforas e de linguagem poética, pois essas são a melhor forma de expressar o inefável, o inexprimível, que constitui o Sagrado.

Apesar da nossa dificuldade de comunicação, Deus comunica-se conosco e nós nos comunicamos com Deus. Embora, às vezes, parece que falamos línguas diferentes em que Deus fala uma coisa e nós entendemos outra.

Fruto dessa surdez espiritual são, ao longo da história passada e presente, as atrocidades cometidas em nome de Deus. Chegamos ao absurdo de, em pleno século 21, haver ainda conflitos religiosos onde se mata em nome de deus (aqui escrevo em minúsculo por não se tratar do nome do verdadeiro Deus, mas de um ídolo criado pelo homem, ou seja, um deus criado por nós à nossa imagem e semelhança!).

O próprio Jesus declarou-se poeticamente como sendo a porta e o caminho para Deus. De fato, não há outro caminho ou porta que nos levem ao Pai, senão Jesus: “Eu sou a porta. Quem entra por mim, será salvo” (Jo 10,9).

Mas, Deus que é Pai cheio de misericórdia e bondade, além da porta oficial, deixa abertas inúmeras outras portas, portinholas, janelas e frestas por onde convida e permite que seus filhos e filhas entrem, para morar com Ele.

Já que existem muitas moradas na casa do Pai (Jo 14, 2), existem também muitas entradas e, portanto, tem lugar para todo mundo. Só ficará de fora quem não quiser entrar. Infelizmente, muitos não querem entrar para ficar mais próximo do Pai e, então, ficam sozinhos e abandonados no próprio orgulho e egoísmo. Acabam comendo a comida dos porcos, como o filho pródigo do Evangelho, que se afastou dos braços do Pai.

Um dos desafios atuais, segundo o Papa Francisco, é termos uma Igreja de “portas abertas”, onde todas as pessoas possam entrar, independentemente da situação ou circunstância em que vivem. Infelizmente, muitas pessoas são sutilmente excluídas do convívio eclesial, embora o discurso bonito as convide para participar da Igreja.

O filho pode decidir se afastar do Pai, mas este jamais irá abandonar ou se afastar dos seus filhos e filhas. Pelo contrário, o Pai do filho pródigo estava sempre de porta aberta, olhando de longe, esperando o filho voltar. O filho sempre volta e tudo vai terminar em festa.

Ao longo da vida muitos se afastam de Deus, mas Deus jamais se afasta de nenhum dos seus filhos; muito viram as costas para o Pai, mas Deus jamais vira as costas para nenhum dos seus filhos e filhas; muitos podem até não acreditar em Deus, mas Ele continua amando cada um dos seus filhos. Tenhamos fé ou não, Deus continua sendo exatamente aquilo que Ele é: Deus.  

A nossa falta de fé não diminui aquilo que Deus é. Na realidade, a falta de fé diminui a nós mesmos. O ser humano sem fé torna-se um homem pela metade. É gritante nos nossos dias a “desumanização” da nossa sociedade devido à falta de fé. Aliás, para a Igreja Católica, quando um ser humano chega ao topo da sua humanidade e atinge a excelência do seu ser, ele recebe o bonito título de “santo”. Portanto, ser santo é ser um ser humano “normal”, isto é, um ser humano pleno como Deus o criou, sua imagem e semelhança, templo do Espírito Santo.

A religião é a comida da alma. Se alguém se alimenta de comida não saudável ou estragada (religião deteriorada), a alma ficará doente. Se comer demais, isto é, “religiosidade” em excesso (fanatismo) a alma ficará tonta e abestalhada. Se comer de menos, ou seja, pouquíssima religiosidade, a alma ficará com anemia espiritual. Sintomas da anemia espiritual são: desânimo, tédio, mau humor contínuo, ansiedade e nervosismo frequente, pessimismo crônico.

Jesus afirmou: Eu sou o Pão vivo que desceu do céu. Quem come deste pão, viverá para sempre. E o pão que eu vos der é a minha própria carne, para que o mundo tenha a vida (Jo 6,51).

Viver sem fé é semelhante a comer comida sem sal. Meu irmão e minha irmã, sem fé a sua existência fica sem gosto e você vai se tornando uma pessoa intragável. Bote sal. Bote fé!

 

Dom Rubens Sevilha, OCD

Bispo Diocesano