Palavra do Bispo
Dom Sevilha: “Sinistrose”

Artigo a ser publicado no Jornal da Cidade de Bauru - 09/06/2018

 

Por acaso encontrei no dicionário mais uma palavra que eu não conhecia: Sinistrose. Aliás, creio que seja uma palavra muito pouco usada, pois até meu computador a desconhece, pois a sublinhou com vermelho assim que a escrevi. Se a palavra sinistrose é pouco conhecida, por outro lado, é muitíssimo usado o que ela significa.

No dicionário Houaiss o vocábulo sinistrose significa: “tendência a alardear a iminência de colapsos e perigos terríveis, individuais ou sociais, a vaticinar desastres, ruínas, grandes perdas materiais, catástrofes em empreendimentos, planos econômicos, projetos políticos”.

Os pessimistas de carteirinha, que sofrem profundamente dessa tendência catastrófica são chamados, nos ambientes eclesiásticos, de “profetas da desgraça”. Creio que atualmente há uma epidemia de sinistrose, altamente contagiosa. Os sinistrosistas, ou seja, os pessimistas se justificam: "Não sou pessimista, sou realista!" Há aqui uma ponta de orgulho, pois o pessimista faz um recorte da realidade, ele faz uma leitura e interpretação pessoal daquilo que ele enxerga como realidade e, soberbamente, decreta sua visão como a totalidade da realidade.

Do ponto de vista racional o pessimismo inveterado não tem consistência, pois somente uma visão totalitária megalomaníaca faz enxergar a realidade com se ela fosse uma pedra monolítica. Do ponto de vista espiritual o pessimista peca ao negar a ação e presença amorosa e toda poderosa de Deus. O questionamento que fazemos ao "cristão" pessimista é o seguinte: Se para você tudo está mal, nada presta e tudo vai terminar na desgraça e na ruina, pergunto-lhe: onde você coloca Deus nessa história, onde entra Deus?

O pessimista não tem fé profunda. Pessimismo não combina com cristianismo. Quanto mais pessimista é alguém, menos fé ele tem. O pessimismo é uma forma de ateísmo. O pessimista nega o agir de Deus no mundo e na história. Para o pessimista o mal está vencendo e, portanto, Deus está perdendo, Deus está enfraquecido ou se ausentou.

Nós, cristãos, cremos e repetimos todos os domingos na missa: Creio em Deus Pai Todo-Poderoso. Cremos que a força de Deus vence sempre. Cremos que a força da ressurreição de Cristo, ou seja, que a vida venceu o mal e a morte, e que a força de Jesus Ressuscitado continua agindo e transformando o mundo, a história e o coração de cada um de nós. O bem sempre vencerá o mal, pois o bem tem a marca de Deus. O mal pode até fazer mais barulho, estardalhaço, mais propaganda, mas, jamais terá a força misteriosa e sobrenatural do bem. Onde há amor, Deus aí está! (Ubi Caritas, ibi Deus!). Quem poderá derrotar Deus?

Queridos irmãos e irmãs, reeduquemos o nosso olhar, tão mal-acostumado a só enxergar desgraça e treinemos nosso olhar para ver a infinidade de coisas boas que nos rodeiam. Somos presenteados diariamente com inúmeras coisas boas, mas, o nosso orgulho e nossa mania de grandeza não nos permitem enxergar a beleza e bondade nas coisas simples e pequenas da vida.

Diz um ditado: O ótimo é inimigo do bom! O orgulho leva muitos a rejeitar a vida que têm, por ela não ser do jeito que eles sonharam ou planejaram. Como crianças pirracentas quando contrariadas, eles dizem para a própria existência: Não brinco mais! Desistem da vida caindo no desânimo, na depressão, na apatia.

O cristão crê que Deus tem um projeto amoroso e misterioso acima e dentro do nosso pequeno projeto humano. O cristão sempre dirá, em todas as circunstâncias, na alegria ou na tristeza, no sucesso ou no fracasso: "Seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu!". Amém.

Dom Sevilha, ocd

Bispo da Diocese de Bauru