Palavra do Bispo
“Escutem o meu Filho amado”

Jesus havia perguntado aos discípulos quem era Ele, Jesus. Pedro, respondendo por eles, disse: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. Como sabemos, a confissão de Pedro mereceu um elogio de Jesus e o primado dentre eles. Mas era sabido que Pedro tanto quanto os demais discípulos não compreendiam ainda o que significava a verdadeira missão do Messias prometido. As ideias que tinham não eram diferentes das do povo judeu que esperava de geração em geração a vinda de um Messias rei poderoso que pela força implantaria a sonhada libertação e salvação de Israel, um reino de concepção político-zelótica, ou seja, baseado no poder político-militar, econômico e social. Esperava-se, portanto, a figura de um Messias como rei terrestre e nacionalista, poderoso política, econômica e religiosamente (eram de teor político, econômico e religioso as tentações de Jesus pelo diabo lidas no domingo passado). Aconteceu, porém, que Jesus começou a dizer para que mudassem de ideia, porque a Missão do verdadeiro Messias é bem outra. As Escrituras o dizem, basta entendê-las, por exemplo, como o que diz Isaías sobre a missão do Messias que deve ser identificada com a do Servo de Deus Sofredor. Jesus dizia claramente sobre Ele mesmo e sua missão: “Devo subir a Jerusalém, onde serei aprisionado e condenado e passar pela paixão, morte e ressurreição. Por isso, pedia aos discípulos que mudassem de mentalidade. Contudo, sabemos também como Pedro reagiu, dizendo: “Deus não o permita, Senhor! Isto jamais te acontecerá!” Pelo que recebeu uma tremenda reprimenda de Jesus: “Afasta-te de mim, satanás. Tu me serves de pedra de tropeço, porque não pensas as coisas de Deus, mas as dos homens!”

Com efeito, no trecho evangélico da Missa de hoje, segundo domingo da Quaresma, a Liturgia nos traz para nossa meditação o relato da “Transfiguração do Senhor” - Mt 17,1-9. A fim de levantar o ânimo dos discípulos que andavam macambúzios, porque ainda lhes custava muito ter de aceitar a ideia de um Cristo sofredor, “Jesus, seis dias depois, tomou Pedro, Tiago e João e os levou para um lugar à parte sobre uma alta montanha. E ali foi transfigurado diante deles. Seu rosto resplandeceu como o sol e as suas vestes tornaram-se alvas como a luz”. Nesse instante apareceram, ladeando Jesus e conversando com Ele, personagens dos mais importantes do Antigo Testamento, ninguém menos do que o maior legislador, Moisés, e o maior profeta, Elias. Uma nuvem luminosa desceu do céu e os cobriu com sua sombra, e da nuvem saiu uma voz, a voz do Pai, que dizia: “Este é o meu Filho amado, no qual Eu pus todo meu agrado. Escutai-O!” Tudo isso causou tamanho impacto nos três apóstolos que queriam levantar três tendas para Jesus, Moisés e Elias, tão grande a alegria, mas em seguida, sob forte emoção, cairam com o rosto por terra. Jesus tocou neles e pediu que levantassem sem ter medo. Quando tudo isso se passou e eles desciam da montanha, Jesus pediu aos apóstolos que não contassem a ninguém aquela visão até o dia da sua ressurreição. Pode-se concluir que Jesus quis convencer os seus três importantes apóstolos de que se a imagem do Servo Sofredor é a que melhor serve ao Messias, conforme as profecias, no entanto, também segundo elas, o fim da jornada de seu sofrimento com a sua morte de cruz se dará conforme a vontade do Pai e, por isso mesmo, não com fracasso e morte, mas com a sua vitoriosa ressurreição e glorificação como vencedor do pecado e redentor da humanidade. A transfiguração que os apóstolos experimentaram foi uma demonstração, ainda que momentânea, desta sua glória que acontecerá plenamente e em definitivo depois da sua ressurreição. No momento, conviria que guardassem essa experiência para contá-la depois da ressurreição acontecida.

Uma das mensagens para os apóstolos e para nós, que fica deste Evangelho da Transfiguração, é que ninguém poderá subir à montanha da glória sem antes trilhar na planície pelos caminhos empoeirados da via sacra da vida cotidiana. Outra lição é que toda obra de evangelização e promoção do Reino de Deus e sua justiça não se realizará pela força, mas pela via do serviço, da doação, da misericórdia, do amor. Pedro estava certo quando confessou que Jesus é o Filho de Deus, embora O imaginasse como um Rei Messias triunfalista. A confissão do Pai por sua voz saída do meio da nuvem dizendo que de fato “Este é o meu Filho amado” confirmou Pedro no que confessou sobre Jesus. Mas, Jesus modificou o título de triunfalista para de Servo de Deus Sofredor, pois, como explicou, a sua verdadeira missão, segundo a vontade do Pai, é de realizar a obra da salvação e redenção de homens e mulheres pela cruz. A transfiguração, por conseguinte, revelou que Jesus é o Filho no qual o Pai se compraz, que, não obstante assumir a figura humana do Servo de Deus Sofredor, é maior e mais importante do que Moisés e Elias, que deve ser escutado por todos por pedido bem explícito feito pelo Pai. Os Evangelhos repetem que só Jesus tem palavras de vida eterna a oferecer e que só Ele dá a verdadeira vida, plena e feliz. Portanto, a Palavra de Jesus é certa, o seu ensinamento é correto, o seu caminho é o que Ele mesmo trilhou e propõe a seus seguidores.  À glória da ressurreição se chega seguindo e imitando o Senhor. Os caminhos de Jesus são caminhos de Páscoa. Para nós é absolutamente importante escutar e seguir Jesus, buscando, sobretudo nesta Quaresma, transfigurar a nossa vida no Cristo transfigurado pela prática mais intensa da “oração, penitência e caridade”.