Reportagens Diocesanas
publicado em: 25/05/2019
FAKE NEWS POR DOM RUBENS SEVILHA, OCD

As notícias falsas existem desde o começo do mundo. A primeira fofoqueira da história foi a serpente linguaruda que, no jardim do Éden, enganou Adão e Eva com sua mentira. Como toda fofoqueira profissional, a cobrinha maldosa insinuou que era Deus quem estava mentindo. Ela estava somente esclarecendo os fatos para Adão e Eva e, como “amiga,” queria apenas alertá-los para que abrissem os olhos, pois as coisas não eram bem como Deus havia dito etc.

O mal da mentira provocou outro mal, o da desobediência, que provocou a expulsão do Paraíso e, enfim, provocou a sucessão de males que continua até hoje como consequência daquele primeiro erro que está na origem de todos os outros ao longo da história. Por isso é denominado pecado original, isto é, pecado da origem da humanidade.

Não se comete o pecado da mentira somente com palavras. Podemos mentir com as ações ou até mesmo produzindo objetos falsos ou criando situações falsas. Na Bíblia encontramos, inúmeras vezes, do Gênesis ao Apocalipse, o pecado da mentira. A mentira, por exemplo, foi o instrumento usado para condenar, torturar e matar Nosso Senhor Jesus Cristo. O beijo de Judas foi um beijo mentiroso. São Pedro mentiu descaradamente dizendo para a criada que não conhecia Jesus.

Após a ressurreição temos uma fake news clássica. As autoridades judaico-romanas pagando propina aos soldados, criaram e espalharam a falsa notícia de que o corpo de Jesus havia sido roubado pelos discípulos e inventaram que Ele ressuscitou.

Aqui está o lado mais perverso da falsidade, pois pretende fazer a verdade virar mentira e a mentira parecer verdade apoiada por muita divulgação e repetição. A mentira exaustivamente repetida tornar-se-ia uma verdade, eis aqui a alma da fake news.

Nós cristãos e todas as pessoas de bem, devemos continuamente nos reeducar e tomar muito cuidado com a nossa maneira de falar. Cuidar para não cair na tentação de divulgar irresponsavelmente notícias ruins, fazendo-as sempre passar pelo filtro da fé.

Não devemos temer demasiadamente a mentira pois, apesar do barulho que faz nos nossos ouvidos e nas nossas emoções, o seu poder é muito fraco. A mentira não conseguirá jamais competir com a verdade e derrotá-la. A verdade vence sempre, pois ela tem a marca de Deus. Santa Teresa de Ávila escreveu que “a verdade padece, mas não perece”. Ela ensinava que não devemos nos defender demais, somente em circunstâncias muito sérias e que causariam grande dano aos demais. No trivial, ela exortava a que nunca nos defendamos e deixemos que Deus nos defenda. Concluía ela que se você fosse acusado por algum erro que você não fez, provavelmente Deus estaria lhe purificando, com aquela humilhação, por algum outro erro que infelizmente  tenha feito. O remédio da humilhação é o mais eficaz para curar a doença do orgulho.

Falar mal dos outros causa prazer no calor da conversa, mas depois deixa tristeza ou vazio. Falar bem dos outros causa alegria antes, durante e depois da fala.

Encerro com um pouco de cultura inútil que é um dado linguístico que revela como gostamos de falar mal dos outros. O dicionário Houaiss traz 76 sinônimos para o verbete mexerico. Ei-los: agulha, alcovitagem, alcoviteirice, alcovitice, angu, angu-de-caroço, anguzada, babado, bacorice, baralha, besouragem, bisbilhoteria, bisbilhotice, boato, candonga, candongagem, candonguice, chocalhice, corrilho, coscuvilhice, detração, difamação, disse-me-disse, disse-mes-disse-mes, disse-não-disse, disse-que-disse, ditinho, dito, dixe-me-dixe-me, dixe-mes, diz-que, diz-que-diz, diz-que-diz-que, enredo, falatório, fofoca, fofocagem, fosquinha, fuá, futrica, futico, fuxico, guerê-guerê, indiscrição, intriga, intrigalhada, inzona, ladrado, lamarão, lambança, maldizer, maledicência, maranha, mexericada, mexeriquice, mexidos, milongas, murmuração, novidade, onzenice, pauzinhos, picolinha, quelelê, quilelê, requeijitos, sangangu, tecedura, tracalhice, tramóia, trança, trancinha, trica, urdimaça, urdimaças, urdimalas, xodó.

Dom Rubens Sevilha, OCD.

Artigo publicado na coluna "Conversando com o Bispo" do Jornal da Cidade de 26 de maio de 2019.