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publicado em: 12/08/2018
Frei Alfredo: "O Pão descido do céu dá vida ao mundo"

Artigo de Frei Alfredo Francisco de Souza, SIA - Missionário Inaciano

A Palavra de Deus neste Décimo Nono Domingo do Tempo Comum nos leva a refletir sobre as revoltas, o cansaço, desânimo e descontentamento humanos. Quem de nós já não se sentiu assim?

É essa experiência humana que faz com que até mesmo o profeta Elias chegue ao ponto de querer abandonar tudo, inclusive a própria vida.

Trata-se de uma atitude estranha nesse homem, porque ele é um dos maiores profetas, um gigante da fé, de quem o livro do Eclesiástico fala nestes termos: “Surgiu o profeta Elias. Suas palavras queimavam como uma tocha ardente. Elias, o profeta, levantou-se em breve como um fogo. Com a palavra do Senhor ele fechou o céu, e dele fez cair fogo por três vezes. Quão glorioso te tornaste, Elias, por teus prodígios! Quem pode gloriar-se de ser como tu? Tu que fizeste sair um morto do seio da morte, e o arrancaste da região dos mortos pela palavra do Senhor; tu que lançaste os reis na ruína, que desfizeste sem dificuldade o seu poder, que fizeste cair de seu leito homens gloriosos. Tu que ouviste no Sinai o julgamento do Senhor, e no monte Horeb os decretos de sua vingança. Tu que sagraste reis para a penitência, e estabeleceste profetas para te sucederem. Tu que foste arrebatado num tubilhão de fogo, num carro puxado por cavalos ardentes. Tu que foste escolhido pelos decretos dos tempos para amenizar a cólera do Senhor, reconciliar os corações dos pais com os filhos, e restabelecer as tribos de Jacó. Bem-aventurados os que te conheceram, e foram honrados com a tua amizade”!(Eclo 48,1-11).

Este é Elias e essa é a hernaça que ele deixa. Até mesmo um homem como Elias chega ao ponto em que não suporta mais e cai deprimido, sob a perseguição contínua e cheia de ódio da rainha Jezabel.

É nesse contexto que ele foge e diz ao Senhor: “Agora chega, tira a minha vida, Senhor”! A resposta de Deus é “Levanta-te e come”! O mais importante é que, mesmo nessa situação, Elias reza e se volta ao Senhor. Procura pelo Senhor e não pelo consolo humano.

A sua fé firme o leva a ver a presença de Deus nos eventos dos quais é espectador e vítima, como também o leva a manter aberto um diálogo, ainda que seja um diálogo dramático: “Tira a minha vida, Senhor”! Elias quer a morte! Prefere, antes, morrer pela mão de Deus do que pelas mãos dos homens. Ou melhor, prefere decidir ele mesmo pela própria morte, do que permitir que Jezabel tenha a última palavra sobre a sua vida.

Tendo feito esse pedido a Deus, o profeta “cai no sono”, como Jonas no navio durante a tempestade (Jn 1,5b), como os apóstolos no Getsemane (Mt 26,40). Como alguém que já não aguenta mais e cai em depressão.

Assim, Elias larga as “armas” e se rende, esperando antecipar, com o seu sono, a morte que acaba de pedir.

Deus, por Sua vez, atento à sua oração, porque foi feita, ainda que naquele contexto, com muita fé, se aproxima dele. Faz-lhe uma visita através de um anjo. O Deus da vida o visita não para tirar-lhe a vida, mas para dar-lhe mais vida ainda. Com a Sua visita lhe dá tudo o que é necessário para caminhar para o futuro.

Mas não consegue convencê-lo, e ele ainda deseja a morte. Está, de fato, deprimido e cansado! Não é isso que acontece quando o sofrimento parece não ter fim? Não é assim que ocorre quando as perseguições e as tribulações nos oprimem? Na verdade, é isso que acontece quando também somos teimosos e duros de coração, impedindo que Deus nos convença da Sua verdade!

Mesmo assim, Deus age despertando-o do seu sono, para recolocá-lo em marcha. O que Deus lhe dá é um pão assado e um jarro d’agua para quarenta dias e quarenta noites de caminhada. Na verdade é pouca coisa diante de uma viagem tão longa. E, no entanto, isso basta, porque juntamente com o pão e com a água Deus dá as consolações da Sua presença, a força de um novo chamado que leva Elias direto para o alto do monte Horeb, para as fontes da sua fé. Portanato, mesmo de retomar a sua caminhada o profeta Elias percorre um caminho que vai da revolta e do desânimo à fé.

Olhemos agora para os judeus envolvidos na cena evangélica de hoje (Jo 6,41-51). Eles também estão descontentes e perplexos diante de um Deus que não compreendem. Porém, diferente de Elias, trata-se de gente sem fé! Incrédulos a murmurar: “Não é este Jesus, o filho de José? Não conhecemos seu pai e sua mãe? Como, então, pode dizer que desceu do Céu”? Isto só porque Jesus tinha tentado dizer: “Eu sou o pão que desceu do céu”! Portanto, uma coisa bonita e consoladora: “Eu vos dou um pão diferente. Um pão que não nutre a vida do corpo, mas da alma, e que vos fará viver para sempre... e este pão sou eu, este pão é a minha carne”.

Um discurso cheio de vida, e de vida eterna que, no entanto, não encontra acolhimento nas categorias e esquemas humanos, mas que pode ser compreendido apenas na dimensão da abertura à fé. Como dirá o próprio Jesus pouco depois, diante da dureza de coração dos seus ouvintes. “É o Espírito que dá a vida, a carne não leva a nada; as palavras que vos disse são espírito e vida. Mas entre vós há alguns que não creem” (Jo, 6,63-64).

A incredulidade bloqueia a mão de Deus! A falta de fé é uma força extraordinária que impede Deus de agir!...”e ali, Jesus não pode realizar nenhum milagre”.

Ele, o Deus do impossível, pára diante do coração e da mente fechados daquelas pessoas sem fé! Aqui está a grande diferença entre Elias e essa gente. Elias se torna famoso pelos prodígios, porque crê. Crê que um pão assado e uma jarra d’água contenham os nutrientes suficientes para sustentar uma viagem de quarenta dias e quarenta noites e se põe a caminho. Elias crê que, embora desconsolado e cansado, ainda terá força e vigor para combater contra os inimigos e derrotá-los.

E assim, se sob a perseguição e o ódio impetrados por Jezabel provocaram desânimo e desejo de morrer, é sob a força da Palavra de Deus que Elias se põe a caminho.

Quanto aos judeus do Evangelho de hoje, partindo de um raciocínio muito limitado e fechado ao novo que Jesus quer trazer, percebem que as suas contas “não batem”. É que na “conta” deles, pelo fato de Jesus ser o filho do carpinteiro, não pode ser o Pão da vida; pelo fato de não viver fazendo espetáculos por aí e porque é o filho da Maria, não pode trazer nenhuma novidade; porque é um homem, não pode dar a própria carne como alimento e, por conseguinte, nenhum alimento material jamais poderia dar a vida eterna!

Os judeus “estacionam” aqui. Limitam-se às murmurações, tristes e estéreis e, justamente por isso, não partem para a “viagem” misteriosa que Jesus propõe.

Trata-se da única viagem capaz de “escancarar” as portas da vida eterna. Daquela vida que começa agora: o caminho da fé!

Nesse caso, portanto, eles vão, diferente de Elias, da murmuração à incredulidade e a viagem não se inicia. Aliás, já acaba antes mesmo de partirem.

Mas e nós? Onde estamos nesse sentido? São Paulo, na segunda leitura (Ef 4,30-4,2) pode nos ajudar a fazer um exame de consciência para compreender o nosso ponto de partida. Estamos caminhando rumo à amargura, irritação, cólera, gritaria e injúrias? Será essa a nossa “bagagem”? Ou estamos caminhando na direção da bondade uns para com os outros, da misericórdia e do perdão? O que o nosso coração abriga? É bom saber reconhecer os sentimentos e motivações que tem dentro dele. Aliás, é o primeiro passo do caminho para a viagem que está diante de nós.

Se estamos fartos e desejamos a morte, assim como se sentiu também o grande Elias, sejamos sinceros quanto a isso; se há dúvidas dentro de nós, encaremos isso com honestidade; se reconhecemos amarguras e cansaços que nos deprimem em nosso interior, apresentemos a Deus!  Vamos assumir tudo isso, em primeiro lugar. Isso mesmo! Assim como Elias! É só assim que tudo isso pode desaparecer, não apenas do meio de nós, mas principalmente, de dentro de nós, para dar lugar ao amor!

Eis aqui a proposta de uma viagem, de uma caminhada bem mais longa e que exige mais esforço do que aqueles quarenta dias de Elias: ir do ressentimento ao perdão. Da morte à vida!

Por que reencontrar sentimentos positivos e luminosos quando o coração está fechado na ira é a mesma coisa que ressuscitar dos mortos. Mas isso só é possível a Deus, do qual somos chamados a ser “imitadores”.

E é Deus mesmo, então, que na Eucaristia se faz alimento para essa viagem em direção à vida: “Eu sou o pão da vida... Eu sou o pão vivo... o pão que eu darei é a minha carne, para a vida do mundo”, proclama Jesus no Evangelho.

O convite é para uma viagem maravilhosa, porque o caminho a ser trilhado, nos conduz à vida eterna. Uma viagem na qual nos é garantido, gratuitamente, o necessário para o caminho. Uma viagem para a qual recebemos um convite bem claro. Trata-se do convite que o próprio Pai nos fez no Batismo, ou melhor, ainda, um convite à viagem que, através do batismo, o Pai nos atraiu.

O que falta ainda, portanto, para partir? Simplesmente a nossa fé, como abertura de coração e de mente, simples e confiante de que “um pedaço de pão e um pouquinho de vinho” é tudo o que precisamos e, por isso mesmo, podemos partir tranquilos.

Deixemo-nos, então, acordar do sono em que estamos refugiados, “não contristemos o Espírito Santo de Deus”, mas caminhemos na caridade, rumo à vida verdadeira, alimentados com o Pão do Céu.