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publicado em: 23/08/2018
Frei Alfredo, SIA: Optar por Cristo

(Reflexão a partir dos textos da liturgia do vigésimo primeiro domingo do Tempo Comum)

Frei Alfredo Francisco de Souza, SIA – Missionário Inaciano.

Estamos encerrando o mês de agosto em que somos convidados a vivenciar intensamente, a cada final de semana, a temática da vocação. 

É um tempo precioso espiritualmente, que nos convida a deixar a correria do dia a dia para olhar para si mesmos, e para verificar a qualidade da resposta que estamos dando diante da vida e do caminho escolhido ou ainda a escolher.

Somos convidados a perceber algo importante, diante disso: não viemos ao mundo para viver estressados com tanta correria, nem para ganhar cada vez mais dinheiro, a fim de garantir a todo o custo um “futuro seguro”.

Viemos a este mundo por amor e como um dom de Deus e de nossos pais e, por isso mesmo, a vida nesta terra é o tempo e a oportunidade para correspondermos a esse dom.

É claro que temos que trabalhar, estudar, crescer, viajar e batalhar por uma vida sempre melhor. Contudo, tudo isso deve ser vivido de um modo como se estivéssemos percorrendo um caminho que leva ao encontro de uma descoberta, na certeza de que alguém nos espera no final dessa jornada, mas também que a Sua presença já é percebida e sentida no hoje da nossa vida, certos de que, na tentativa de amar as pessoas com as quais vivemos, já estamos respondendo a um convite para viver intensamente a vida!

É importante parar por um momento e perguntar: o que este mês de agosto, que está terminando nos trouxe? Conseguimos recuperar o sabor do relacionamento com os nossos familiares? Com nossa comunidade? Com os nossos amigos? O que ficou marcado em nós e que não podemos esquecer, quando aceitamos o convite para refletir sobre o chamado para ser pai, mãe, catequista, sacerdote, religioso, religiosa?

Entre as oportunidades que este mês de agosto nos deu para aprofundar as escolhas feitas e as opções que a vida apresenta, está a palavra de Deus na liturgia. O Evangelho dominical, desde o último domingo de julho até este vigésimo primeiro domingo do tempo comum, ofereceu-nos, inserido no ano B - do Evangelho de Marcos - a leitura do sexto capítulo do Evangelho de Jesus Cristo segundo São João, que é todo dedicado ao tema do “Pão da vida”, referindo-se à Eucaristia.

Neste domingo a liturgia nos apresenta a leitura da sua conclusão (Jo 6,60-69), que enfatiza a reação dos ouvintes de Jesus. Talvez essa página, juntamente com as duas leituras (Js 24,1-2. 15-17. 18b) e (Ef 5,21-32) com o salmo (33) propostos, podem nos ajudar a chegar ao final deste mês vocacional e a preparar-nos para concluí-lo com um “saldo” bem positivo, e com alegria perceber que a nossa vida está sendo vivida com sentido, tendo no horizonte um ideal.

Jesus havia apenas terminado de concluir o discurso sobre o “Pão da vida” na sinagoga de Cafarnaum. Os discípulos que O escutaram reagiram. É muito difícil compreender o que Jesus disse: “Em verdade, em verdade vos digo, se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia”! (20º domingo do tempo comum B – Jo 6,51-58).

Se já é difícil compreender o sentido das palavras de Jesus, pois Ele pede aos discípulos para entrarem em uma profunda comunhão com Ele, participando do Seu destino de morte e ressurreição, mais difícil ainda é aceitar essa proposta.

Jesus lê nos rostos dos seus discípulos o desconcerto e entende a sua murmuração, que recorda a murmuração dos israelitas no deserto, e procura ir ao seu encontro.

O mais difícil não é entender as palavras, mas crer que aquele que disse que desceu “do céu”, como também crer que aquelas palavras são a vontade de Deus para nós, é o caminho para a vida verdadeira.

Além do mais, como é difícil explicar quando alguém não quer compreender! É uma experiência frustrante! Na verdade, Jesus encontrou gente de mente e coração tão fechados, que não estavam dispostos a aceitar nem a promessa, “terá a vida eterna”, tampouco a explicação que se concentrava no fato de ter “descido do céu”, e por isso mesmo, ser um pão diferente!

Na realidade, a questão central, afinal, não é tanto aquilo que Jesus disse, mas quem Ele é para cada um de nós. Jesus é o Filho de Deus ou mais um dos muitos pregadores? É alguém que disse coisas mais interessantes do que os outros, ou é o único que pode dar resposta à nossa sede de felicidade e ao anseio por algo sempre novo e sempre maior? “Só tu tens palavras de vida eterna”!

Ser cristão, no fundo, é responder a cada dia a essa pergunta. Jesus nos avisa que a resposta não depende tanto da nossa boa vontade ou da nossa inteligência, isto é, a capacidade humana indicada na bíblia pela palavra “carne”, mas que ela é dom do Espírito de Deus.

Crer em Jesus e seguí-Lo não é fruto apenas de uma simpatia meramente humana ou de uma sintonia que ocorre de modo espontâneo. Haja vista que, na caminhada de fé de cada um de nós, chega um tempo em que aquilo que é humano não é mais suficiente. Portanto, a escolha de permanecer fiel a Ele só é possível pela fé.

Jesus sabia que entre os seus seguidores nem todos estavam dispostos a chegar até esse ponto. De fato, após o discurso sobre o pão da vida, muitos o abandonaram. É importante observar que Jesus não os criticou, tampouco correu atrás deles para fazer uma “pechincha”. Muito menos aliviou ou adequou o discurso ao seu gosto! Ao invés disso, Ele pergunta aos doze que ficaram ali perto dele, se eles também queriam ir embora, ou ainda, se a escolha deles seria também não aceitar aquela verdade, ainda que muito dura, sem medo de permanecer sozinho. 

Na verdade, o que Jesus faz foi provocá-los no sentido de tomarem uma decisão firme, pessoal e clara quanto à Sua pessoa. Eles precisam decidir se vão escolhê-Lo com liberdade de mente e de coração. 

Pedro, mais uma vez em nome dos outros discípulos, declara abertamente aquilo que quer, isto é, permanecer com Jesus, porque só Ele tem palavras de vida eterna.

Diferente dos outros que O abandonaram, percebeu que, embora a decisão requeira uma confiança total, ainda que sem provas científicas, opta pelo permanente ao invés do provisório, pelo eterno, ao invés do efêmero.

Na verdade, o que Pedro faz é uma belíssima profissão de fé, totalmente centrada na pessoa de Jesus e não sobre si mesmo ou sobre as capacidades ou forças humanas. Esta é uma das muitas reviravoltas que encontramos no Evangelho. Isto é, diante da perda de um grande número de discípulos, a preocupação de Jesus não está no número que diminui, muito menos no “sucesso” para o qual a quantidade às vezes, ilusoriamente, pode indicar.

A Sua preocupação está em esclarecer as motivações daqueles que continuam com Ele. Dos seus seguidores, ainda que poucos, Ele espera que saibam o que estão fazendo. Espera que deem um salto de qualidade, que sejam pessoas que saibam dar razões da sua fé! Uma lição para nós nesses tempos difíceis em que a ilusão das multidões e do sucesso repentino também é para nós uma tentação!

Se as razões são apenas motivos humanos, isto é, provindas da “carne”, não vai durar muito tempo. Mas se estiverem fundamentadas na fé firme e consciente, ou seja, motivadas pelo Espírito, pelo chamado de Deus, então elas vão perdurar. É coisa de Deus, como dizemos comumente.

Trata-se de fazer uma mudança de “marcha” da primeira para a segunda, e assim, sucessivamente. Uma “viagem” muito semelhante a um novo nascimento, como disse uma noite numa conversa com Nicodemos, ou a uma “morte”, como dirá diante do sepulcro do amigo Lázaro. Esta passagem é algo a ser levado muito a sério na caminhada da vida e da fé cristã.

Aliás, todo o resto depende dessa "porta estreita", pela qual é necessário passar. Jesus, que foi o primeiro a passar, é o Mestre que quer segurar a nossa mão, para que também nós a atravessemos.

Ter fé n’Ele não significa apenas ser um vencedor diante das dificuldades, mas confiar que uma vida mais plena pode nascer das “mortes” pelas quais temos que passar no dia a dia.

Se a leitura dessa página do Evangelho segundo João for feita nessa perspectiva, podemos compreender e sentir mais perto a cena da renovação da Aliança com Deus no final da entrada na terra prometida, antes que Josué morra, depois de completar a sua missão, conforme a primeira leitura. Ali também há que se fazer uma opção: fidelidade ou facilidade? A resposta é firme: “Eu e minha família serviremos ao Senhor”!

O mais importante, parece dizer-nos a primeira leitura, não é ter uma terra onde morar, mas decidir a qual Deus seguir, a quem servir, porque Deus é a verdadeira pátria do povo, o seu verdadeiro destino.

Da mesma forma que optar por Cristo e não abandoná-Lo, significa viver todas as relações nesta nova luz. 

Uma das relações mais importantes na vida é a relação entre marido e mulher. Paulo, na segunda leitura, mostra o que se torna essa relação para aqueles que a vivem “em Cristo”. Ele aproveita o tipo de relacionamento matrimonial do Oriente Médio sem, contudo, louvá-lo, para dar-lhe um sentido cristão, fundamentado no tipo de relacionamento de amor de Cristo para com a Sua Igreja, informa o comentário do missal dominical.

É uma relação de doação mútua, isto é, de reciprocidade, que se exprime em atitude de submissão livre e de amor autêntico. Trata-se de um relacionamento em que a opressão não tem lugar, pois só se deve submeter ao amor!

A vida equilibradamente partilhada e vivida nos moldes do amor de Cristo para com a humanidade é a marca registrada desse relacionamento. Não há lugar para machismo e muito menos para humilhação, exploração ou dominação, nem da parte do homem, tampouco da mulher.

Esta relação é um caminho que se percorre vivendo a passagem contínua da “carne” ao “espírito”, da qual Jesus fala no Evangelho. A vida matrimonial dos cristãos é um grande mistério, porque o seu relacionamento quotidiano é chamado a atingir a “estatura de Cristo”.

Quanto a nós, estamos dispostos a crer que a nossa vida não depende apenas das nossas próprias forças, mas também da graça de Deuspara continuar a buscar a comunhão com Jesus na escuta da Sua Palavra e no Sacramento da Eucaristia, para viver a relação matrimonial como caminho de seguimento e de imitação de Cristo?

Ao final do mês vocacional, em que o chamado e a resposta foram temas de reflexão para toda a Igreja, Jesus continua a nos perguntar também, quando muitos já o abandonaram e não conseguem aceitá-Lo como o Pão vivo e verdadeiro descido do Céu, comida e bebida eucarística para a vida verdadeira: “Vocês também querem ir embora”? A resposta depende de cada um de nós!