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publicado em: 03/11/2018
Frei Alfredo: “Solenidade de Todos os Santos e Santas de Deus”

Liturgia da Solenidade de Todos os Santos
Frei Alfredo Francisco de Souza, SIA

Às vezes, penso que a vida cristã consiste simplesmente em aprender a viver cada dia da nossa existência com o desejo de escutar o Evangelho, de fazer da Palavra de Jesus uma presença amiga, uma referência segura.

É na liturgia que somos convidados e conduzidos ao encontro com Jesus e Sua Palavra e é ao longo do ano litúrgico que a memória semanal da Páscoa de Jesus, a cada domingo, é enriquecida pela lembrança do testemunho dos cristãos que viveram antes de nós, a maioria em época e contextos muito diferentes dos nossos, e que chamamos de santos.

Nós os chamamos de “santos” porque reconhecemos que se configuraram plenamente com o modo de viver de Jesus, que o tornaram mais conhecido através das suas próprias vidas e dos seus testemunhos irradiando, assim, o rosto de Deus Pai.

A Palavra “santo”, de fato, é um atributo que a bíblia, em primeiro lugar, usa para Deus. Significa “separado”, no sentido de “diferente”. Diferente do homem, não porque está longe, mas porque o homem foi criado por Deus como vértice de toda a criação, e Deus é o seu Criador. Todavia, quando Deus criou o homem, não o criou para que ficasse longe d’Ele, mas para fazer aliança com Ele. O amor que faz com que Deus realize a criação é o mesmo amor que O leva a oferecer Sua Aliança ao homem, que nada mais é do que um pacto de amor.

Só faz aliança de amor quem sabe que é diferente do outro, e mesmo assim não quer permanecer longe e indiferente. Pelo contrário, sente um grande desejo que o outro esteja unido a ele, ao ponto de assemelhar-se. É por isso que depois de ter libertado o Seu povo da escravidão do Egito, Deus lhe pede, “Sede santos, como eu, o Senhor vosso Deus, Sou Santo” 1Pd 1,16).  

Esta aliança se realiza no momento do ponto mais alto da história de Deus com a humanidade, que é a vinda de Jesus. Ele, inclusive, manifestou isso aos Seus discípulos quando disse: “Vinde a mim... aprendei de mim que sou manso e humilde de coração”.

Jesus não lhes pede apenas para que imitem os Seus sentimentos, mas para que bebam da Sua mesma fonte, para então, viverem isso nas suas próprias vidas, isto é, o Seu próprio modo de ser e de viver. É exatamente isso que os cristãos santos fizeram. Foram “cristãos completos”.

 No Novo Testamento a palavra “santo” é usada para denominar os cristãos, porque o dom da salvação os justificou e os tornou capazes de viverem como Jesus. Contudo, como todo dom, não é algo imposto, mas oferecido a cada um para que o torne concreto e verdadeiro em sua vida. Neste ponto é que deve começar a resposta de cada um, que é livre e também sujeita às tensões da nossa velha humanidade que resiste às transformações.

Os santos nos ajudam nesse caminho porque nos recordam que não existem condições privilegiadas para responder ao Senhor. Ajudam-nos a lembrar também que cada um pode responder onde, como e quando vive, em sua própria situação concreta, de acordo com quem é.

Na verdade, sabemos que nenhum santo teve condições fáceis ou privilegiadas para se tornar santo. Pelo contrário, tiveram que ser verdadeiros heróis e heroínas.

Os santos nos ajudam também a compreender a Palavra de Deus, porque a explicam não através de palavras ou teorias, mas através de gestos e escolhas concretas, assim como também nos ajudam a perceber até onde a obediência ao projeto de Deus pode levar uma pessoa.

Como os Santos são muitos, não apenas aqueles que a Igreja reconhece oficialmente, mas também aqueles que Deus acolhe junto de Si, sem que nós o saibamos, a ideia da liturgia de celebrar uma festa de todos os santos é maravilhosa.

Maravilhoso também é saber que podemos nos lembrar daquelas pessoas que nos ensinaram com a sua própria vida como se faz para amar a Deus. É claro que podemos pedir a ajuda deles e delas, porque cremos que podem interceder por nós junto a Deus.

As leituras desta solenidade nos levam a fazer um percurso simples e ao mesmo tempo solene entre a terra e o céu. No Evangelho da solenidade de Todos os Santos (Mt 5,1-12a) Jesus, ao proclamar as Bem Aventuranças, que são a síntese de todo o Seu Evangelho, nos recorda que Deus se faz próximo, oferece o Seu amor, o Seu Reino a todos, e o faz a partir daquelas pessoas que nós, às vezes, não valorizamos. Trata-se dos pobres em espírito, isto é, daqueles que, como Jesus, tem um coração manso e humilde, daqueles que sofrem, daqueles que amam sem interesses, mas por misericórdia, os que lutam pela justiça e pela paz enfrentando, inclusive, a perseguição, e daqueles que para permanecerem fieis a Jesus e ao projeto do Seu Reino, passam por inúmeras dificuldades.

Para essas pessoas Deus Se faz conhecer e faz com que percebam a Sua ajuda. É por isso que Ele os chama de “beatos”, que significa “felizes”. São pessoas que estão no caminho certo, caminho de homens e mulheres que respondem ao seu Criador, ainda que aos olhos humanos, sejam vistos como infelizes.

Jesus é o primeiro desses “felizes”, enquanto os santos O seguem nesse caminho. Mas se nós quisermos entrar no Reino, se quisermos ser felizes de verdade, somos chamados a percorrer o mesmo caminho. Para exprimir a mesma experiência São João usa uma linguagem totalmente familiar: “nós somos filhos de Deus, já agora e em plenitude, porque Jesus, o Filho é quem o revelou e abriu para nós a Sua casa”.

É certo que ainda estamos a caminho. Para nós, que ainda vivemos nesta terra, ser filho significa uma série de coisas, mas não sabemos o que será de nós quando Jesus retornar na plenitude do Seu amor.

Continuemos a percorrer o caminho como os peregrinos que iam ao Templo de Jerusalém cantando o Salmo 23 que rezamos na liturgia de hoje: “quem subirá até o monte do senhor?... Quem tem as mãos puras e inocente o coração...”

Na espera da manifestação definitiva, o São João pode “sonhar”, como faz no Apocalipse, quando fala do encontro final. Na visão, apresentada na primeira leitura (Ap 7,2-4.9-14). Nela João vê uma "grande multidão", composta de cada nação e língua, que canta os louvores do cordeiro, que é o Cristo Crucificado e Ressuscitado.

Eles trajam vestes brancas e palmas nas mãos. Lavaram suas vestes no sangue do cordeiro, isto é, conformaram suas vidas à de Jesus, percorreram o Seu próprio caminho de morte e ressurreição, e trazem a palma da vitória que, na antiguidade, significava o que para nós hoje significa a medalha.

Com a confiança que infunde em nós a esperança de sermos sempre mais filhos e filhas e de receber a palma da vitória, caminhemos nas pegadas de Jesus, imitando suas atitudes e comportamentos, porque quem se sente amado não deseja outra coisa a não ser corresponder ao amor que recebe.