Artigos

Igreja e Meios de Comunicação: o presente despertar do futuro - por Frei Alessandro Nascimento

Igreja e Meios de Comunicação: o presente despertar do futuro

Ide por todo o mundo... ensinai a todos os povos. Aquilo que vos é dito ao ouvido, proclamai de cima dos telhados”(Mt 10,27).

A caminhada da Igreja no campo das Comunicações Sociais desde João Batista, “a voz que clama no deserto” – denunciando e anunciando, até um outro João, o simpático João Paulo II, é muito longa. Uma caminhada marcada por um incompreensível medo e uma injustificável rejeição dos modernos meios de comunicação, quando do seu aparecimento; uma caminhada que descobre, nos últimos anos, toda a força que estes meios têm e a maravilha dos horizontes que se abrem para concretizar o mandato do Senhor Jesus: “Ide por todo o mundo... proclamai de cima dos telhados” (Mt 10,27).

Estamos em época de eleições. Muitas pessoas são facilmente convencidas por diversas propagandas e promessas. É quase sempre a mesma história: não muda muita coisa. Entretanto, o modo como se divulga, informa e apresenta tais questões convence a todos nós, afinal, estamos sempre dispostos a acolher e comunicar essas coisas. Entre outros já está na mídia o “Acreditar no Brasil”. O povo poderá votar em candidatos cristãos ou não. Todavia, o Evangelho é uma mensagem de salvação que, quando ouvida e compreendida, transforma a vida da pessoa. Mas tal experiência de salvação acontece através das mais diversas linguagens, meios indispensáveis para que o gesto salvífico de Deus alcançasse e transformasse a humanidade. Que tal acreditar em Deus também, em sua Palavra!?! É uma questão de comunicação, de evangelização.

É dessa necessidade de evangelizar (“Ai de mim, seu eu não anunciar o Evangelho!”1Cor 9,16) que a Igreja reconhece a importância de seu papel social a partir de sua presença também através dos Meios de Comunicação Social. Jesus Cristo é o perfeito comunicador – falava a partir de seu povo. Mas comunicar não é apenas exprimir ideias ou manifestar sentimentos; no seu mais profundo significado, é doação de si mesmo, por amor; pois a comunicação de Cristo é Espírito de Vida.

         Uns acreditam que o próprio futuro da mensagem do Evangelho depende do domínio que a Igreja precisa urgentemente adquirir, custe o que custar, sobre as modernas comunicações. Contudo, a evangelização que se quer através do bom uso dos MCS é constituída de um processo dinâmico. Anunciar o Evangelho não é primeiramente relembrar figuras históricas, expor doutrinas religiosas ou conquistar novos adeptos.

         A proclamação do Evangelho, o Kerygma, é antes de tudo interpelação: um convite à liberdade, um apelo a uma vida nova, um chamado à conversão. Nesse sentido, a evangelização autêntica nunca é instantânea e superficial.

É preciso ter consciência de que “a mídia não se resume a ser apenas um ‘meio’, um canal de comunicação, mas se constitui como autêntico contexto cultural próprio, ou seja, ela forma a cabeça das pessoas, influencia no seu agir e viver. A mídia tem um poder cultural.

A cultura é de grande importância para a sociedade, para a evangelização da mesma. Na televisão, muito preocupa os índices de audiência. A evangelização mediática não pode escapar da mentalidade-índice-de-audiência. Mas há aí um risco a que se deve considerar: Priorizando o sensacional, o emotivo, o chocante, acaba a mídia por canonizar a “Igreja-espetáculo”, deixando em silêncio elementos mais importantes da vida cristã: a fé viva, a oração, as obras de caridade, o esforço missionário, as renúncias cotidianas. Pense nisso! Os conteúdos – “O acontecimento só se torna notícia quando se vê transformado num ‘produto noticiável’. Trata-se de uma realidade ‘construída’. O mesmo tratamento receberão os temas religiosos.Também eles serão traduzidos numa versão soft, universal, que enfatiza o informativo e atrofia o interpelativo”, afirma Mário de França Miranda, em seu artigo: Evangelho e mídia (na REB-Revista Eclesiástica Brasileira, Petrópolis, v.60, fas. 240, p. 909-918, 2000). Porém, o Evangelho é não só informação, mas também um modo de Deus nos interpelar e se comunicar conosco.

         A Igreja, seguindo o mandato de Cristo de evangelizar todos os povos, se encontra inserida na vida do mundo, percebe que este é moldado pelas culturas e que a ela mesma precisa estar preparada para bem utilizar a força de comunicação que esses meios modernos podem oferecer à evangelização; ao mesmo tempo percebe que o mundo da mídia possui sua lógica – nem sempre em acordo com as do Evangelho; mas a Igreja não desiste, o apelo de sua missão é mais forte.

A Igreja tem realmente iniciado uma abertura para o futuro. Estar na mídia é, pode e deve ser muito importante para evangelizarmos nos dias de hoje. Todavia, que verdadeiros testemunhos e exemplos de fé sejam encontrados, percebidos e seguidos pelas ruas de nossa cidade, do nosso Brasil.

Frei Alessandro Nascimento, OFM, pároco da Paróquia Santa Clara de Assis, em Bauru