Material Formativo
Iluminação Teológica - 2ª Assembleia Sinodal - Palestra padre Ricci
Conteúdo apresentado na 2ª Assembleia Sinodal da Diocese de Bauru realizada no dia 2 de dezembro de 2012 na USC pelo padre Luiz Antônio Lopes Ricci.

2ª Assembleia Sinodal

MOMENTO: JULGAR

Padre Luiz Antônio Lopes Ricci

SÍNTESE DA ILUMINAÇÃO TEOLÓGICA – padre Luiz Antônio Lopes Ricci

TEMA: O ESPÍRITO SANTO NOS CONDUZ

LEMA: TIREM DO TESOURO COISAS NOVAS E VELHAS (Mt 13,52)

 

VIÉS: VIRTUDES TEOLOGAIS

                     

                      ESPERANÇA

                      CARIDADE

                      O AGIR SEGUE O SER

                      O SER É APERFEIÇOADO PELO AGIR ÉTICO E EXCELENTE

                      PRODUZIR FRUTOS NO AMOR PARA A VIDA DO MUNDO (OT, n. 16)

 

REFERÊNCIAS

                      Documento de Aparecida

                      Sínodo da Palavra de Deus

                      Diretrizes da CNBB (2011-2015)

                      Ano da Fé e Sínodo da Evangelização

                      Teólogos, Filósofos e Sociólogos

                      Ver: realidade da Diocese de Bauru

                      Diocese de Bauru em estado permanente de oração e missão

 

Metodologia

                      O que queremos? e o que esperam? precede o Ver

                      Definir a ótica, óculos, viés, à luz de...

                      Ver: Mestre que eu veja! Eu quero ver de novo! (cf. Mc10,51)

                      Entre o que queremos e o ver (realidade) existe uma tensão produtiva e criadora.

                      Julgar: fundamentos bíblicos, teológicos e eclesiais.

                      Agir: Como ?

                      Avaliar, rever e atualizar

                      Celebrar

 

Proposta: Otimismo Dramático

                      Entre o otimismo que não sofre e o pessimismo impaciente o verdadeiro caminho do homem é este otimismo dramático, no qual ele encontra sua justa medida numa atmosfera de grandeza e de luta (Mounier).

                      Otimismo marcado pelas inevitáveis tensões, ocasião de crescimento.

 

Resiliência

                      Significa voltar ao estado normal, após uma situação crítica ou fora do comum.

                      Há pessoas que são como cana, mesmo moídas na moenda da vida são capazes de só e tão somente produzirem nada mais que doçura (Dom Helder).

                      Capacidade de lidar com os problemas, superar obstáculos e resistir à pressão de situações adversas.

                      Otimismo e controle. Convicções cultivadas, esperança e crença de que a situação pode mudar para melhor.

                      Crise: ocasião de mudança.

 

        ESQUECER PARA LEMBRAR VOLTAR AO PRIMEIRO AMOR

                      Conheço tua conduta, tua fadiga e tua perseverança: sei que não podes suportar os malvados, puseste à prova os que se diziam apóstolos – e não são – e os descobriste mentirosos. És perseverante, pois sofreste por causa do meu nome, mas não esmoreceste. Devo reprovar-te, contudo, por teres abandonado teu primeiro amor. Recorda-te, pois, de onde caíste, converte-te e retoma a conduta de outrora” (Ap. 2, 2-5).

 

PARTIR DA FÉ EM CRISTO

                      Opção fundamental que gera opções preferenciais

                      A dimensão da fé (religiosa) é pré-moral, pré-social. Caso Zaqueu: encontro pessoal e transformador com Cristo vivo (cf. Lc 19, 1-9)

                      As exigências sociais brotam da fé. “A fé opera pelo amor” (Gl 5,6). “O amor que move o sol e as outras estrelas” (Dante).

                      “Mas, o Filho do Homem, quando vier, será que vai encontrar a fé sobre a terra”? (Lc 18,8)

 

Façam isso, sem deixar de lado aquilo” (Mt 23,23).

                      Fundamentar pela fé a dimensão social da Igreja

                      As consequências e exigências derivam da missão. Primazia da Missão.

                      Superar o desânimo, cansaço e a falta de criatividade. Vem Espírito Criador.

                      Fidelidade Criativa: Inovação na continuidade

Cultivar a gratidão (passado), a confiança e coragem (presente) e a esperança (futuro

 

Exigências e urgências da fé para uma Igreja em estado permanente de oração e missão

                      Ano da Fé - PORTA FIDEI – Papa Bento XVI

                      A PORTA DA FÉ (cf. At 14, 27), que introduz na vida de comunhão com Deus e permite a entrada na sua Igreja, está sempre aberta para nós. É possível cruzar este limiar, quando a Palavra de Deus é anunciada e o coração se deixa plasmar pela graça que transforma. Atravessar esta porta implica embrenhar-se num caminho que dura a vida inteira (n.1)

 

Cultivar e cuidar da fé

                      Sucede não poucas vezes que os cristãos sintam maior preocupação com as consequências sociais, culturais e políticas da fé do que com a própria fé, considerando esta como um pressuposto óbvio da sua vida diária. Ora um tal pressuposto não só deixou de existir, mas frequentemente acaba até negado (n.2).

 

Voltar às fontes

 

                      Não podemos aceitar que o sal se torne insípido e a luz fique escondida (cf. Mt 5, 13-16). Também o homem contemporâneo pode sentir de novo a necessidade de ir como a samaritana ao poço, para ouvir Jesus que convida a crer n’Ele e a beber na sua fonte, donde jorra água viva (cf. Jo 4, 14). o Ano da Fé é convite para uma autêntica e renovada conversão ao Senhor, único Salvador do mundo (n.3).

 

Relação fé e razão (ciência)

                      De fato, em nossos dias mais do que no passado, a fé vê-se sujeita a uma série de interrogativos, que provêm duma diversa mentalidade que, hoje de uma forma particular, reduz o âmbito das certezas racionais ao das conquistas científicas e tecnológicas. Mas, a Igreja nunca teve medo de mostrar que não é possível haver qualquer conflito entre fé e ciência autêntica, porque ambas, embora por caminhos diferentes, tendem para a verdade (n.12).

 

O justo viverá pela fé (Rm, 1,17)

                      A fé é um modo de já possuir aquilo que se espera, é um meio de conhecer realidades que não se vêem” (Hb, 11,1).

                      A fé não é só uma inclinação da pessoa para realidades que hão de vir; ela dá-nos algo. Dá-nos já agora algo da realidade esperada. A fé atrai o futuro para dentro do presente, de modo que o futuro já não é o puro “ainda não” (Spe Salvi, n. 7).

 

Relação fé e vida

                      O fato deste futuro existir, mudo o presente; o presente é tocado pela realidade futura, e assim as coisas futuras derramam-se naquelas presentes e as presentes nas futuras (Spe Salvi, n.7).

                      Toda ação séria e reta do ser humano é esperança em ato  (Ibid., n.35).

                      “A mensagem cristã não era só ‘informativa’, mas ‘performativa’. Isto significa: o Evangelho não é apenas uma comunicação de realidades que se podem saber, mas uma comunicação que gera fatos e muda a vida”(Spe Salvi, n. 2).

                      A Fé é performativa e não apenas informativa, isto é, pode transformar a nossa vida.

                      A fé é impactante!

 

Re-partir da fé – Sínodo e Jubileu

                      Clodovis Boff, sintonizado com a fase madura da teologia latino-americana e mais conforme ao novo cenário sócio-cultural e eclesial, re-propõe a fé em Cristo como ponto de partida e necessidade fundamental que não pode ser dada como assegurada na ação e reflexão[1]. Trata-se de re-impostar e re-fundar o compromisso social a partir da fé em Cristo. “Na relação entre fé e compromisso, a fé detêm indiscutivelmente a primazia”. A opção fundamental por Cristo exige confirmação diária. Sem ela não há razões consistentes e duradouras para o agir ético, solidário e transformador.

[1] Cf. C. Boff, “Re-partir da realidade ou da experiência da fé?”, em REB 265 (2007) 5-35.

                      Cabe destacar que nesse texto as relevantes intuições do autor acerca da primazia da fé sobre o social, coincidem com a orientação de Bento XVI contida no “Discurso Inaugural” da Conferência de Aparecida: “Só quem conhece a Deus, conhece a realidade e pode responder a ela de modo adequado e realmente humano” (Bento XVI, Discurso Inaugural. Conferência de Aparecida (13-05-2007), n.3, em Sedoc 322 (2007) 622).

 

Fé e opção pelos pobres

                      A fé em Jesus Cristo, como ponto de partida, proporciona a visão da realidade em nova perspectiva. Não se trata de mudar a rota ou inverter a marcha, mas de enfatizar a fé e adesão pessoal a Cristo como elemento constitutivo, “princípio primeiro” do qual deriva o “princípio segundo”: a opção pelos pobres. “É o ‘modelo da decorrência’. Os cristãos optam pelos pobres ‘por causa de Cristo’. A opção pelos pobres não é fundante, mas fundada”.

 

Fé cristológica e eclesial

                      Sabe-se que a grande contribuição da teologia da libertação foi despertar para a dimensão sócio-política da fé, integrada dentro da grande missão da Igreja[1]. Assim que a fé não dispensa a opção pelos pobres, antes, a confirma. De Cristo para o pobre há um caminho direto, porém do pobre para Cristo nem sempre. Desse modo, a opção pelos pobres é uma das mais importantes opções de fé.

                      [1] Trata-se de viver a fé cristológica com os olhos voltados para a realidade que pode ser melhorada com amor, compaixão, compromisso e solidariedade concreta e organizada.

                      Lugar Social se converte em Lugar Teológico, do qual Deus fala e que fala algo de Deus.

 

Fé e Mística

                      De todo modo, na perspectiva cristã a mística deriva da fé e dá os motivos para a ação transformadora. Diminuindo a fé, diminui também o potencial convocatório da mística. Compreende-se, portanto, a insistência na mística que conjuga fé e vida, um paradigma com o qual se pode superar o perigo tanto do espiritualismo quanto do ativismo. Conjuga-se obra e fé: a boa obra é feita com a Graça de Deus.

Fé e compromisso social

                      Dizer que o compromisso social do cristão tira sua força última do compromisso da fé, não implica, em absoluto, que aquele compromisso fique por isso enfraquecido. Ao contrário, só assim ele fica garantido. Que não paire, nesse ponto, nenhuma dúvida: o primado da fé em Cristo nada rouba ao compromisso social como tal; antes, o salva de sua falta de radicalidade, tanto religiosa quanto social. Desta maneira, afirmar o primum da fé não é ‘ir para trás’, mas ‘ir para o fundo’, para poder ‘ir para frente’”.  

 

De Deus ao próximo

                      “Amar a Deus e, a partir Dele, também o homem, para redescobrir depois, a partir dos homens, Deus em modo novo” (Bento XVI).

                       “Só quem ama ao próximo pode saber verdadeiramente quem é Deus. E só quem ama a Deus pode conseguir entrar incondicionalmente em relação com o outro homem sem transformá-lo em meio para a própria auto-afirmação. Assim no amor incondicionado ao próximo já está dentro o amor a Deus” (K. Rahner).

 

Questionamento

                      RE-CRIADOS PELO MESTRE E PELA FÉ

                      C0-CRIADORES E COLABORADORES

                      CONVERSÃO PASTORAL: PASSAGEM DE UMA PASTORAL DE MANUTENÇÃO PARA UMA PASTORAL DECISIVAMENTE MISSIONÁRIA (Doc. Aparecida)

                      A crise ética, o cansaço, a falta de motivação, o comodismo, não derivam de uma crise de fé?

 

Tripé da Ação Pastoral

                      Partir da fé: encontro pessoal com Cristo

                      Culto e Palavra: celebração da fé e fonte do agir cristão

                      Solidariedade concreta e organizada: prática da fé (caridade)

 

Fé, culto e ethos

                      “Fé, culto e ethos (modo de ser, valores, comportamentos) compenetram-se mutuamente como uma única realidade que se configura no encontro com a Agape de Deus. Aqui, a habitual contraposição entre culto e ética simplesmente desaparece. No próprio culto, na comunhão eucarística, está contido o ser amado e o amar. Uma Eucaristia que não se traduza em amor concretamente vivido, é em si mesmo fragmentária” (Deus caritas est, n. 14).

 

Amor concreto e organizado

                      Dado que Deus foi o primeiro a amar-nos, agora o amor já não é apenas um mandamento, mas é a resposta ao dom do amor com que Deus vem ao nosso encontro (Deus Caritas Est, n.1).

                      O mandamento do amor só se torna possível porque não é mera exigência, o amor pode ser “mandado” porque antes nos é dado (Ibid., n.14).

                      Nossa ação pastoral como resposta de amor ao amor recebido. Fazer por amor e com amor.

                      O amor torna-se cuidado do outro e pelo outro (Ibid., n.6). Ética do cuidado, do cuidar.

 

A caridade da Igreja como manifestação do amor trinitário (n. 19)

                      Se vês a caridade, vês a Trindade (S. Agostinho).

                      Toda atividade da Igreja é manifestação do amor que procura o bem integral do ser humano, procura a sua evangelização e a sua promoção. É amor o serviço que a Igreja exerce para acorrer constantemente aos sofrimentos e às necessidades, mesmo materiais, dos homens (n.19).

 

Caridade organizada e praticada

                      O amor tem necessidade de organização enquanto pressuposto para um serviço comunitário ordenado (n.20).

                      Não se perder no excesso de organização e na prática precipitada (sem projeto e teoria).

 

Caridade: essência da Igreja

                      A natureza íntima da Igreja exprime-se num tríplice dever:

                      Anúncio da Palavra de Deus (Kerygma-martyria)

                      Celebração dos Sacramentos (liturgia)

                      Serviço da Caridade (Diakonia)

                      São deveres que se reclamam mutuamente, não podendo um ser separado dos outros.

                      A caridade não é uma espécie de assistência social que se poderia mesmo deixar a outros, antes, pertence à natureza da Igreja, é expressão irrenunciável da sua própria essência n.25).

 

Relação fé e política

                      A justiça é o objetivo de toda política.

                      Nesse ponto, política e fé tocam-se. Duas esferas distintas, mas sempre em recíproca relação (n.28). A fé consente à razão de realizar melhor a sua missão e ver mais claramente o que lhe é próprio. A Igreja tem o dever de oferecer, por meio da purificação da razão e da formação ética, a sua contribuição específica para a concretização da justiça (n.28).

                      A sociedade justa não pode ser obra da Igreja; deve ser realizada pela política (n.28).

 

Amor sempre necessário

                      O amor – caritas – será sempre necessário mesmo na sociedade mais justa. Não há qualquer ordenamento estatal justo que possa tornar supérfluo o serviço do amor (n.28). Sempre haverá sofrimento que necessite de consolação e ajuda.

                      O homem, além da justiça, tem e terá sempre necessidade do amor (n.29)

                      Caridade social: atividade política

                      Caridade eclesial: organizada.

                      Lideranças engajadas e comprometidas com a missão da Igreja.

 

Opção pelos pobres

                      Melhorar, pela exigência da fé em Cristo, esta realidade penúltima, enquanto se caminha para o Reino definitivo, onde não haverá mais crianças que vivam alguns dias apenas (Is 65,20). Na ótica cristã, isso implica não perder de vista a orientação fundamental dada pelos Apóstolos a Paulo e a nós, discípulos e missionários de Cristo: “nós só nos devíamos lembrar dos pobres, o que, aliás, tenho procurado fazer com solicitude” (Gl 2,10).

                      “O homem que sofre nos pertence” (João Paulo II).

 

Mística e Missão

                      Não há missão frutuosa sem mística (encontro profundo e pessoal com Deus). Mística é a motivação para a missão de servir e gerar vida. É a mística que transforma o nosso viver em missão e, ao mesmo tempo, é ela que faz a missão acontecer. A missão é o que se vê. É a mística percebida, concretizada, encarnada na realidade. Já a mística é o que dá motivo e sentido verdadeiro e contínuo à missão. Isso implica integrar mística e missão. Infelizmente alguns projetos eclesiais não facilitam ou proporcionam aos fiéis este passo qualitativo e fundamental, mantendo-os, por conseguinte, na fé imatura e separada da vida ou no espiritualismo intimista e ineficaz.

                      A mística faz com que pessoas se transformem em comunidade, e se identifiquem com o serviço missionário. Não é apenas um dar, mas um dar-se respeitoso da singularidade do outro. A mística é envolvente e “sedutora”. Por essa razão, pode-se dizer que não possuímos uma mística, mas somos possuídos por ela: “Tu me seduziste, Javé, e eu me deixei seduzir” (Jr 20,7). Esta saudável possessão produz no discípulo missionário um crescimento pessoal e comunitário.

                      A mística por motivar e atrair para o serviço caritativo, produz certa insatisfação no sentido de que o discípulo missionário, envolvido profundamente com aquilo que faz, quer fazer sempre mais e melhor, não por ativismo, mas porque sente-se movido por ela. Madre Teresa de Calcutá, um exemplo do exercício incansável da mística cotidiana, ilustra tal sentimento com a seguinte frase: “Não, eu não tocaria um leproso por mil pounds, contudo, de boa vontade o curarei pelo amor a Deus”.

 

O futuro do cristianismo

                      Cristianismo é essencialmente a Religião do Amor.

                      A única verdade que as escrituras nos revelam é a verdade do amor, da caritas. “Nossa única possibilidade de sobrevivência humana está depositada no preceito cristão da caridade” (Gianni Vattimo, 75-76).

                      O futuro e o específico do cristianismo passa pela caridade que se atualiza na forma de solidariedade concreta. Servir e amar Cristo no próximo, sobretudo no mais necessitado e vulnerável.

                      O critério último e decisivo é a caridade.

                      Relação caridade e religião.

                      Crise das pastorais sociais não seria uma crise de identidade e crise da caridade?

 

Diálogo intra-eclesial

                      Diálogo intra-eclesial: dentro da Igreja, porém não sem tensões.

                      Sinfonia possível: metáfora utilizada por B. Haring.

                      Um só coro, composto por muitas e diferentes vozes que canta sob a regência de um único Maestro: o Espírito Santo de Deus. Ele dá o tom, as entradas, marca os tempos, os compassos, conduz o andamento da melodia.

                      São vozes diferentes que se respeitam e se escutam, algumas vezes marcadas por tensões.

                      O coro pode, também, ter um repertório variado que atenda as várias ocasiões e solicitações. A única coisa que deve ser garantida é a harmonia.

                      Uma sinfonia completamente perfeita está reservada para a eternidade, mas, aqui, tudo deve ser feito para tornar sempre e cada vez mais bela e agradável a sinfonia possível.

 

Modernidade Líquida

 

                      O contexto pós-moderno é denominada por Z. Bauman de líquido, ou seja, os vínculos e empenhos são dissolvidos ou facilmente esquecidos. Um período de ambivalência e instabilidade, marcado pela falta de fundamentos e solidez.

                      Constata-se que ser líquida é o caráter principal da sociedade ocidental contemporânea. Para Bauman “os fluídos são assim chamados porque não conseguem manter por longo tempo uma forma, continuam a mudar a forma sob a influência de qualquer mínima força”. Nesse sentido, a solidez, tradicional atributo da modernidade, parece experimentar grave crise. Assim, na sociedade líquida de Bauman, sem forma e identidade, as propostas e respostas que exigem compromisso, constância e renúncias não são bem-vindas.

 

Incidências na Igreja

                      De outro lado, a Igreja, continuadora da missão de Cristo no mundo, não está imune ao perigo de se tornar líquida. Se ela não for atenta aos sinais dos tempos e questões que afligem ao homem concreto, situado numa realidade concreta (lugar social) e que espera respostas a questões concretas, se desconsiderar a opção pelos pobres, deixando de tê-los como princípio inspirador, se não se posicionar ao lado das vítimas e dos fracos com coragem profética e “parresia” (vigor destemido), corre o risco de se tornar uma Igreja líquida e “morna” (cf. Ap 3,15-16), sem opções claras e convicções: “na busca de respostas, não esquecer as opções fundamentais”, alerta a Igreja do Brasil.

Fidelidade às grandes causas

                      Quando se dilui a mensagem sólida e transformadora de Cristo, dilui-se também, de certo modo, a Igreja de Cristo. Portanto, toda ação eclesial deve necessariamente coincidir com a sólida proposta apresentada pelo Redentor do Mundo. Caso contrário, não será possível a “obrigação de dar frutos no amor para a vida do mundo” (OP, 16). Uma Igreja líquida, assim como um homem líquido vem ao encontro dos interesses da “sólida” estrutura de pecado. O líquido não impõe limite ou resistência ao sólido. Solidez se combate com solidez, ou seja, com a proposta e critérios libertadores de Cristo. O homem, desde a Criação, não é líquido. É Adão, ou seja, “terra (terreno)”, vinculado a um horizonte concreto e sólido.

 

Alteridade: pessoa ser de relação

O primeiro e fundamental passo é reconhecer que o próximo é o “outro” diferente de mim.
O outro e o seu rosto é o “próximo” no sentido bíblico-teológico.

                      Uma poesia de Antonio Machado exprime muito bem este conceito: “Cristo ensina: amarás o teu próximo como a ti mesmo, mas nunca esqueças que é outro”.

 

Bom Samaritano

                      A Parábola do Bom Samaritano (cf. Lc 10,25-37), que marcou profundamente a consciência cristã, coloca em evidência a prioridade do outro e oferece uma mudança chave de perspectiva: do eu para o tu.

G. Gutierréz elaborou uma reflexão oportuna acerca deste tema. Diante da pergunta “quem é o meu próximo?” Jesus coloca uma outra questão: “quem foi o próximo daquele que precisava de ajuda?” Jesus desloca seu interlocutor para o mundo da vítima. “Estamos defronte a um deslocamento que vai do eu ao tu, do meu mundo ao mundo do outro. Este é o movimento que constitui o coração da parábola. Da concepção do próximo como objeto, destinatário da minha ajuda, passa-se a uma relação de reciprocidade, que vê o pobre como sujeito da ação de proximidade”

                      Gutiérrez alerta que o personagem central do texto não é o samaritano, mas a pessoa ferida, chamada de um homem, sem nome, sem identidade, ou seja, o outro. Mover-se para o outro lado e aproximar-se voluntária e gratuitamente do ferido, sem que ele tenha pedido e com o qual não se tem nenhum tipo de vínculo, significa entrar na estrada e no mundo do outro, em outras palavras, significa fazer-se próximo do outro.

 

Igreja: Comunidade de comunidades

                      “Comunidade implica necessariamente convívio, vínculos profundos, afetividade, interesses comuns, estabilidade e solidariedade nos sonhos, nas alegrias e nas dores”. (Diretrizes, n.59)

                      “No interior da comunidade eclesial, o diálogo é o caminho permanente para a boa convivência e o aprofundamento da comunhão” (Diretrizes, n. 98). A comunidade (koinonia), lugar de relações vitais produz o desejo de servir (diakonia), tornando-se um testemunho (martyria) de amor ao próximo. Três momentos constitutivos de identidade e correlatos. A comunidade desperta e direciona energias pessoais para um objetivo comum (sinergia). A comunidade produz sonhos coletivos, como bem expressou Dom Hélder Câmara: “sonho que se sonha só é somente um sonho, sonho que se sonha junto torna-se realidade”.

 

Considerações finais

 

                      A fé cristã implica defender, conservar e promover a vida humana, para que ela seja digna de homem. Trata-se de colocar “a vida em primeiro lugar” e assumir, simultaneamente, a responsabilidade moral pela vida que nos foi confiada pelo Criador e redimida pelo Salvador: “o Autor da vida” (At 3,15). Sinergia Biofílica.

                      Depois do evento Cristo não há outra escolha a não ser aquela de escolher a vida (cf. Dt 30, 19).

 

Pastoral Social: quarto programa

                      Entende-se por “pastoral social, no singular, a solicitude de toda a Igreja para com as questões sociais e deve ser uma preocupação inerente a toda ação evangelizadora.

                      Pastorais sociais, no plural, são serviços específicos a categorias de pessoas e/ou situações também específicas da realidade social. Constituem ações voltadas concretamente para os diferentes grupos ou diferentes facetas da exclusão social”. Tem por objetivo “proclamar a Boa Nova do Evangelho entre os mais pobres, através de uma presença, de um alerta, de uma ação social e de uma articulação-parceria”.

 

Igreja samaritana e profética

Hoje, mais do que antes, a sociedade precisa de testemunhos e ações concretas e não de palavras: “a caridade das obras garante uma força inequivocável à caridade das palavras” (João Paulo II). Nesse sentido, urge colocar o acento nas dimensões samaritana e profética da Igreja, através da opção pelos pobres que se atua na solidariedade concreta e crítica.

 

Nova Evangelização

Os instrumentos tradicionais de pastoral não têm sido suficientes. “Não se trata de negar tudo que já foi feito em outras épocas, mas de reconhecer que, nesta mudança de época, é preciso agir com firmeza e rapidez” (Diretrizes, n.34). O objetivo do Sínodo é justamente buscar de modo participativo novos instrumentos e métodos para uma evangelização mais eficaz e frutuosa, passando de uma “pastoral de mera conservação para uma pastoral decididamente missionária” (Aparecida, n. 370). Os Bispos do Brasil em sintonia com o Documento de Aparecida convoca a Igreja nessa nova época para uma “verdadeira conversão pastoral que inspire e estimule atitudes e iniciativas de autoavaliação e coragem de mudar várias estruturas pastorais em todos os níveis, serviços, organismos, movimentos e associações” (Diret. n. 26). Isso implica o seguimento do imperativo dado por Jesus: avancem para águas mais profundas (Lc, 5,4).

 

REALIDADE PLURAL E COMPLEXA

                      A VIDA OU REALIDADE NÃO É PRETA OU BRANCA, É PRETA E BRANCA, Ê CINZA (SÍNTESE).

                      Eu sou do e, e e e... e não do ou, ou ou ou...

                      Acolher as diferenças e integrá-las.

                      50 tons de cinza...

                      O que somos?

                      O que queremos ser? Melhores!

                      O que as pessoas querem que sejamos enquanto Igreja?

                      O ideal continua como meta e referência. Dar passos e passos constantes e progressivos. Estar a caminho... Que o Senhor nos encontre neste caminho.

                      Vem Senhor Jesus!

 

FICA CONOSCO SENHOR!!!

Obrigado!

                      Profícuo tempo de Advento!

                      Feliz Natal!

                      Abençoado e frutuoso 2013!

                      Sigamos tocando em frente, com o olhar da fé, em pé, ainda que aos pés da Cruz, como Maria nossa Mãe Maior.

Pe. Ricci