Palavra do Bispo
“Jesus fez tudo bem feito”

            No Evangelho de hoje - Mc 7,31-37 – o evangelista Marcos conta mais um milagre realizado por Jesus: Ele se apiedou de um homem surdo e mudo e o curou mediante um ritual em que tocou com seus dedos os ouvidos do homem, passou o cuspe e a saliva na língua dele e pronunciou a palavra “Effatá”, do grego, que quer dizer ‘abre-te’. Marcos afirma, ao fim, que as pessoas ali reunidas em multidão “Muito impressionadas, diziam: ‘Ele tem feito bem todas as coisas: aos surdos faz ouvir e aos mudos falar’”.

            Já dissemos mais de uma vez que Marcos escreveu o seu Evangelho para, antes e acima de tudo, mostrar quem é Jesus Cristo e, depois, quem somos nós, os cristãos. Narrando mais este milagre, Marcos demonstra de novo o poder e a glória de Jesus. Ele vem narrando que em Jesus realiza-se a recriação do mundo, nEle se renova a face da terra e é chegado o dia da salvação. Mais uma vez, com esse milagre, ele mostra que Jesus Cristo é o Messias, o Salvador. Enfim, este Jesus veio para restaurar a vida de todos nós e fazer-nos criaturas novas, dar a nossos olhos e ouvidos capacidades para ver e ouvir, aos nossos corações, as qualidades do sentir com os sentimentos de seu coração, às nossas cabeças, os dons do Espírito para bem pensar e discernir as coisas que são de Deus e às nossas vontades, a coragem e firmeza para caminhar na prática do bem, da justiça e da paz. Desse novo milagre pode-se concluir que, se quisermos seguir Jesus, como seus discípulos, precisamos estar com os ouvidos abertos na escuta da Palavra, ter a voz clara para a profissão e anúncio da fé, enfim, possuir corpo sadio e alma purificada para caminhar na vida fazendo o bem. Precisamos deixar-nos transformar pela graça de Cristo, porque sem Ele nada podemos fazer de bom.  

            Na Igreja, setembro é o mês da Bíblia, isto é, dedicado à Bíblia para que a Palavra de Deus seja amada, meditada, vivida e divulgada entre nós na Igreja e na sociedade.

            Desde o nosso Catecismo aprendemos que a verdadeira fé em Deus nós a encontramos na Sagrada Escritura e na Tradição viva da Igreja. O Concílio vaticano II, na “Dei Verbum” (A Palavra de Deus), assim conclui: n. 9-“Portanto, a Sagrada Tradição e a Sagrada Escritura estão estreitamente relacionadas entre si. Derivando ambas da mesma fonte divina, formam como que uma coisa só e tendem ao mesmo fim. Com efeito, a Sagrada Escritura é Palavra de Deus enquanto foi escrita por inspiração do Espírito Santo; a Sagrada Tradição, por sua vez, transmite integralmente aos sucessores dos apóstolos a Palavra de Deus, confiada por Cristo Senhor e pelo Espírito Santo aos apóstolos, para que os sucessores destes, com a luz do Espírito de verdade, a conservem, a exponham e difundam fielmente na sua pregação; por consequência, não é só da Sagrada Escritura que a Igreja tira a sua certeza, a respeito de todas as coisas reveladas. Ambas devem portanto ser recebidas e veneradas com igual afeto de piedade. n.10- A Sagrada Tradição e a Sagrada Escritura constituem um só depósito sagrado da Palavra de Deus, confiado à Igreja; mantendo-se fiel a este depósito, todo o povo santo, unido aos seus Pastores, persevera assiduamente na doutrina dos apóstolos, na união fraterna, na fração do pão e nas orações (cf.At2,42), de tal modo que, conservando, praticando e professando a fé transmitida, haja singular unidade de espírito entre os Pastores e os fiéis. Porém, o múnus de interpretar autenticamente a Palavra de Deus escrita ou contida na Tradição só foi confiado ao Magistério vivo da Igreja, cuja autoridade é exercida em nome de Jesus Cristo. Este Magistério não está acima da Palavra de Deus, mas sim ao seu serviço, ensinando apenas o que foi transmitido, enquanto, por mandato divino e com a assistência do Espírito Santo, ouve a Palavra de Deus com amor, a guarda com todo o cuidado e a expõe fielmente, e neste depósito único da fé encontra tudo quanto propõe para se crer como divinamente revelado. É claro, portanto, que a Sagrada Tradição, a Sagrada Escritura e o Magistério da Igreja, segundo o sapientíssimo plano de Deus, estão de tal maneira ligados e unidos que uma coisa sem as outras não se mantém, mas juntas, cada uma a seu modo, sob a ação de um só Espírito Santo, colaboram eficazmente para a salvação das almas”.

            Como sabemos, a Bíblia é o livro por excelência, um best-seller imbatível, o mais difundido e o mais lido no mundo inteiro, traduzido em 1.800 línguas e impresso em milhões de exemplares. Por quê? Porque a Bíblia é o livro de Deus, isto é, que tem Deus como autor principal e, mesmo escrito em linguagem humana por pessoas, é por Deus inspirado. A palavra Bíblia vem do grego e significa “livros”. A Bíblia é uma coleção de livros escritos no espaço de dez séculos, em diversos ambientes e por várias pessoas; ela, por conseguinte, se apresenta em diferentes gêneros literários, como narrativas, poesias, salmos, profecias, provérbios, códigos de leis, cartas, discursos, evangelhos. A Bíblia é dentre todos os livros do mundo o mais belo, o mais sábio, o mais importante. Pois ela fala da história do amor de Deus pela humanidade. “A Bíblia é a carta do amor de Deus dirigida a nós” (Kierkegaard).  É do Salvador, Jesus Cristo, que a Bíblia fala (Lc 24,27), nEle se realiza tudo o que a Bíblia anuncia, e é, por isso, que a Igreja faz suas as palavras de São Jerônimo que disse: “Ignorar as Escrituras é ignorar Jesus Cristo”. De Jesus sabemos quem é Deus, a vida, a morte e o ser humano. De São Jerônimo são também estas palavras: “Com Deus falamos quando rezamos, e a Ele ouvimos quando lemos as Sagradas Escrituras”.

            Por conseguinte, se desejarmos crescer na vida espiritual, precisamos permanecer assíduos na oração e na escuta da Palavra de Deus; estes são os exercícios espirituais por excelência para nos prender cativos no diálogo com Deus: a oração para falar com Ele e a Bíblia para ouvi-Lo.