Material Formativo
Material Formativo do Frei Alberto Beckhauser (Paróquia Santo Antônio)
Frei Alberto Beckhauser

O RITO DA MISSA:

TEOLOGIA E ESPIRITUALIDADE

DO RITO DA MISSA NO SEU TODO

 

Frei Alberto Beckhäuser, OFM

 

Introdução

 

O assunto abordado neste trabalho é fundamentalmente a Teologia e espiritualidade da Eucaristia. Mas, está ligado a um aspecto especial: O Rito da Missa. Mais especificamente, quer abordar o tema do rito ou da ritualidade na Sagrada Liturgia. Por isso, antes de falar da Teologia e da Espiritualidade subjacentes ao Rio da Missa, temos que tratar de alguns pressupostos como o conceito de celebração, a natureza do rito, a participação ativa e a teologia litúrgica.

 

I. ALGUNS PRESSUPOSTOS

 

Hoje se reconhece que a Liturgia constitui a Theologia prima, a Teologia primeira. Antes que houvesse tratados de Teologia os cristãos aprofundavam a fé celebrando-a na Sagrada Liturgia. Esta metodologia teológica está sendo redescoberta nos nossos dias, não só em relação aos sacramentos, mas em toda a Teologia. Trata-se de refletir sobre a fé cristã a partir dos ritos celebrativos. Isto se está praticando particularmente em relação à Eucaristia.

Para abordarmos a teologia e a espiritualidade subjacentes ao Rito da Missa importa clarear alguns conceitos.

 

1. Celebração

A Sagrada Liturgia é compreendida a partir do conceito de celebração. Importa, pois compreender o que seja celebração.

O Concílio Vaticano II, na constituição Sacrosanctum Concilium, descreve assim a Sagrada Liturgia:

Com razão, pois, a Liturgia é tida como o exercício do múnus sacerdotal de Jesus Cristo, no qual, mediante sinais sensíveis, é significada e, de modo peculiar a cada sinal, realizada a santificação do homem; e é exercido o culto público integral pelo Corpo Místico de Cristo, Cabeça e membros (SC 7).

O Catecismo da Igreja Católica aborda a compreensão da Liturgia à luz do conceito de celebração. É a “Celebração da fé cristã” ou a “Celebração do Mistério pascal”.

Para compreendermos a natureza da Liturgia é fundamental a compreensão das noções de celebração, de mistério, de páscoa e de símbolo.

Isso, porque a Liturgia como celebração compreende três elementos constitutivos: o fato valorizado ou páscoa, a expressão significativa, ou rito simbólico e a intercomunhão solidária ou mistério.

Celebrar é tornar célebre, famoso. Para tornar alguém famoso é preciso torná-lo conhecido, fazer memória dos seus feitos, trazê-los ao presente, comemorar.

Nesta abordagem trataremos rapidamente primeiro do mistério e depois da páscoa e por fim do símbolo.

 

2. O mistério

O grande liturgista Odo Casel define a Liturgia como sendo o Mistério do Culto de Cristo e da Igreja.

Então, para chegarmos a uma compreensão adequada do que seja a Liturgia é importante aprofundar o conceito de mistério.

Quando se fala em mistério, num primeiro momento, pensa-se logo em algo desconhecido, oculto, que não se pode entender. Este aspecto está sempre presente. Se abrirmos o Pequeno Dicionário da Língua Portuguesa, percebemos que mistério contém dupla conotação: o oculto, o secreto, o inatingível pela razão humana e, por outro lado, o rito, como expressão do culto.

A palavra mistério vem do grego “myo”, “mystérion”. “Myo” significa estar fechado, estar cerrado, ou fechar-se cerrar-se. Mas só de algo que pode ser descerrado, aberto. Assim, a porta, os olhos, a boca. Temos, pois, o elemento fechado, oculto, mas que pode ser revelado, comunicado.

O termo mistério tem origem no chamado culto dos mistérios do mundo mediterrâneo, da cultura helenista (da Grécia). Na origem desse culto encontra-se o mito, que tenta trazer à memória um fato valorizado, ou seja, a vida quer da natureza, quer do ser humano.

Para melhor compreendermos, vejamos o mito de Elêusis:

Coré, jovem moça, é raptada por Plutão, o deus dos abismos, que a faz sua esposa. Demetra, mãe de Coré, considerando morta sua filha, quer vingar-se, destruindo tudo por onde ela passa. Aparece, então, Hermes, que, no carro de Plutão, arrebata Coré de seus braços e a restitui à sua mãe. E tudo revive. Mas, pelo fato de Coré ter-se tornado esposa de Plutão, doravante ela terá que viver duas terças partes do ano debaixo da terra e uma terça parte do ano sobre a terra.

Este mito quer interpretar um fenômeno da natureza, ligado à vida, a sorte anual da semente lançada à terra antes do inverno. Este ciclo repete-se a cada ano. Os povos primitivos compreenderam muito cedo que este mito podia expressar também um fenômeno humano: a crença da vida feliz após a morte.

Ora, o rito através do qual era representado vivamente o mito era chamado mistério. O mistério é, pois, o mito representado por um rito. O rito é mistério porque ao mesmo tempo oculta e revela algo. Neste caso, revela o mito e leva a uma vivência do mito. Estabelece-se uma relação, uma comunhão com a divindade através do rito memorial do mito.

Na compreensão da revelação positiva, o mistério se revela, o mistério se realiza, onde se estabelece uma intercomunhão ou simplesmente uma comunhão divina de amor e de vida: o mistério de Deus Trino e Uno. O mistério se realiza também, onde o divino e o humano se encontram, se tornam um, como no Mistério da Encarnação, que então é chamado mistério de Cristo. Depois, em todo ser humano criado à imagem e semelhança de Deus. Lá onde Deus e o ser humano se encontram na vida e no amor, onde se tornam um, onde convivem no amor, aí se realiza o mistério. Lá onde pessoas humanas convivem em Deus no amor, aí se realiza também o mistério.

Este convívio realiza-se de modo sacramental, quando a Igreja comemora os mistérios de Cristo, atualizando-os desta forma no que chamamos de mistério do culto, a Liturgia.

 

3. Páscoa

Na História da Salvação que tem o seu impulso inicial em Abraão, atingindo depois uma família (Jacó) e um povo (o Povo de Israel), passamos do mito para o evento salvífico, o fato valorizado da intervenção de Deus, que por sua vez é celebrado.

Trata-se aqui de saber o que se celebra. Toda celebração tem como conteúdo um fato valorizado, que também pode ser chamado páscoa.

Páscoa significa passagem. Não qualquer passagem, mas passagem de uma situação para outra melhor, por ação de Deus.

Podemos distinguir entre a páscoa-fato e a páscoa-rito ou páscoa vivida no rito.

1) Páscoa-fato e páscoa-rito na experiência religiosa do Povo de Israel

Para compreendermos o que seja páscoa é bom recorrer à experiência do Povo de Israel, descrita no Livro do Êxodo.

Páscoa-fato: - Temos na história do Povo de Israel um fato fundamental, fundante de sua identidade como povo de Deus: a passagem de Deus, fazendo com que o Povo eleito pudesse passar da escravidão à liberdade, da morte para a vida, de não povo a povo. Páscoa para o povo de Israel é todo o processo da ação de Deus em favor do seu povo, desde a libertação do Egito, a passagem pelo mar Vermelho, e aliança no Sinai, até a tomada de posse da terra prometida onde corre leite e mel, o retorno ao paraíso.

A passagem é dupla: Deus passa libertando, salvando e fazendo aliança e o povo passa, sendo libertado, sendo salvo, respondendo à proposta de aliança.

Assim, a páscoa-fato do povo de Israel tem dois pontos altos que podemos chamar de Páscoa da libertação do Egito, centrada na passagem pelo mar Vermelho (Ex 15-19), e a páscoa da Aliança aos pés do monte Sinai, proposta no Cap. 19, 3-8 e ratificada no Cap. 24,3-8.

Páscoa-rito: A páscoa rito consiste na celebração da páscoa-fato ou na comemoração da páscoa-fato, tornando presente no memorial celebrativo a páscoa-fato e, dessa forma renovando-a sempre de novo. Temos assim na experiência religiosa do Povo de Israel, a celebração anual da Páscoa, na Ceia pascal na festa de primavera, a celebração semanal da Páscoa, no culto sinagogal sabático e a celebração diária da Páscoa, na oração de ação de graças, do Louvor vespertino e no Louvor matutino, o xemá vespertino e o xemá matutino.

2) Páscoa-fato e páscoa-rito no Novo Testamento, em Cristo

O que foi prefigurado no Antigo Testamento, realiza-se em plenitude no Novo Testamento em Cristo Jesus.

Páscoa-fato no Novo Testamento: - A grande e definitiva passagem de Deus por este mundo, passagem libertadora e da nova e eterna Aliança é Cristo, no mistério da Encarnação, Vida, Paixão-Morte, Ressurreição e Ascensão aos Céus.

Páscoa-rito no Novo Testamento: - Páscoa-rito cristão é a celebração da Páscoa-fato, centrada no mistério pascal de Cristo de sua Paixão-morte e Ressurreição salvadoras em todos os seus desdobramentos.

 

4. O símbolo

Chegamos agora ao terceiro elemento de uma celebração, ou seja, à sua expressão significativa que se dá pelo rito como expressão significativa do fato celebrado.

Primeiramente, nos devemos perguntar o que é o símbolo.

Simbólico, aqui, não é sinônimo de aparente ou irreal. Trata-se do símbolo no sentido forte original. É a mesma realidade em outro modo de ser.

Um exemplo pode ilustrar o que seja um símbolo. O mais clássico é o bastão usado em contratos comerciais no mundo grego. Quando dois comerciantes fechavam um contrato, tomavam um bastão ou uma vara e o quebravam em duas partes, levando cada um uma parte consigo para casa. Quando novamente se encontravam para cumprir o contrato, cada um trazia a parte do bastão e uniam as duas partes. Esta ação de unir as duas partes do bastão era chamada “symbolon” do verbo “syn-ballo”, laçar junto, unir.

Ora, cada parte contém e oculta a outra; revela e comunica a outra. Uma está na outra, embora de outra forma.

Assim, o símbolo contém, oculta, revela e comunica ao mesmo tempo o mistério. Ou, ainda, o símbolo é a linguagem ou a comunicação do mistério. Símbolo e mistério podem ser distinguidos, mas não separados.

A Liturgia realiza-se, toda ela, através de sinais sensíveis e significativos, através de símbolos, no sentido forte do termo. Quando não se vive o sentido profundo do símbolo, cai-se no ritualismo.

 

5. O rito

Uma palavra sobre a noção de rito.

 

5.1. A natureza do rito: - Trata-se de abordar os elementos que podem constituir a expressão significativa dos mistérios celebrados ou, como diz a Sacrosanctum Concilium, os sinais sensíveis e significativos do múnus sacerdotal de Jesus Cristo (cf. SC 7).

Tudo o que é humano pode servir de sinal sensível e significativo do sagrado, da ação sacerdotal de Cristo Jesus. Sendo sinais sensíveis e significativos, eles são sinais simbólicos.

Um simples sinal simbólico já pode constituir um rito, mas de modo geral, o rito é formado de um conjunto de sinais simbólicos. Todo o rito, por sua vez, é simbólico.

O rito deve ser compreendido em diversos níveis ou extensões ou amplitudes. Pode ser um sinal sensível e significativo ou uma simples ação, como o sinal da cruz. Um conjunto de sinais sensíveis e significativos constitui um rito no sentido mais amplo, como, por exemplo, o rito de abertura de uma celebração, o rito da celebração da Palavra de Deus, o rito sacramental (liturgia eucarística), os ritos finais. Depois, toda uma celebração também é chamada rito, como o Rito do Batismo, da Eucaristia.

 

5.2. As características do rito: - O rito por sua natureza é ordenado, vem prefixado. É repetido sempre da mesma forma. Exige que seja conhecido e mesmo familiar. O rito é caracterizado também por certo ritmo. Podemos dizer que é uma ação ordenada pelo ritmo, como um rio que mana ordenadamente num leito em direção ao mar, ao oceano, estando já lá na fonte em comunhão com o mar. O rito, por um lado, é fixo (o leito do rio) e por outro lado é dinâmico, é ação (a água que flui). Por isso, ele exige um determinado tempo em sua execução. É o tempo do rito que não pode ser interrompido. Para que seja significativo o rito deve ser familiar, conhecido e repetido. As pessoas deixam-se conduzir pelo ritmo do rito.

Dizem os estudiosos que as palavras rio (rivus em latim) e rito brotam de uma mesma raiz. Poderemos, então, comparar o rito com um rio. Por um lado temos o leito fixo, determinado e por outro lado temos o caudal de água que é dinâmico e segue o seu curso. A água do rio lá perto da fonte está unida ao lago, ao mar ou ao oceano infinito. Pensemos agora no rito como linguagem ou comunicação do mistério. Quando no início do rito a assembleia celebrante, por exemplo, faz o sinal da cruz, ela mergulha no mistério, entra em comunhão com Deus, pois o rito contém, oculta, revela e comunica o mistério.

Na Liturgia o rito terá um conteúdo humano-divino, abrangendo a totalidade do mistério. Na medida em que expressa essa realidade de comunhão divino-humana é que ele constitui um sinal litúrgico.

O próprio estudo da Liturgia consiste, sobretudo, em descobrir o sentido dos sinais, dos ritos, sejam eles elementos da natureza, gestos, textos ou outros. Iniciar na experiência de Deus pela Liturgia é, sobretudo, introduzir as pessoas no conteúdo ou sentido dos sinais, ajudá-los a perceber os mistérios contidos nos símbolos, nos ritos; é adquirir uma compreensão da dimensão simbólica dos sinais litúrgicos, dos ritos.

 

6. A Liturgia não nos pertence

A Liturgia é obra de Deus, obra da Santíssima Trindade (Opus Trinitatis) como afirma no Novo Catecismo da Igreja Católica. Trata-se de viver os mistérios celebrados. O caudal de água e o leito do rio nos são dados por Deus.

O Cardeal Danneels, arcebispo emérito de Bruxelas e Malinas, afirma que a Liturgia nos supera infinitamente. Ela é dom de Deus; é obra de Cristo, a obra da salvação e da glorificação de Deus realizada por Jesus Cristo. Sendo obra de Jesus Cristo, o Verbo de Deus encarnado, pode ser chamada também obra da Santíssima Trindade. Por isso, a Liturgia não nos pertence. Não nos podemos apropriar dela, mas deixar-nos possuir por ela. Não nos cabe conduzi-la, mas deixar-nos conduzir por ela.

Devemos, pois, deixar o rito ser rito, devemos respeitar o rito e dar vida a ele, transformando-o em oração. Devemos mergulhar no oceano, mergulhando nas águas do rio. Mergulhar em Deus dando vida ao rito.

 

7. Participação ativa

Participar quer dizer “tomar parte”, ter parte, ser participante. Participação da Liturgia significa tomar parte da Liturgia como um todo, daquilo que ela realmente é, não apenas de sua expressão significativa ou dos ritos, na expressão externa.

O que o Concílio pede é uma participação eficaz e frutuosa. Para que seja eficaz e frutuosa é preciso que seja uma participação consciente, ativa e plena (cf. SC 14). Infelizmente a assembleia litúrgica toda ela celebrante ou participante da Liturgia frequentemente está se transformando numa plateia show ou de espetáculo, que nada tem a ver com participação da Sagrada Liturgia.

No Brasil houve uma forte tendência de reduzir-se a participação ativa à participação falada, à participação oral. Existe falação demais na Liturgia.

Trata-se de viver os mistérios celebrados com todas as faculdades da pessoa como a inteligência, a vontade e os sentimentos. E a participação deve ser de corpo inteiro, isto é, com todos os sentidos.

Assim, a gente participa ativamente pelo ouvido, na escuta da Palavra de Deus, acompanhando, em silêncio, as orações presidenciais, ouvindo um canto a mais vozes. A participação ativa se dá também pela linguagem da vista, acompanhando os gestos, as procissões, deixando-se envolver pela arte da cor, pelo espaço celebrativo, transformando-os em oração, em comunicação com o sagrado, com Deus, por Cristo, no Espírito Santo. A participação ativa realiza-se também pelo paladar, pelo gosto: comer, beber. Realiza-se por ações como beijar, tocar, deixar-se tocar, impor as mãos. Depois, pelo olfato: os perfumes, o incenso. Realiza-se pelos movimentos, a expressão corporal, a dança religiosa. Pela experiência do espaço e do tempo e mesmo pelo silêncio sagrado. A participação ativa se expressa também pelos diversos serviços e funções exercidas na celebração. Pelas posturas do corpo, como estar assentado, de pé, de joelhos e prostrado.

 

II. O RITO DA MISSA

 

A. A DINÂMICA DA CELEBRAÇÃO

Toda celebração do mistério pascal segue certo roteiro com uma dinâmica interna, particularmente a Missa.

- Toda celebração parte de uma reunião de pessoas, uma reunião convocada por Deus a partir da fé. Forma-se a Igreja, a adunatio, a ecclesia, a sinagogué (sinagoga).

- Num segundo momento temos a Proposta de Deus. Deus fala. Na celebração cristã temos o Rito da Palavra de Deus. Deus fala e a assembleia põe à escuta.

- Vem então a resposta do povo reunido ou da assembleia. Resposta que pode ser de admiração, de adoração, de pedido de perdão, de conformidade, de ação de graças, de pedido, de intercessão.

- No seguinte momento Deus age, Deus abençoa, Deus santifica. Acontece o sacramento.

- Finalmente, o povo abençoado e chamado e enviado a abençoar.

Na Missa se sucedem: Ritos iniciais ou de abertura; Leitura da Palavra de Deus; Homilia; Oração dos fiéis; Liturgia eucarística e Ritos finais.

 

B. RITOS INICIAIS E RITOS FINAIS

 

Ritos iniciais ou de abertura e ritos finais ou de encerramento costumam emoldurar qualquer celebração. Na Missa eles não possuem a mesma importância da Liturgia da Palavra e da Liturgia eucarística, mas introduzem no mistério celebrado e enviam para vivê-los no dia-a-dia.

 

  1. Ritos iniciais: Formar assembleia

Reunir-se em assembleia já constitui um rito comemorativo, um ato de culto, uma forma de oração.

A assembleia litúrgica é muito mais do que um simples aglomerado de pessoas. Assembleia é antes um povo convocado por Deus para responder à sua Palavra em atitude de fé.

Todo encontro importante de uma comunidade civil ou religiosa inicia por um rito de abertura. Pensemos numa olimpíada, num campeonato mundial de futebol, numa ópera, num jantar, num Concílio, numa Assembleia diocesana. A finalidade deste rito de abertura é dispor os ânimos para o encontro, unir a comunidade, introduzir as pessoas no motivo do encontro.

A Missa não é uma reunião qualquer. Os cristãos são convocados por Deus presente em suas vidas através da fé.

“Os ritos que precedem a Liturgia da Palavra, isto é, entrada, saudação, ato penitencial, Kyrie, Glória e oração do dia, têm o caráter de exórdio, introdução e preparação.

Sua finalidade é fazer com que os fiéis, reunindo-se em assembleia, constituam uma comunhão e se disponham para ouvir atentamente a Palavra de Deus e celebrar dignamente a Eucaristia (n. 46).

A assembleia não se reúne em nome próprio, mas em nome da Santíssima Trindade: Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Mergulha no mistério da Santíssima Trindade através do mistério da Cruz de Cristo. Esta presença do Senhor é significada também através da saudação: “A graça de nosso Senhor Jesus Cristo, o amor do Pai e a comunhão do Espírito Santo estejam convosco”. A assembleia reconhece que está reunida em Cristo e por Cristo. Por isso, alegra-se e dá graças: “Bendito seja Deus que nos reuniu no amor de Cristo”.

A gente nunca chega a refletir o bastante sobre a profundidade desta saudação. A assembleia é mergulhada no mistério de Cristo, no mistério da Santíssima Trindade, no próprio Deus. A assembleia mergulha no leito do caudal divino do mistério. Neste momento ela se torna Igreja, o sacramento da Santíssima Trindade. Comunidade de filhos de Deus, de irmãos em Cristo, ela reflete a unidade de natureza e a pluralidade de pessoas em Deus. O Senhor está presente: o amor do Pai, a graça do Filho, a comunhão do Espírito Santo. É o Corpo de Cristo que se forma.

Constituir uma assembleia cristã não é um ato qualquer, mas um ato de culto. É Deus mesmo que a reúne. É a Igreja que está sendo gerada. A assembleia torna-se a mais excelente epifania da Igreja.

Podemos perceber dois aspectos na reunião da assembleia: primeiro, todas as pessoas que formam a assembleia; segundo as funções na assembleia: O sacerdote presidente, as diversas funções e serviços. Todos, no seu conjunto formam, expressam e testemunham a Igreja, o Corpo de Cristo. A assembleia cristã constitui um sinal, um sacramento do próprio Cristo e da Igreja. Evoca a Igreja, torna presente a Igreja e prefigura a igreja em sua realização plena na parusia. Reunida em Cristo, ela já possui o caráter sacramental pela presença de Cristo, Constitui um rito litúrgico em si mesma. Como consequência, ninguém deveria chegar atrasado à assembleia celebrante.

Para pertencer a uma assembleia cristã não é preciso ser santo. Basa ter recebido a fé da igreja e não a ter renegado publicamente, e ter recebido o batismo ou estar disposto a recebê-lo. A assembleia é, portanto, constituída de pessoas convertidas e em disposição de conversão permanente. É uma reunião de irmãos em Cristo, filhos do mesmo Pai que está nos céus. Não há, portanto, privilegiados, não há elite, não há discriminação. A mesma fé e a mesma disposição de servir aos irmãos tornam todos iguais. Reúne pobres e ricos, todos eles em atitude de pobreza espiritual. Acolhe santos e pecadores, todos em atitude de conversão. Todos eles são santos pelo batismo e todos são pecadores porque ninguém é perfeito. Ser assembleia exige conversão.

A assembleia cristã diferencia-se também de qualquer outro encontro humano pelo modo de participar. Não é plateia, não é galera, onde se assiste, onde se torce, onde há espectadores e atores. Todos atores, todos são “jogadores em campo”. Todos participam ativamente pelas atitudes corporais, pelos gestos, pela oferenda dos dons, pela esmola, pelas respostas ao Sacerdote presidente e, sobretudo, pela participação no canto, nos diálogos e nas orações. Todos realizam ainda tempos de silêncio sagrado e, na Missa, participam do Sacrifício e da Comunhão sacramental. Todos, enfim, participam do Mistério celebrado.

A assembleia cristã expressa, em suma, a atitude de um povo em festa. Ela cria a festa, faz a festa. Festa porque participação da salvação, festa porque uma vivência pascal, festa porque participação da vida de Deus em Cristo Jesus.

 

2. Os ritos finais da Missa

Os Ritos finais como os Ritos iniciais também têm sua importância, sobretudo, porque estabelecem a relação entra a Eucaristia celebrada e a vida cristã como eucaristia.

Quem é abençoado é enviado a abençoar, a ser bênção para o próximo, a ser corpo dado e sangue derramado, a exemplo de Jesus Cristo.

Importa realçar a riqueza do rito da despedida. Despede-se o povo “para que cada qual retorne às suas boas obras, louvando e bendizendo a Deus” (cf. Instr., n. 90b). No fim de cada Missa realiza-se um envio. Os cristãos são novamente enviados em missão. A missão de levar a paz, de levar o Senhor ao próximo, em suas ações, em toda a sua vida. A própria fórmula latina Ite, missa est, parece traduzir esta missão. A missão de transformar da vida numa ação de graças a Deus: Deo gratias! A missão de fazer de vossa vida toda um louvor, um agradecimento, um reconhecimento a Deus, com as vossas boas obras. Ide, vós não fizestes apenas da Missa uma ação de graças a Deus, mas deveis ser na vida uma ação de graças, deveis fazer de toda a vossa vida uma ação de graças, ou se quisermos, viver em ação de graças.

Compreende-se, então, que este momento não é uma mera despedida apressada, mas novo envio para realizar a missão do cristão no mundo, de construir a paz, de impregnar a família, a sociedade, o mundo com o Senhor. Tornar o Senhor presente no mundo, como Ele se tornou sacramentalmente presente na assembleia eucarística e na Comunhão.

 

C. LITURGIA DA PALAVRA

 

1. A Mesa da Palavra

Praticamente não existe celebração na Liturgia cristã onde não se leia a Palavra de Deus. Isso porque antes de tornar presente os mistérios de Cristo, a Igreja os contempla, os evoca. E os mistérios celebrados ela os encontra na Sagrada Escritura e dela os haure.

Por sua palavra Deus continua convocando o seu povo. Por sua palavra o recria. A Palavra de Deus é eficaz ainda hoje. Ainda hoje ela é criativa e convoca para uma resposta de conversão a Deus pela oração e uma atitude de vida de acordo com as exigências da mesma Palavra.

“A parte principal da Liturgia da Palavra é constituída pelas leituras da Sagrada Escritura e pelos cantos que ocorrem entre elas, sendo desenvolvida e concluída pela homilia, a profissão de fé e a oração universal ou dos fiéis. Nas leituras explanadas pela homilia Deus fala ao seu povo, revela o mistério da redenção e da salvação, e oferece alimento espiritual; e o próprio Cristo, por sua palavra, acha-se presente no meio dos fiéis. Pelo silêncio e pelos cantos o povo se apropria dessa palavra de Deus e a ela adere pela profissão de fé; alimentado por essa palavra, reza na oração universal pelas necessidades de toda a Igreja e pela salvação do mundo inteiro” (Instr., 55).

A Instrução Geral do Missal Romano em sua terceira edição típica traz como primeiro elemento da Liturgia da Palavra o silêncio: “A Liturgia da Palavra deve ser celebrada de tal modo que favoreça a meditação; por isso deve ser de todo evitada qualquer pressa que impeça o recolhimento. Integram-na também breves momentos de silêncio, de acordo com a assembleia reunida, pelos quais, sob a ação do Espírito Santo, acolhe-se no coração a Palavra de Deus e se prepara a resposta pela oração. Convém que tais momentos de silêncio sejam observados, por exemplo, antes de se iniciar a própria Liturgia da Palavra, após a primeira e a segunda leitura, como também após o término da homilia” (n. 56).

A Liturgia da Palavra ou mesa da Palavra tem grande valor em si mesma, exigindo a conversão e prepara a Liturgia eucarística ou a mesa do Pão, despertando os motivos da ação de graças e as disposições para o sacrifício.

Devemos lembrar que num primeiro momento da Igreja nascente a Fração do pão era celebrada num contexto de ceia fraterna. Já São Paulo na Primeira Carta aos Coríntios procura corrigir certos abusos que se foram introduzindo. E talvez por causa desses abusos, aos poucos, a ceia fraterna foi sendo substituída pela celebração da Palavra de Des, herdada do culto sinagogal dos judeus celebrado aos sábados. Assim, já em 160, São Justino fala da celebração da Palavra de Deus, seguida da ação de graças e da participação da Ceia eucarística. “Mediante as leituras é preparada para os fiéis a mesa da Palavra de Deus e abrem-se para eles os tesouros da Bíblia” (Instr., n.57).

 

 

2. A sacramentalidade da Celebração da Palavra de Deus

A palavra é certamente um dos meios mais importantes de comunicação entre os seres humanos. Na Sagrada Liturgia ela pode ser Palavra de Deus, as Sagradas Escrituras ou palavra da Igreja expressa nos textos que constituem o que se chama eucologia.

A Sagrada Escritura é a primeira fonte de que a Igreja haure os mistérios que celebra. Ela revela os fatos valorizados, os mistérios de Cristo prefigurados na Primeira Aliança, revelados e realizados em Cristo Jesus e vividos no tempo da Igreja nascente. Nela a Igreja busca os mistérios de Cristo, celebrados os sacramentos; nela busca os mistérios de Cristo, celerados no Ano Litúrgico e nas demais celebrações, como a Liturgia das Horas e as Celebrações de Bênçãos.

A Sacrosanctum Concilium declara:

“Na celebração litúrgica é máxima a importância da Sagrada Escritura. Pois dela são lidas as lições e explicadas na homilia e cantam-se os salmos. É de sua inspiração e bafejo que surgiram as preces, orações e hinos litúrgicos. E é dela também que os atos e sinais tomam a sua significação” (SC 24). Conforme o mesmo documento conciliar os textos bíblicos em si mesmos também constituem sinais memoriais dos mistérios celebrados: “Nunca, depois disso, a Igreja deixou de reunir-se para celebrar o mistério pascal: lendo ‘tudo quanto a Ele se referia em todas as Escrituras’ (Lc 24,27), celebrando a Eucaristia, na qual ‘se torna novamente presente a vitória e o triunfo de sua morte’ e, ao mesmo tempo, dando graças ‘a Deus pelo dom inefável’ (2Cor 9,15) em Jesus Cristo, ‘para louvor de sua glória’ (Ef 1,12), pela força do Espírito Santo” (SC 6).

Antes de atualizar a ação salvadora de Cristo pelo sacramento a Igreja a contempla, a recorda pela leitura das Sagradas Escrituras que, por sua vez, também já possui sua eficácia, em outras palavras, tem caráter sacramental. A Palavra de Deus lida na assembleia celebrante participa da sacramentalidade de toda a Liturgia. Por isso, podemos falar de rito da Palavra.

A Sagrada Escritura é lida quando a Igreja se reúne para celebrar o mistério pascal de Cristo. Em cada celebração a Igreja anuncia o plano de Deus da salvação realizado na História da Salvação. Faz memória da Obra da Trindade Santa, realizada por Cristo e em Cristo.

Fazendo memória ela torna-a presente no hoje da história. A Palavra de Deus se torna atual e eficaz. Pela leitura a Palavra de Deus é celebrada. Não se trata de mera leitura para estudo nem será leitura orante da Bíblia, nem será ocasião para adquirir novos conhecimentos sobre a Bíblia ou a fé cristã. A Palavra de Deus será ouvida na escuta do silêncio nas virtudes da fé, da esperança e da caridade. A palavra de Deus será rezada no silêncio da escuta.

São Francisco de Assis convida os frades a serem ouvintes atentos da Palavra de Deus, a concebê-la em seu coração e devolvê-la a Deus com frutos, ou dá-la à luz por boas obras. A exemplo de Maria, somos chamados a ser servos e servas da Palavra: Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua Palavra. E o Verbo se fez carne e habitou entre nós. Como Maria somos chamados a acolher a Palavra, a conceber a Palavra e fazer com que esta Palavra, o Verbo Jesus Cristo, vá tomando forma em nosso seio, dando-o à luz por boas obras. Importa, pois, acolher ou conceber a Palavra, gestar a Palavra, não se apropriar dela, mas devolvê-la a Deus, tendo frutificado. Daí a importância da introdução ao rito da Palavra, sobretudo na Missa, dispondo a assembleia ao silêncio, a ouvir a Palavra em atitude oração e de resposta.

Sendo atual, viva e eficaz, a Palavra de Deus encontra na assembleia celebrante corações abertos e dispostos. Podemos descobrir quatro momentos em sua eficácia. Primeiramente, quando ela cai em terra boa, atingindo o coração das pessoas, despertando uma resposta na Liturgia e na vida. Depois, na resposta orante da comunidade, seja na profissão de fé, seja nas preces, seja no pedido de perdão. Será sempre uma resposta de conversão a Deus e ao próximo. Em seguida, vemos a eficácia da Palavra na ação sacramental, iluminada pela Palavra de Deus: a ação santificadora de Deus, com a colaboração da fé dos que celebram. E, finalmente, no compromisso de vida cristã no seguimento de Cristo.

 

D. A LITURGIA EUCARÍSTICA

 

Há várias maneiras de abordar o Sacrossanto Mistério da Eucaristia, a Missa. A primeira consiste em abordar a Missa parte por parte. É mais simples, mas corre o rico de se ver a Missa como um conjunto de ritos e se cair no ritualismo. A outra, que prefiro é tratar do Sacrossanto Mistério da Eucaristia em círculos concêntricos a partir do essencial: 1) A Eucaristia como sacrifício memorial de ação de graças (Oração eucarística, consagração); 2) A Eucaristia como Ceia do Senhor, abordando os ritos de preparação da Mesa do Senhor (Rito das oferendas) e a Participação da Mesa do Senhor, os Ritos da Comunhão; 3) O lugar e a importância da Liturgia da Palavra; 4) Ritos iniciais e Ritos finais.

Para conhecermos o mistério, a espiritualidade, que está por trás da Liturgia eucarística temos que analisar os símbolos principais ou os ritos que contêm, ocultam e manifestam o sentido da Liturgia eucarística: a Missa como graças, o que é ação e graças e a Missa como Ceia do Senhor.

Por isso, convém aqui apresentar o artigo 47 da Sacrosanctum Concilium que afirma o seguinte:

Na Última Ceia, na noite em que foi entregue, nosso Salvador instituiu o Sacrifício Eucarístico de Seu Corpo e Sangue. Por ele, perpetua pelos séculos, até que volte, o Sacrifício da Cruz, confiando destarte à Igreja, Sua dileta Esposa, o memorial de Sua Morte e Ressurreição: sacramento de piedade, sinal de unidade, vínculo de caridade, banquete pascal, em que Cristo nos é comunicado em alimento, o espírito é repleto de graça e nos é dado o penhor da futura glória (SC 47).

Portanto, a Missa nos é apresentada como Sacrifício de ação de graças e como banquete pascal, ou Ceia do Senhor.

 

1. A Missa como ação de graças

 

1.1. O que é mesmo ação de graças?

São Paulo diz que devemos em tudo dar graças, pois esta é a vontade de Deus para conosco em Cristo Jesus (cf. 1Ts 5,18). Percebemos que em suas orações em geral Jesus rende graças ao Pai. Nos milagres da multiplicação dos pães e peixes Jesus rende graças como o fez também na última Ceia, quando tomou o pão e depois de ter dado graças, o partiu e o deu a seus discípulos, dizendo: Isto é o meu corpo dado por vós. Ação de graças, oração eucarística ou simplesmente eucaristia é a tradução da palavra hebraica berakah.

Para compreendermos o que seja berakah ou ação de graças, convém recorrermos a uma passagem do livro do Gênesis. No capítulo 24 lemos uma página maravilhosa onde encontramos uma oração eucarística. Sara havia morrido. Abraão, avançado em idade, estava preocupado com o futuro de seu filho Isaac. Pediu, então, ao servo mais antigo da casa que fosse à terra dos seus antepassados buscar uma jovem que se tornasse esposa de seu filho Isaac. O servo partiu com as mãos cheias das riquezas de Abraão. Mas, como haveria ele de reconhecer a jovem que fosse a escolhida para esposa do filho do seu senhor? Pediu, então, que Deus lhe manifestasse a sua bondade, dando-lhe um sinal pelo qual reconhecesse a donzela. O sinal de reconhecimento aconteceu: a jovem dando de beber do seu cântaro ao servo e a todos os camelos.

Qual a reação do servo de Abrão diante da manifestação da bondade de Deus? “O servo inclinou-se diante do Senhor. Bendito seja, exclamou ele, o Deus de Abraão, meu senhor, que não faltou à sua bondade e à sua fidelidade. Ele conduziu-me diretamente à casa dos parentes de meu senhor” (Gn 24,26-27). Eis aqui uma ação de graças, uma oração eucarística, uma eucaristia ou berakah.

Quais os seus elementos? Temos antes de tudo um fato maravilhoso, uma bênção, um benefício, um dom, uma graça alcançada, manifestação da bondade de Deus. Depois, a admiração. O servo inclina-se diante do Senhor. Esta admiração manifesta-se pela exclamação e a aclamação: “Bendito seja o Senhor, o Deus de Abrão, meu senhor”. Segue-se o motivo ou a razão da admiração e da exclamação. “Ele não faltou à sua bondade e à sua fidelidade”. Proclama, então, o fato, narra o acontecimento, o benefício, a bênção recebida. “O Senhor conduziu-me diretamente à casa dos parentes de meu senhor”.

Temos, pois, o fato maravilhoso, a admiração, a exclamação-aclamação e a proclamação dos benefícios recebidos. Nas orações de ação de graças, em geral, temos ainda o pedido, para que Deus renove suas maravilhas, e o louvor final. Uma oração com tais elementos é chamada berakah e, em português, ação de graças ou oração eucarística ou, simplesmente, eucaristia.

 

1.2. Quem dá graças a quem?

A partir da riqueza da ação de graças, que vimos na exposição anterior, lançamos agora a pergunta: afinal, quem dá graças a quem? Tomemos a pergunta bem literalmente: quem comunica a graça, o bem, a bênção a quem? Quem é fonte de bem para quem?

1. Deus dá graças a Deus mesmo Sim, o mistério da Santíssima Trindade é um mistério eucarístico. A Eucaristia encontra sua fonte no próprio coração de Deus. São Boaventura diz que Deus não podia ser somente uno. Deus é o bem. Ora, é próprio do bem comunicar-se. No mistério do amor infinito e eterno, desde toda a eternidade, o Pai se dá totalmente ao Filho. O Filho, por sua vez, dá-se totalmente ao Pai. E da comunhão de amor do Pai e do Filho procede o Espírito Santo, dom do Pai e do Filho. Assim, toda Eucaristia celebrada pela Igreja constitui um reflexo, uma centelha da Santíssima Trindade.

2. Deus dá graças ao homem e a toda a natureza criadaPrimeiramente, comunicando a natureza divina ao homem, em seu Filho Jesus Cristo, o Deus feito homem, o homem-Deus. Depois, fazendo seu Filho nascer no tempo, da Virgem Maria. Ela é, por excelência, o homem eucarístico, o ser humano eucarístico. Recebe o dom por excelência, o próprio Deus e o dá aos homens. Enfim, todos os homens e mulheres, criados à imagem e semelhança de Deus, como companheiros de Jesus Cristo e de Maria no amor e na glória da Deus.

3. O homem dá graças a DeusPor palavras, bendizendo, agradecendo, reconhecendo os benefícios e dando-se a si mesmo a Deus, orientando sua vida a ele, por Cristo, com Cristo e em Cristo.

4. O homem dá graças ao homem O homem, criado à imagem e semelhança de Deus, também é capaz de generosidade, de doação de si mesmo como bênção ao próximo, a exemplo do Deus criador e do Deus redentor. Ele dá e se dá ao próximo, sobretudo através do serviço, do amor fraterno. É enriquecedor considerar a vida cristã como ação de graças ao próximo. Os diversos estados de vida vividos em ação de graças: a juventude vivida na generosidade; a vida matrimonial, a consagração religiosa, o sacerdócio ministerial, o diaconado, a idade madura, o ocaso da existência humana. Pensemos no trabalho como graça transformado em ação de graças a Deus e ao próximo, o estudo, o lazer, o cultivo das artes. Neste serviço ao próximo como lava-pés vivemos a eucaristia como espiritualidade já no nível do humano.

5. O homem dá graças à natureza criadaSim, o homem é chamado a servir à natureza. O problema ecológico dos nossos dias, no fundo, apresenta-se como um problema eucarístico. Na medida em que o homem se nega a servir à natureza, ao ar, à água, ao fogo, às plantas etc., ela é machucada e acaba vingando-se, tornando-se incapaz de servir ao homem.

6. A natureza dá graças à própria natureza Eis o equilíbrio ecológico. Os elementos da natureza oferecem um exemplo de solidariedade.

7. A natureza dá graças ao homem – E como ela é generosa, quando respeitada e servida pelo homem!

8. A natureza dá graças a Deus – Primeiramente por ser manifestação da majestade e da bondade de Deus, e, por meio do homem, estando a seu serviço e sendo objeto de sua ação de graças a Deus.

Vemos assim que toda a realidade constitui uma grande sinfonia de ação de graças.

 

1.3. Jesus Cristo, a Páscoa verdadeira

A páscoa vivida pelo povo de Israel já era uma realidade, enquanto ação libertadora e de aliança de Deus em favor do povo eleito. Mas era, ao mesmo tempo, uma prefiguração ou profecia do que haveria de acontecer na plenitude dos tempos. Em Jesus Cristo dar-se-ia a verdadeira Páscoa, a grande passagem de Deus por este mundo em forma humana. No Filho de Deus feito homem Deus e o homem se encontram, convivem, tornam-se uma só pessoa. No mistério da encarnação Deus arma sua tenda entre os homens: “O Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14).

Páscoa é toda a vida histórica de Jesus Cristo: sua encarnação, manifestação, vida pública, sua paixão-morte, sepultura, ressurreição e ascensão aos céus. Jesus Cristo deixou o Pai e veio a este mundo. E novamente deixa este mundo e volta para junto do Pai (cf. Jo 16,28). Realiza-se, assim, a Páscoa verdadeira. São Paulo afirma: Cristo, nossa Páscoa, foi imolado (cf. 1Cor 5,7).

Em Jesus Cristo, a Páscoa verdadeira, realiza-se a libertação do homem e a nova e eterna aliança com a humanidade no seu sangue. Por isso podemos ver que os Evangelhos ligam a morte redentora de Cristo à páscoa dos judeus. São João chega a afirmar que na hora em que eram imolados os cordeiros no templo, em preparação da páscoa dos judeus, Jesus foi entregue por Pilatos para ser crucificado (cf. Jo 19,13-16). Jesus era visto como a verdadeira Páscoa. João Batista já o havia anunciado desta forma: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29).

A páscoa de Jesus Cristo, como a dos judeus, passa também pela angústia e pela morte. No monte das Oliveiras Jesus pede ao Pai: “Pai, se queres, afasta de mim este cálice; contudo, não se faça a minha vontade mas a tua” (Lc 22,42). A angústia torna-se mais intensa ainda no alto da cruz, quando Ele exclama: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mt 27,46). Mas, percebendo em Deus o seu Pai, encomenda a Ele a sua vida: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46). E diz João que Deus o exaltou na morte (cf. Jo 8,28).

Páscoa é passagem da morte para a vida por obra de Deus, que é a própria vida, que é amor. Isso também se deu em Jesus Cristo, modelo de toda comunhão com Deus.

 

1.4. O esquema básico e o conteúdo da Oração eucarística

O esquema da ação de graças ou berakah judaica pode ajudar a compreender o sentido e o conteúdo da Oração eucarística da Igreja. A Oração eucarística n. 1 ou Cânon romano perdeu bastante deste esquema, esquema que foi reconstituído nas novas Orações eucarísticas, a exemplo das orações eucarísticas dos ritos orientais.

1. Na berakah temos o fato maravilhoso - Os benefícios, as bênçãos ou as graças, em suma, a manifestação da bondade de Deus. Na Oração eucarística da Missa se trata do mistério de Cristo em toda a sua amplitude, resumido em sua morte e ressurreição.

2. Na berakah temos a admiração:- Sentimento que perpassa toda a celebração. Na Oração eucarística temos os sentimentos que brotam do fato maravilhoso do mistério da encarnação e da Obra da salvação em Cristo Jesus.

3. Na berakah aparecem a exclamação e a aclamação: Bendito seja o Senhor... Na Oração eucarística, as exclamações e aclamações encontram-se no diálogo do prefácio, nas palavras do sacerdote, que se seguem logo depois, no Santo, na aclamação após as palavras da Consagração e no Amém final. Nas Orações eucarísticas recentes temos mais outras aclamações.

4. Na berakah, a proclamação dos benefícios ou a narração, ou a memória dos benefícios. Na Oração eucarística, explicita-se a razão da admiração: os benefícios narrados, sobretudo, no prefácio. Na maioria das Orações eucarísticas essa narração continua ainda depois do Santo. O ponto alto é o mistério da cruz de Cristo: morte e ressurreição de Cristo. A própria instituição da Eucaristia é um benefício proclamado, mesmo em forma de pedido.

5. Na berakah, pedidos e intercessões. Que Deus renove suas maravilhas concedendo novas bênçãos e graças. Na Oração eucarística, são as preces de intercessão pela Igreja, pelos falecidos e pela comunidade para que possa participar da vida e da felicidade dos santos.

6. Na berakah, louvor final. Na Oração eucarística, o louvor final está na doxologia “Por Cristo, com Cristo e em Cristo...”, que resume toda a Oração eucarística e a recoloca para a aclamação final de assentimento da assembleia pelo Amém.

À base do esquema fundamental da ação de graças, passemos à análise do conteúdo das Orações eucarísticas atuais.

Sabemos que até pelo ano 200 da era cristã a Oração eucarística era proclamada de modo espontâneo pelo Presidente da assembleia. A mais antiga Oração eucarística cristã formulada que a tradição nos legou é a de Hipólito de Roma, em torno do ano 220. É fundamentalmente a nossa Oração eucarística II, restaurada pela reforma litúrgica do Concílio Vaticano II. Ela tem no fundo a estrutura da ação de graças judaica da ceia pascal, mas com um conteúdo novo, o plano de Deus da salvação em Jesus Cristo.

Trata-se de uma ação de graças ao Pai, por Cristo, no Espírito Santo. A Igreja rende graças a Deus Pai, pelas maravilhas operadas por Cristo, no Espírito Santo. Ela louva, bendiz e agradece ao Pai, comemora o Filho e invoca o Espírito Santo. Este esquema, devemos tê-lo sempre em mente durante a proclamação da Oração eucarística.

Evoca-se toda a obra da Santíssima Trindade, presente e agindo na história do mundo, da humanidade e de cada indivíduo. A obra da criação é atribuída a Deus Pai, agindo pelo Filho, no Espírito Santo. Depois, proclama-se a obra atribuída ao Filho, a obra da salvação. Proclamam-se os mistérios da encarnação, da vida, paixão-morte e ressurreição do Senhor. O Espírito Santo leva a obra de Cristo à perfeição: a santificação, a vida da Igreja. Por isso, ele é invocado duas vezes: a primeira para que torne presente o Cristo no sacramento da Eucaristia; a segunda, para que participando todos do mesmo pão e do mesmo cálice tornem-se um só corpo e um só espírito. A presença do Corpo eucarístico de Cristo e do seu Corpo místico, a Igreja, é atribuída ao Espírito Santo, como o é também o corpo físico no mistério da encarnação.

Sob outro aspecto podemos dizer também que a Oração eucarística evoca e proclama toda a história da salvação: a criação e o Antigo Testamento atribuídos ao Pai; a obra da salvação atribuída a Jesus Cristo, e a vida da Igreja, atribuída ao Espírito Santo.

Podemos considerar mais um aspecto: o mistério da Trindade presente de algum modo em cada pessoa. No Pai contemplamos nosso ser, nossa vida como dom de Deus. No Filho contemplamos a vida nova e tudo aquilo que realizamos. No Espírito Santo evocamos a santidade, a unidade do nosso ser e agir, a consumação de tudo. Pela Oração eucarística somos, pois, lançados no mistério da Santíssima Trindade.

 

1.5. A Oração eucarística conforme a Instrução Geral do Missal Romano

A Oração eucarística lança a assembleia celebrante no âmago do mistério pascal de Cristo celebrado na Missa. Eis o que diz a Instrução Geral do Missal Romano:

“Inicia-se agora a Oração eucarística, centro e ápice de toda a Celebração, prece de ação de graças e santificação. O sacerdote convida o povo a elevar os corações ao Senhor na oração e ação de graças e o associa à prece que dirige a Deus Pai, por Cristo, no Espírito Santo, em nome de toda a comunidade. O sentido desta oração é que toda a assembleia se una com Cristo na proclamação das maravilhas de Deus e na oblação do sacrifício. A Oração eucarística exige que todos a ouçam respeitosamente e em silêncio” (Instr., n. 78).

É importante que os fiéis conheçam bem a estrutura e o conteúdo da Oração eucarística muito bem expostos pela Instrução Geral do Missal Romano:

“Podem distinguir-se do seguinte modo os principais elementos que compõem a Oração eucarística:

a) Ação de graças (expressa principalmente no Prefácio) em que o sacerdote, em nome de todo o povo santo, glorifica a Deus Pai e lhe rende graças por toda a obra da salvação ou por um dos seus aspectos, de acordo com o dia, a festa ou o tempo.

b) A aclamação pela qual toda a assembleia, unindo-se aos espíritos celestes canta o Santo. Esta aclamação, parte da própria Oração eucarística, é proferida por todo o povo com o sacerdote.

c) A epiclese, na qual a Igreja implora por meio de invocações especiais a força do Espírito Santo para que os dons oferecidos pelo ser humano sejam consagrados, isto é, tornem-se o Corpo e Sangue de Cristo, e que a hóstia imaculada se torne a salvação daqueles que vão recebê-la em Comunhão.

d) A narrativa da instituição e a consagração, quando pelas palavras e ações de Cristo se realiza o sacrifício que ele instituiu na Última Ceia, ao oferecer o seu Corpo e Sangue sob as espécies de pão e vinho, ao entregá-los aos Apóstolos como comida e bebida, dando-lhes a ordem de perpetuar este mistério.

e) A anamnese, pela qual, cumprindo a ordem recebida do Cristo Senhor através dos Apóstolos, a Igreja faz a memória do próprio Cristo, relembrando principalmente a sua bem-aventurada paixão, a gloriosa ressurreição e ascensão aos céus.

f) A oblação, pela qual a Igreja, em particular a assembleia atualmente reunida, realizando esta memória, oferece ao Pai, no Espírito Santo, a hóstia imaculada; ela deseja, porém, que os fiéis não apenas ofereçam a hóstia imaculada, mas aprendam a oferecer-se a si próprios, e se aperfeiçoem, cada vez mais, pela mediação do Cristo, na união com Deus e com o próximo, para que finalmente Deus seja tudo em todos.

g) As intercessões, pelas quais se exprime que a Eucaristia é celebrada em comunhão com toda a Igreja, tanto celeste como terrestre, que a oblação é feita por ela e por todos os seus membros vivos e defuntos, que foram chamados a participar da redenção e da salvação obtidas pelo Corpo e Sangue de Cristo.

h) A doxologia final que exprime a glorificação de Deus e é confirmada e concluída pela proclamação Amém do povo” (Instr., n. 79).

Se a preparação das oferendas e a Comunhão expressam mais a dimensão fraterna da celebração eucarística, a Oração eucarística expressa de maneira forte sua dimensão vertical; relaciona a comunidade diretamente com Deus. Lança a comunidade no coração de Deus, no mistério da comunhão trinitária.

 

1.6. A Missa é sacrifício de ação de graças

Depois das palavras da Consagração na Oração eucarística n. 3, quando se faz o memorial explícito do sacrifício da cruz de Cristo, chamado anamnese, diz-se: “Nós vos oferecemos em ação de graças este sacrifício de vida e santidade”. A Missa é um sacrifício de ação de graças. O que significa isso?

Primeiramente, o que é mesmo sacrifício? Sacrifício e sacerdócio têm algo em comum. Sacer-dos, do latim, significa dom sagrado, dote sagrado ou dote divino. Sagrado por duas razões: dom que vem de Deus, dado por Deus ao homem, e dom dado a Deus pelo homem. O homem – sua vida – é dom de Deus, criado à sua imagem e semelhança. O homem é feito para Deus, para que ofereça, atribua, oriente sua vida para Deus. Por isso ele é, por natureza, sacerdote. Perdeu, no entanto, esta sua condição de sacerdote pelo pecado.

Sacrifício significa o que é feito sagrado. O homem torna sagrada sua vida quando reconhece que é dom de Deus, quando a orienta totalmente para Deus, quando a oferece a Deus. Sacrifício é, enfim, reconhecer que Deus é o criador e senhor do homem e que o homem é sua criatura, seu filho e servo. Viver como filho no amor e na obediência é sacrifício agradável a Deus.

Jesus reconhece sua condição de criatura e se oferece totalmente a Deus, seu Pai, pela morte na cruz. Lança sua vida totalmente nas mãos do Pai: orienta sua vida pela vontade do Pai e a ele entrega sua vida. Por isso, sua morte na cruz foi um sacrifício. Por ela Deus recebeu de volta a natureza humana em Jesus Cristo. Jesus representou toda a humanidade. Se por um lado Jesus obedece ao Pai como Filho, por outro, Jesus obedece a si mesmo, ao ser criatura.

Em si, sacrifício não tem nada a ver com imolação, morte, renúncia ou sofrimento. Assim, louvor é sacrifício. A Sagrada Escritura fala de sacrifício de louvor, sacrifício de ação de graças. Mas, depois que o homem quis apossar-se da vida para ser igual a Deus, o verdadeiro culto a Deus passa pela morte. Somente reconhecendo sua condição de ser mortal é que o homem pode ser agradável a Deus. Jesus Cristo na cruz deu o exemplo para que todos os homens aprendessem a acolher a morte na sua condição de criaturas e, assim, por Cristo, pudessem viver.

 

2. A Missa como Ceia do Senhor

            Os dois primeiros nomes dados à Missa pelos cristãos foram Fração do Pão e Ceia do Senhor. É chamada também de Banquete pascal.

A gente certamente se pergunta como a Missa hoje apresenta tão poucos elementos que caracterizam uma ceia ou um banquete. Vamos tentar explicá-lo.

Jesus Cristo instituiu o sacrifício cristão na Última Ceia, no contexto de uma ceia pascal dos judeus, que daí por diante tornou-se a Ceia pascal dos cristãos. Por isso, o altar do sacrifício cristão tem a forma de uma mesa. Mas o que nós temos hoje na Missa que manifeste uma ceia fraterna, uma ceia pascal? Temos a mesa, as alfaias, os vasos sagados, os elementos essenciais de uma ceia, que são o alimento sólido e o alimento líquido, ou seja, o pão e o vinho misturado com água.

Depois, as palavras de Cristo: tomai e comei, e tomai e bebei. Ainda, a referência explícita depois da consagração à participação do mesmo pão e do mesmo cálice; e, finalmente, a fração do pão e a comunhão. Tudo bastante sóbrio.

Esta sobriedade dos sinais da ceia passou por uma evolução histórica. São Paulo na Primeira Carta aos Coríntios ainda fala de uma ceia fraterna, na qual se realizava a fração do pão. Mas ele á denuncia dificuldades e abusos em relação á Ceia do Senhor. Certamente foi por isso que aos poucos, já no fim do século 1º ou no início do século 2º, a ação de graças com a fração do pão foi colocada no contexto de uma celebração da Palavra de Deus.

 

2.1. O sentido de uma ceia

Para penetrarmos mais profundamente no sentido da Missa é importante compreender o simbolismo de uma ceia, ou de uma refeição fraterna, desde sua expressão mais sofisticada de um banquete diplomática até sua expressão mais simples e bem brasileira do cafezinho oferecido ao visitante, geralmente acompanhado de algum salgadinho.

O que significa uma ceia fraterna ou jantar de amigos no nível antropológico ou social? Pode significar: encontro, presença, união, amor, amizade, comunhão, solidariedade, confraternização, apreço, festa, comemoração, homenagem, conhecimento, diálogo, conversação, colóquio, intercâmbio, escambo, gratidão, acolhimento, confiança, intimidade, oferta, doação, serviço, reconhecimento, reconciliação, paz, alegria, satisfação, gozo, felicidade, compromisso, pacto, aliança, alimento, refeição, convívio e, em última análise, vida.

Se agora procurarmos aplicar tudo o que dissemos da ceia fraterna à Missa, descobriremos sua riqueza, na linguagem do comer e do beber juntos no Senhor e tendo como alimento o Senhor. Tudo quanto dissemos da ceia ou do jantar de amigos podemos dizer da Missa, no relacionamento dos participantes entre si, dos participantes com e em Cristo e dos participantes com Deus.

Vemos, então, como a linguagem da Missa como Ceia do Senhor é globalizante, atingindo o homem todo. Exige a presença, exige a ação em comum, exige o encontro. Aí se compreende que Missa por televisão certamente terá seu valor, mas não é nem de longe o que quer ser a Missa instituída por Cristo, ou seja, um convívio no Senhor.

Na linguagem da ceia ou do banquete entra o homem todo, com todos os seus sentidos: a vista, o ouvido, a boca, a fala, o gosto, o olfato, o tato, a ação, os sentimentos e o afeto.

A linguagem da ceia fraterna contém os elementos da ação de graças: o louvor, o agradecimento, o reconhecimento e a oferta, superando-a em sua riqueza.

A Missa constitui o banquete do Reino, para o qual todos são convidados, constituindo a grande comunidade dos irmãos. Ele exige a fração do pão. Exige que cada participante também se torne, como Cristo, Corpo dado e Sangue derramado para a vida do próximo.

 

2.2. Os elementos da Ceia do Senhor

Os elementos essenciais de uma ceia ou refeição fraterna são o alimento sólido e o alimento líquido. Ora, na Ceia do Senhor, a Missa, também temos estes dois elementos: o pão e o vinho com água. O pão e o vinho são, sem dúvida, o alimento sólido e o alimento líquido mais universal, tanto assim que se apresentam como seus símbolos. O vinho é o símbolo do líquido nobre do encontro humano. A água, símbolo da vida, também se faz presente.

Refletindo agora sobre o pão e o vinho na Ceia do Senhor ou na Missa, podemos encontrar neles três níveis de significado ou simbolismo:

1) O pão e vinho significam ou simbolizam a vida do homem e toda a criação como obra de Deus. Afinal, quem pode viver sem comer e beber? Assim, o pão e o vinho na Missa significam aquilo que o homem é, sua vida, sua existência como dom de Deus.

2) O pão e o vinho significam também o que o homem faz. Ninguém vai colher pão na roça nem buscar vinho na fonte. O pão, para chegar a ser pão, e o vinho, para ser vinho, passam por um processo humano. O pão e no vinho significam o homem: seu trabalho, sua dedicação, sua ação criadora. O homem prepara a terra, semeia, cuida, colhe, mói o trigo, prepara a massa e coze o pão. Por um processo semelhante passa o vinho. O pão e o vinho significam então todo este processo humano, a participação do poder criador de Deus, todo o seu ser e agir.

3) A partir da última Ceia o pão e o vinho, receberam um novo significado, que dá sentido aos dois primeiros: significam o Corpo de Cristo dado e o Sangue de Cristo derramado. Evocam o mistério pascal da morte e ressurreição de Cristo, pelo qual ele trouxe vida aos homens. Cristo deu novamente sentido à vida e ao trabalho do homem quando são vividos na perspectiva do amor.

Estas três dimensões estão bem expressas na breve ação de graças que acompanha a apresentação das oferendas ao altar pelo sacerdote: “Bendito sejais, Senhor Deus do universo, pelo pão que recebemos de vossa bondade, fruto da terra e do trabalho humano, que agora vos apresentamos, e para nós se vai tornar pão da vida”, “... vinho da salvação”. Ideal é que se siga a aclamação da assembleia: “Bendito seja Deus para sempre!”

 

2.3. A mística da preparação da Mesa do Senhor

Se o pão e o vinho na Missa significam o que o homem é e o que o homem faz na dimensão do amor de Cristo que no mistério de sua morte e ressurreição trouxe a vida aos homens, então o rito da apresentação dos dons adquire um significado muito profundo.

Qual seria este significado espiritual? Quando representantes da assembleia eucarística levam ao altar as oferendas do pão e do vinho com água, eles estão levando ao altar tudo aquilo que o pão e o vinho significam: nossa vida como dom de Deus, toda a criação, o nosso trabalho, a ação transformadora do homem, suas realizações, as alegrias e os sofrimentos, enfim, tudo aquilo que ele é, possui e realiza, na atitude do amor do Cristo morto e ressuscitado.

Tudo quanto significam o pão e o vinho com água será objeto da ação de graças, que será proferida pelo sacerdote. Tudo o que eles significam vai transformar-se no Corpo de Cristo dado e no Sangue de Cristo derramado.

Compreendendo esta realidade misteriosa, mas verdadeira, não é indiferente a maneira como se realiza a procissão das oferendas. Ela deverá ser realizada com calma, com o sentido de apresentação e de oferecimento. Não de modo utilitário, levando-se apenas o pão e o vinho ao altar para que o sacerdote os tenha sobre o altar. Assim, o modo de segurar as oferendas, os vasos sagrados, a maneira de caminhar, o modo de entregar ao sacerdote ou ao diácono, tudo deve expressar o sentido das oferendas na celebração.

Este rito iluminado pela Palavra de Deus e pela homilia deverá ajudar a recolher os motivos da ação de graças e despertar os corações e as mentes para se unirem na ação de graças ao sacrifício da cruz de Cristo, oferecendo por Ele, com Ele e Nele suas vidas ao Pai. A oração sobre as oferendas ajuda a realizar esta passagem do rito das oferendas para a ação de graças.

 

2.4. A dinâmica da Comunhão ao longo da Missa

Existe uma dinâmica de comunhão ao longo da Missa, que vai num crescendo desde a reunião da assembleia até a participação do mesmo pão e do mesmo cálice.

A primeira expressão de comunhão é a própria reunião da assembleia. Todos os fiéis convocados pela mesma fé em Jesus Cristo ressuscitado reúnem-se. Esta reunião já expressa o Corpo de Cristo, a Igreja, formada de pedras vivas.

Tendo dispostos os corações, todos ouvem a Palavra de Deus, procurando conformar suas vidas com a mesma. Depois, todos rezam para que possam realizar em suas vidas a mensagem ouvida.

Na preparação apresentação das oferendas a comunhão já se expressa de modo mais eloquente. Assim como a hóstia é formada de muitos grãos de trigo e o vinho composto de muitas uvas, os fiéis reunidos, representados no pão e no vinho, formam um só povo de irmãos e irmãs, uma só oferenda a ser apresentada por Cristo ao Pai.

Pela Oração eucarística Deus aceita as oferendas. Não só as aceita, mas as transforma no Corpo e no Sangue de Cristo. Todos os fiéis, de modo misterioso, mas real, também são transformados em Cristo e oferecidos com Ele e Nele ao Pai. Na hora da consagração e no memorial explícito da morte e ressurreição de Jesus, todos fazendo sua a Oração eucarística, unem-se com Cristo e entre si. As palavras do Pai a seu Filho dirigem-se a todos os que estão em comunhão com Ele: “Este é o meu filho muito amado, esta é minha filha muito amada, nos quais pus a minha complacência” (cf. Lc 3,22).

Assim reconciliados e tornados irmãos de Cristo e filhos do Pai celeste, todos podem exclamar e dizer “Pai nosso...”. Todos manifestam a paz e a comunhão entre si, irmanados em Jesus Cristo.

E Deus não se deixa vencer em generosidade. Em resposta à oferta de suas vidas aceitas como dom de Deus, o Pai convida seus filhos à mesa divina, onde o próprio Deus se dá em alimento. É o momento sublime em que todos participam do mesmo Corpo e do mesmo Sangue do Senhor, tornando-se um só corpo e um só espírito. Aí se realiza o desejo do homem de ser como Deus, de participar de sua divindade. Não na atitude de orgulho, querendo a vida como direito, mas acolhendo-a como dom de Deus, incluindo a sua condição mortal. Então, Jesus se deixa comer e beber como garantia da imortalidade (cf. Jo 6,54). Na comunhão antegoza-se a realidade da vida e da felicidade eterna em Deus.

 

2.5. A Comunhão eucarística, participação da Mesa do Senhor

Realiza-se aqui a grande comunhão dos fiéis com Deus, dos fiéis com Cristo, dos fiéis entre si. Só pode participar desta comunhão quem estiver com a consciência reconciliada com Deus, com o próximo e com todas as coisas. Isso não significa que não haja tensões. Talvez alguém ainda guarde sentimentos de injustiças sofridas, talvez ainda se manifestem ressentimentos. Nosso Senhor não exige que gostemos de todos, mas que queiramos o bem de todos e a todos. O perdão acontece no nível da inteligência e da vontade.

Dizemos que na Comunhão eucarística recebemos a Cristo. Mais apropriadamente podemos dizer que é Cristo quem nos recebe. Entramos em comunhão com Cristo. Comunhão é mais do que mera união ou presença. A palavra “comunhão” não vem de co-união, justaposição, mas de co-múnus, múnus comum. Múnus significa tarefa, ação, obra. Trata-se, portanto, de uma ação comum, de uma tarefa comunhão. Comungando o Corpo e o Sangue de Cristo, entramos na tarefa de Cristo de sermos Corpo dado e Sangue derramado para a vida do mundo, comprometemo-nos com o projeto de Cristo. Realiza-se a comunhão divino-humana em que Deus e o ser humano se tornam um só, sem que cada qual perca sua identidade. Realiza-se o mistério do esposo e da esposa: dois formando uma só carne.

Profundas são as palavras do papa Bento XVI em sua Exortação apostólica Sacramentum Caritatis:

“O memorial do seu dom perfeito consiste não na simples repetição da Última Ceia, mas sim propriamente na Eucaristia, ou seja, na novidade radical do culto cristão. Assim Jesus deixou-nos a missão de entrar na sua ‘hora’: A Eucaristia arrasta-nos no ato oblativo de Jesus. Não é só de modo estático que recebemos o Logos encarnado, mas ficamos envolvidos na dinâmica da sua doação. Ele arrasta-nos para dentro de si. A conversão substancial do pão e do vinho no seu corpo e no seu sangue insere dentro da criação o princípio de uma mudança radical, como uma espécie de ‘fissão nuclear’ (para utilizar uma imagem hoje bem conhecida de todos nós), verificada no mais íntimo do ser; uma mudança destinada a suscitar um processo de transformação da realidade, cujo termo último é a transfiguração do mundo inteiro, até chegar àquela condição em que Deus seja tudo em todos (cf. 1Cor 15,28)” (Sacr. Car.,11). A Comunhão eucarística nos arrasta para dentro de Cristo, nos transforma e nos diviniza.

O sacerdote também é ministro da Comunhão. Por isso, não se deve deixar o pão eucarístico e o cálice sobre o altar, deixando que todos deles participem. Tanto o diácono como os ministros extraordinários da Comunhão eucarística, antes de ajudarem na distribuição comungam das mãos do sacerdote. A Igreja acolhe o dom perfeito do Filho de Deus e não se apropria, o recebe gratuitamente. O fato de receber de outro ministro a sagrada Comunhão vem bem ao encontro da prática nos ritos orientais, onde o próprio sacerdote Presidente da assembleia não toma a Comunhão, mas a faz servir a si por um diácono ou sacerdote concelebrante.

Esta comunhão, que brota da ação de graças, gera a Igreja. A ceia fraterna ou o banquete, na simbologia cristã, sempre significou quatro níveis de comunhão: o amor fraterno, chamado ágape, a comunidade eucarística, a Igreja e a felicidade eterna. O amor conjugal também é celebrado com banquete.

 

2.6. O compromisso gerado na Missa

A Missa, celebração da Páscoa cristã não é apenas um memorial do passado. Ela torna presente a Páscoa de Cristo e da Igreja. Quando dizemos Páscoa da Igreja, trata-se das experiências pascais de cada cristão e de cada pessoa humana. A Páscoa fundamental que se deu na fé em Jesus Cristo e no Batismo e todas as demais experiências pascais em sua vida. Sobretudo as que aconteceram a partir da última páscoa-rito, ou seja, da última Celebração eucarística.

Mas se a Celebração eucarística constitui uma ação de graças pelas manifestações da bondade de Deus no passado em Cristo, se ela constitui a atualização do sacrifício da cruz de Cristo pela Igreja, ela é também a renovação da aliança com Deus, por Cristo, com Cristo e em Cristo.

Esta renovação da aliança gera um compromisso. O compromisso de viver de acordo com aquilo que se celebrou. Na Missa o cristão renova seu sim à Palavra de Deus proclamada. Coloca sua vontade na vontade de Jesus Cristo, que por amor se dá ao Pai e a todos os homens. Jesus Cristo e os cristãos selam um pacto de sangue na hora da Comunhão.

Esta ação ritual com profundo significado de pacto gera o compromisso de assumir a causa de Deus, a causa de Jesus Cristo, a causa do Reino de Deus. O cristão renova o compromisso do Batismo, na expressão da ação de graças. Ele compromete-se com Jesus Cristo e com os irmãos a ser corpo dado e sangue derramado a exemplo de Cristo. Compromete-se a transformar a sua vida numa ação de graças, ou seja, numa fonte de bênçãos, numa fonte de graças para o seu próximo.

Em cada Missa, ele acolhe a ordem de Cristo: “Fazei isto em memória de mim”. Anunciar a morte e a ressurreição de Cristo até que Ele venha. Portanto, está presente em cada celebração da Missa a dimensão profética da Igreja. A própria celebração, através da Palavra de Deus e da comunhão na caridade, denuncia tudo o que se oponha ao plano de Deus. Prenuncia o banquete da felicidade eterna. A ação sociotransformadora também esteve presente na Missa como motivo de celebração, de ação de graças. Na celebração, por sua vez, o cristão se fortalece para continuar sua ação profética através da vivência de todas as dimensões da vida da Igreja.

 

 

COMPREENSÃO TEOLÓGICA DE LITURGIA

 

Frei Alberto Beckhäuser, OFM

 

            O Concílio Vaticano II, na constituição Sacrosanctum Concilium, descreve assim a Sagrada Liturgia:

            Com razão, pois, a Liturgia é tida como o exercício do múnus sacerdotal de Jesus Cristo, no qual, mediante sinais sensíveis, é significada e, de modo peculiar a cada sinal, realizada a santificação do homem; e é exercido o culto público integral pelo Corpo Místico de Cristo, Cabeça e membros (SC 7).

O Catecismo da Igreja Católica aborda a compreensão da Liturgia à luz do conceito de Celebração. É a “Celebração da fé cristã” ou a “Celebração do Mistério pascal”.

            Para compreendermos a natureza da Liturgia é fundamental a compreensão das noções de mistério, de páscoa e de símbolo.

            Isso, porque a Liturgia como celebração compreende três elementos constitutivos: o fato valorizado ou páscoa, a expressão significativa, ou rito simbólico e a intercomunhão solidária ou mistério. Nesta abordagem trataremos primeiramente do mistério e depois da páscoa e por fim do símbolo.

 

1. O mistério

 

            O grande liturgista Odo Casel define a Liturgia como sendo o Mistério do Culto de Cristo e da Igreja.

Então, para chegarmos a uma compreensão adequada do que seja a Liturgia é importante aprofundar o conceito de mistério.

            Quando se fala em mistério, num primeiro momento, pensa-se logo em algo desconhecido, oculto, que não se pode entender. Este aspecto está sempre presente. Por outro lado, falamos em mistério de Deus, mistério da Santíssima Trindade, mistério da Encarnação, mistério da Eucaristia, mistério do Natal, mistério da Páscoa, mistérios do Rosário, o mistério do homem, o mistério do mal, o mistério do olhar de uma criança.

            Percebemos, então, que se usa o termo mistério em sentidos diversos. Se abrirmos o Pequeno Dicionário da Língua Portuguesa, percebemos que mistério contém dupla conotação: o oculto, o secreto, o inatingível pela razão humana e, por outro lado, o rito, como expressão do culto.

            A palavra mistério vem do grego “myo”, “mystérion”. “Myo” significa estar fechado, estar cerrado, ou fechar-se cerrar-se. Mas só de algo que pode ser descerrado, aberto. Assim, a porta, os olhos, a boca. Temos, pois, o elemento fechado, oculto, mas que pode ser revelado, comunicado.

            O termo mistério tem origem no chamado culto dos mistérios dos gregos. Na origem desse culto encontra-se o mito, que tenta trazer à memória um fato valorizado, ou seja, a vida, quer da natureza, quer do ser humano.

            Para melhor compreendermos, vejamos o mito de Elêusis:

Coré, jovem moça, é raptada por Plutão, o deus dos abismos, que a faz sua esposa. Demetra, mãe de Coré, considerando morta sua filha, quer vingar-se, destruindo tudo por onde ela passa. Aparece, então, Hermes, que, no carro de Plutão, arrebata Coré de seus braços e a restitui à sua mãe. E tudo revive. Mas, pelo fato de Coré ter-se tornado esposa de Plutão, doravante ela terá que viver duas terças partes do ano debaixo da terra e uma terça parte do ano sobre a terra.

Este mito quer interpretar um fenômeno da natureza, ligado à vida, a sorte anual da semente lançada à terra antes do inverno. Este ciclo repete-se a cada ano. Os povos primitivos compreenderam muito cedo que este mito podia expressar também um fenômeno humano: a crença da vida feliz após a morte.

            Ora, o rito através do qual era representado vivamente o mito era chamado mistério. O mistério é pois o mito representado por um rito. O rito é mistério porque ao mesmo tempo oculta e revela algo. Neste caso, revela o mito e leva a uma vivência do mito. Estabelece-se uma relação, uma comunhão com a divindade através do rito memorial do mito.

            Na compreensão da revelação positiva, o mistério se revela, o mistério se realiza, onde se estabelece uma intercomunhão ou simplesmente uma comunhão divina de amor e de vida: o mistério de Deus Trino e Uno. O mistério se realiza também, onde o divino e o humano se encontram, se tornam um, como no Mistério da Encarnação, que então é chamado mistério de Cristo. E em todo ser humano criado à imagem e semelhança de Deus. Lá onde Deus e o ser humano se encontram na vida e no amor, onde se tornam um, onde convivem no amor, aí se realiza o mistério. Lá onde pessoas humanas convivem em Deus no amor, aí se realiza também o mistério.

            Este convívio realiza-se de modo sacramental, quando a Igreja comemora os mistérios de Cristo, atualizando-os desta forma no que chamamos de mistério do culto, a Liturgia. Trata-se do memorial celebrativo ou ritual, a Liturgia celebrada. Claro que o mistério também se realiza na ação da caridade, na prática do bem, na promoção da justiça. A isso costumamos chamar de memorial testamentário, ou liturgia vivida.

 

            2. Páscoa

 

            Na História da Salvação que tem o seu impulso inicial em Abraão, atingindo depois uma família (Jacó) e um povo (o Povo de Israel), passamos do mito para o evento salvífico, o fato valorizado da intervenção de Deus, que por sua vez é celebrado.

            Trata-se aqui de saber o que se celebra. Toda celebração tem como conteúdo um fato valorizado, que também pode ser chamado páscoa.

            Páscoa significa passagem. Não qualquer passagem, mas passagem de uma situação para outra melhor, por ação de Deus.

            Podemos distinguir entre a páscoa-fato e a páscoa-rito ou páscoa vivida no rito.

 

            1) Páscoa-fato e páscoa-rito na experiência religiosa do Povo de Israel

 

            Para compreendermos o que seja páscoa é bom recorrer à experiência do Povo de Israel, descrita no Livro do Êxodo.

            Páscoa-fato: - Temos na história da Povo de Israel um fato fundamental, fundante de sua identidade como povo de Deus: a passagem de Deus, fazendo com que o Povo eleito pudesse passar da escravidão à liberdade, da morte para a vida, de não povo a povo. Páscoa para o povo de Israel é todo o processo da ação de Deus em favor do seu povo, desde a libertação do Egito, a passagem pelo mar Vermelho, e aliança no Sinai, até a tomada de posse da terra prometida onde corre leite e mel, o retorno ao paraíso.

            A passagem é dupla: Deus passa libertando, salvando e fazendo aliança e o povo passa, sendo libertado, sendo salvo, respondendo à proposta de aliança.

            Assim, a páscoa-fato do povo de Israel tem dois pontos altos que podemos chamar de Páscoa da libertação do Egito, centrada na passagem pelo mar Vermelho (Êx. 15-19), e a páscoa da Aliança aos pés do monte Sinai, proposta no Cap. 19, 3-8 e ratificada no Cap. 24,3-8.

            Páscoa-rito: A páscoa rito consiste na celebração da páscoa-fato ou na comemoração da páscoa-fato, tornando presente no memorial celebrativo a páscoa-fato e, dessa forma renovando-a sempre de novo. Temos assim na experiência religiosa do Povo de Israel, a celebração anual da Páscoa, na Ceia pascal na festa de primavera, a celebração semanal da Páscoa, na culto sinagogal sabático e a celebração diária da Páscoa, na oração de ação de graças, do Louvor vespertino e no Louvor matutino, o xemá vespertino e o xemá matutino.

 

            2) Páscoa-fato e páscoa-rito no Novo Testamento, em Cristo

 

            O que foi prefigurado no Antigo Testamento, realiza-se em plenitude no Novo Testamento em Cristo Jesus.

            Páscoa-fato no Novo Testamento: - A grande e definitiva passagem de Deus por este mundo, passagem libertadora e da nova e eterna Aliança é Cristo, no mistério da Encarnação, Vida, Paixão-Morte, Ressurreição e Ascensão aos Céus. Este é o fato central da História da Salvação. Este fato fundante fonte de toda libertação, salvação e Aliança é chamado também de mistério de Cristo. As diversas ações pelos quais Jesus Cristo revela e realiza o plano de Deus em favor da humanidade, são desdobramentos do mistério de Cristo, chamados também mistérios de Cristo, desde a criação, a encarnação, nascimento, manifestação, batismo no Jordão, pregação, milagres, até os passos da Paixão-morte, Sepultura, Ressurreição, Ascensão, Envio do Espírito Santo e a ação de Jesus pelo seu Espírito na História da Igreja, até seu retorno glorioso.

            Páscoa-rito no Novo Testamento: - Páscoa-rito cristão é a celebração da Páscoa-fato, centrada no mistério pascal de Cristo de sua Paixão-morte e Ressurreição salvadoras em todos os seus desdobramentos.

            Estas celebrações dos mistérios de Cristo (páscoas-fatos), constituem os mistérios do culto cristão: Os Sacramentos, particularmente, a Eucaristia, o Ano Litúrgico, a festa primordial, ou seja, o Dia do Senhor, o Domingo, a Liturgia das Horas, as Celebrações de Bênçãos, etc. São as diversas expressões da Liturgia. Pelos mistérios do culto a Igreja torna presente e participa ritualmente, sacramentalmente, dos mistérios de Cristo.

 

            3. O símbolo

 

            Visto o que é mistério do culto, devemos agora considerar a expressão significativa ou o símbolo, pois a liturgia, toda ela, tem caráter simbólico.

            Chegamos agora ao terceiro elemento de uma celebração, ou seja, à sua expressão significativa que se dá pelo rito como expressão significativa do fato celebrado.

            Primeiramente, nos devemos perguntar o que é o símbolo.

            Simbólico, aqui, não é sinônimo de aparente ou irreal. Trata-se do símbolo no sentido forte original. É a mesma realidade em outro modo de ser.

            Alguns exemplos podem ilustrar o que seja um símbolo. O mais clássico é o bastão usado em contratos comerciais no mundo grego. Quando dois comerciantes fechavam um contrato, tomavam um bastão ou uma vara e o quebravam em duas partes, levando cada um uma parte consigo para casa. Quando novamente se encontravam para cumprir o contrato, cada um trazia a parte do bastão e uniam as duas partes. Esta ação de unir as duas partes do bastão era chamada “symbolon” do verbo “syn-ballo”, laçar junto, unir.

            Ora, cada parte contém e oculta a outra; revela e comunica a outra. Uma está na outra, embora de outra forma. O desenho das duas partes, que se unem e se tornam um, é o mesmo, em modo de ser diferente; côncavo e convexo.

            Assim também o ser humano. Ele existe em dois modos de ser. Na expressão masculina, e temos o varão, e na expressão feminina, e temos a mulher. Ambos são ser humano. O varão ou, no linguajar comum, o homem, contém, oculta e revela a mulher; a mulher, por sua vez, contém, oculta e revela o homem. Um é símbolo do outro. Daí a força da linguagem corporal através da sexualidade.

            A rosa é símbolo do amor; as alianças, símbolo do amor fiel dos esposos. Trata-se da mesma realidade em outra forma.

            Mais um exemplo: o bolo de aniversário. Um dia escutei uma moça dizer a outra, sua amiga: “Fulana de tal convidou-me para comer um bolo em sua casa. É aniversário dela. Mas, não vou não. Se quiser comer bolo, vou à confeitaria e como à vontade”. A amiga lhe respondeu: “Mas, é festa, não é?! E fez-se silêncio. Para a primeira, o bolo é simplesmente, bolo. Pode-se comer sozinha na confeitaria para satisfazer a gula ou saciar a fome. Para a outra, o bolo não é bolo, mas festa porque contém, oculta, revela e comunica a festa. Podemos dizer que o bolo é o símbolo, a festa é o mistério. Assim, o símbolo contém, oculta, revela e comunica ao mesmo tempo o mistério. Ou, ainda, o símbolo é a linguagem ou a comunicação do mistério. Símbolo e mistério podem ser distinguidos, mas não separados.

 

            4. O símbolo, ou a linguagem simbólica na Liturgia

 

            A Liturgia, à luz do Concílio Vaticano II, (cf. SC, n. 7) é compreendida como o exercício do múnus sacerdotal de Jesus Cristo, no qual, mediante sinais sensíveis, é significada e, de modo peculiar a cada sinal, realizada a santificação do homem; e é exercido o culto público integral pelo Corpo Místico de Cristo, Cabeça e membros.

            A Liturgia realiza-se, toda ela, através de sinais sensíveis e significativos, através de símbolos, no sentido forte do termo. Um conjunto de símbolos forma o rito. O rito é a linguagem ou a comunicação, a participação do mistério. Quando não se vive o sentido profundo do símbolo, cai-se no ritualismo.

            Os ritos, constituídos de um conjunto de símbolos, têm caráter simbólico. Eles contêm, ocultam, revelam e comunicam ao mesmo tempo os mistérios de Cristo, os fatos valorizados, as páscoas-fatos, tornando-os presentes. Os sinais litúrgicos, os símbolos, possuem uma tríplice dimensão: evocam ou comemoram o passado, indicam o presente, ou tornam presentes os fatos comemorados e prefiguram o futuro. Abrangem, portanto, todo o tempo: o passado, o presente e o futuro. Sua vivência lança no mistério que, por sua vez, abole o tempo. O rito bem vivido faz esquecer o relógio, porque mergulha no mistério que engloba todo o tempo.

            Através dos símbolos e dos ritos, ou seja, através dos mistérios do culto, tornam-se presentes, atualizam-se os mistérios de Cristo. É a mesma realidade acontecida uma vez por todas na história, presente na ação litúrgica em outra forma, na forma do símbolo, na forma do rito.

            Quanto mais um símbolo estiver ligado à vida, ou seja, à Páscoa de Cristo e da Igreja, mais forte e mais significativo será. Esta vida é Cristo Jesus nos seus mistérios e é a Igreja nas suas experiências pascais. Cristo se tornará presente sobretudo pela linguagem bíblica, e a Igreja, pelos símbolos que signifiquem a vida do povo, manifestada em sua história. Esta vida manifesta-se nas várias dimensões de sua ação pastoral.

            Isto vem muito bem expresso na alocução de João Paulo II, dirigida aos Bispos do Regional Sul-1 da CNBB, no dia 20 de março de 1990 em visita “ad limina”: “Na Liturgia, especialmente na Eucaristia, celebra-se a realidade fundamental da Páscoa: morte e ressurreição de Jesus Cristo, morte e ressurreição do batizado, com Cristo. Na ação litúrgica devem encontrar espaço todas as realidades da vida cotidiana do cristão, pois é com todos os aspectos de sua pessoa que também ele tem de “passar deste mundo Pai”. Ao participar da celebração, o cristão terá presente suas aspirações, alegrias, sofrimentos, projetos, bem como os de todos os seus irmãos. E porá todas essas intenções na Oração que sua comunidade, com toda a Igreja dirige ao Pai, por Cristo Salvador, na unidade do Espírito Paráclito” (n. 9).

            O primeiro grande símbolo na Liturgia é a pessoa. Antes de tudo, a assembléia reunida e dentro dela, o sacerdote, o diácono e os demais ministros.

Depois, temos a Palavra, seja ela Palavra de Deus, ou palavra da Igreja, expressa nas orações e nos cantos.

Elementos como água, pão e vinho, luz, cinzas, óleo, fogo ou luz, muito ligados à vida também podem ser símbolos.

Temos, depois, objetos, gestos, movimentos, ações.

Entra a linguagem da arte, como a cor e o som, expressa na pintura, na escultura e na música.

Não podemos esquecer o olfato e o tato. Temos ainda o tempo que está à base do Ano litúrgico, da Festa semanal, o Domingo, e da Liturgia das Horas. Lembramos ainda o silêncio que fala. Também ele pode comunicar o mistério.